Gestão

A Crise, o Stress e a Excelência

Quando os níveis de stress se tornam nocivos, deixamos de ser capazes de atingir a excelência. A capacidade para gerir stress é uma competência cada vez mais importante e apreciada na gestão, sobretudo porque não abunda.

Nunca trabalhámos a um ritmo tão intenso. A quantidade de informação que nos chega nunca foi tão grande e a velocidade de comunicações é tal que temos permanentemente uma sensação de urgência e uma enorme frustração por não chegar a tudo.

O dispersar da atenção, em grande parte devido à quantidade de solicitações que recebemos, ora notificações através do e-mail, das redes sociais de mensagens escritas, ora interrupções, telefonemas etc. Tudo isto retira-nos tempo e predisposição mental para tarefas mais complexas, que implicam maior concentração e que acabam por ter que ser concretizadas sobre enorme pressão, fora das horas de trabalho e muitas vezes em casa.

Provavelmente numa altura em que os nossos níveis de produtividade deixam muito a desejar, até porque esse é o momento em que deveríamos estar a recuperar energia para o dia seguinte.

Apesar de não haver nenhuma relação directa, a crise económica tornou esta realidade ainda mais complexa. A diminuição de recursos huma

s e materiais, a redução da margem de erro, a pressão de concretização, a incerteza face ao futuro e a pressão por resultados tornaram-se uma constante no dia-a-dia de trabalho, gerando muitas vezes frustração e uma tensão permanente.

Desta forma, é fácil entrarmos num ciclo vicioso, em espiral negativa. Ao estarmos mais cansados e mais frustrados ficamos mais vulneráveis e menos capazes de fazer frente a um ambiente de gestão mais complexo e exigente. Há menos margem para erros, o que exige mais competência, mais empenho e principalmente mais atenção. Mas como? O desgaste mental e físico é maior do que nunca, pelo que convém cuidar cautelosamente destas duas componentes, para não se ir abaixo.

Gerir o stress significa cada vez mais estar preparado para enfrentar um ambiente de trabalho difícil, instável mesmo, e para o conseguir tem de agir com o distanciamento necessário que possibilite adoptar os comportamentos adequados e produtivos. É agir em vez de reagir. Estar em consciência em vez de modo automático. Mas para isso, tem de estar no melhor das suas capacidades físicas e mentais, o que nem sempre acontece.

Em primeiro lugar deve compreender e aceitar que, enquanto humano, tem um modo de funcionamento diferente de uma máquina. Uma máquina pode ter um funcionamento contínuo, com uma qualidade de output constante. O corpo humano funciona e requer alternância entre períodos de actividade e de recuperação. Trata-se de uma ideia simples, mas estará realmente a acontecer?

Nem sempre aceitamos isto e vamos frequentemente para além dos limites. E, enquanto fazemos isto, vamos desgastando a nossa forma física e mental, o que nos torna mais vulneráveis ao stress.

Ao pensarmos que a melhor forma de produzir resultados é trabalhar mais horas e de forma mais contínua, rapidamente criamos um padrão de longas jornadas de trabalho, com menos energia para a família e amigos, menos tempo para relaxar e o pior de tudo: menos horas de sono. No dia seguinte, voltamos ao trabalho mais cansados, menos empenhados, com menor capacidade de focalização e muito menor sentido de humor. Progressivamente a nossa predisposição para os outros vai-se reduzindo. Tornamo-nos menos colaborantes e apoiantes e cada vez mais centrados nas nossas necessidades. Instala-se assim, o tal ciclo vicioso.

Para quebrar este ciclo, há que tornar mais sustentável a nossa capacidade física e mental. Necessitamos de analisar algumas coisas simples, mas que sabemos estarem relacionadas com o nosso equilíbrio. Questionarmo-nos sobre os nossos hábitos nutricionais, se praticamos exercício físico com a regularidade e a intensidade apropriada, se intercalamos momentos actividade com repouso e lazer e, por fim, se estamos a dormir as horas que necessitamos.

É sabido que comer mais vezes ao dia, em menor quantidade, mantém a energia e os níveis de glucose que necessitamos para nos mantermos produtivos. Por isso, trabalhar durante a hora de almoço é provavelmente uma má ideia e as pausas para ingerir algo saudável entre refeições, deve ser visto como uma necessidade básica para manter o cérebro em produtividade máxima.

O exercício físico aumenta a nossa energia e promove uma maior estabilidade emocional e mental. É por este motivo que a sua prática, a meio ou no final de um dia de trabalho, pode ser uma forma de recuperação essencial para melhor gerir o seu quotidiano profissional. Começar geralmente custa, mas depois de qualquer prática, os benefícios são imediatamente sentidos. Faça-o, não por vaidade física, mas pelo seu bem-estar físico e mental. Vai certamente encontrar uma modalidade que se adequa ao seu estilo e ritmo.

Reduzir as horas de sono para conseguir trabalhar mais é também um mau investimento. Sabendo que o nosso ritmo biológico implica alternância e não se dá bem com funcionamento contínuo, é um dado adquirido que precisamos do sono para recuperar energia. E quanto maior a actividade cerebral, maior a necessidade de dar ao cérebro o tempo de se organizar e processar a informação recolhida durante o dia – que é o que acontece quando dormimos. Reduzir o tempo de sono tem reflexos físicos imediatos que tendem a ser compensados pelo aumento dos níveis de cafeina e de outros estimulantes, para conseguirmos estar mais atentos e focados.

Quando esta prática se torna regular, passamos para um outro patamar, mais preocupante, que consiste num regime de alternância entre euforia e apatia. No final do dia, o nosso corpo e mente pede descanso de tal forma, que nos enterramos no sofá e procuramos não pensar em mais nada, com a ajuda da TV. Este ciclo passa a caracterizar-se por uma alternância improdutiva, entre actividade frenética e o colapso.

Conseguir mudar alguns hábitos e cuidar mais si, na vertente humana e física, é um acto de coragem que reforçará a sua capacidade de enfrentar o trabalho de forma mais produtiva e geri-lo sem adquirir demasiado stress. Vai-se sentir mais forte, conseguir estar mais presente em tudo o que faz, reforçar o seu quadrante emocional em auto-estima e segurança.

A segurança é um sentimento essencial para que o nosso estado emocional esteja preparado para enfrentar as adversidades do dia-a-dia, sobretudo em períodos de crise como o que vivemos. A falta de segurança coloca-nos em modo defensivo e de alerta, abrindo espaço para as emoções negativas que interferem com a capacidade de gerir o stress. A irritação, frustração, impaciência despertam comportamentos defensivos e de ataque, ansiedade e preocupações que absorvem toda a nossa energia e conduzem-nos à exaustão. Está um pouco nas nossas mãos inverter isto: Recorrer ao exercício, planear bem o seu dia, respeitar as necessidades de repouso, cuidar da alimentação e quebrar um pouco a rotina, são pequenas dicas que o ajudarão a recuperar a calma, o optimismo, o humor e o gosto pelo trabalho. Vai ver que também se sentirá mais produtivo e consequentemente mais confiante.

Tempos como os que vivemos, complexos e stressantes, aumentam a complexidade dos problemas e exigem o melhor de nós. Para manter níveis de excelência, prepare-se todos os dias, para o dia seguinte e lembre-se que afinal de contas, somos apenas humanos.

Por César Ribeiro de Almeida, Professor do The Lisbon MBA

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