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Bomba atómica: BCE quer dar dinheiro à borla a toda a gente

A crise é tão prolongada e as medidas tomadas tardam tanto a ter efeitos na inflação e nas economias da zona euro que o Banco Central Europeu (BCE) admitiu hoje, finalmente e após muitos meses, que está a pensar em modelos de "quantitative easing" (QE), isto é, programas de alívio monetário puro que, no fundo, é ter o banco central a imprimir moeda que depois injeta nas economias, sem cobrar em troca.

Será ter o
banco central a criar dinheiro novo e a oferecê-lo às economias: aos governos, aos bancos, às empresas, às famílias. Haverá mais dinheiro a circular, sem que o BCE à posteriori faça esterilização ou secagem da liquidez adicional.

A medida, hoje revelada por Mario Draghi, faz com que o BCE financie no limite e de forma direta empresas, bancos e governos a custo zero uma vez que se trata de impressão pura de moeda.

Ora, uma medida desse calibre — um género de bomba atómica da política monetária, uma solução de último recurso — levanta problemas sérios e políticos na arquitetura europeia, Draghi mostrou-se confiante de que ela “não é ilegal”. E em princípio, pode entrar em vigor “no início do próximo ano”.

Quem está contra e porquê

A Alemanha e outros países ricos do centro da Europa sempre se mostraram, e continuam a ser, furiosamente contra este tipo de políticas de financiamento direto via moeda, alegando, entre outras coisas, que é ilegal ter o BCE a fazer financiamento monetário de Estados, por exemplo.

Ao fazê-lo, o BCE pode ficar com o lixo e as dívidas de bancos, empresas e Estado, mutualizando perdas de países mais pequenos, por exemplo. A Alemanha é o país com mais capital na estrutura do BCE.

“Sim, discutimos várias opções de quantitative easing”, mas “nenhuma das possíveis futuras decisões têm a ver com financiamento monetário”, garantiu Draghi.

O que está a aqui em jogo é que o BCE precisa de ter controlo sobre o tamanho do seu balanço, explicou o banqueiro, algo que atualmente parece não estar resolvido.

Draghi frisou bem que o programa de QE, cujos contornos estão por definir, pode avançar mesmo sem o acordo de todos os governadores, o que desde já pode ser visto como um aviso face a uma previsível oposição do Bundesbank.

E teria de ser para breve já que o BCE está a ficar sem opções de política e tem falhado sucessivamente em puxar a inflação para próximo de 2%, como está no tratado que institui o seu mandato.

“Não precisamos de unanimidade” para levar um plano desses adiante, começou por dizer Draghi. “Mas pode ser desenhado para que haja unanimidade”, juntou.

No entanto, tentou logo tranquilizar os alemães dizendo que o BCE não avançará com um QE para criar financiamento monetário, nem tão pouco para fazer “chantagem sobre os governos”. É que, no limite, está a dar-lhes dinheiro.

Um programa de alívio monetário “pode incluir obrigações do Tesouro” e “todos os tipos de ativos, exceto ouro”, mas a forma como o estão a pensar “respeitará o nosso mandato”, garantiu o presidente do BCE. “Comprar obrigações do Tesouro cai claramente dentro do nosso mandato”, repetiu, houvessem dúvidas das suas intenções.

Diferença entre QE e programas já lançados

O BCE simplesmente adquire os ativos e compensa com emissão de moeda, que fica a circular no sistema. Só o BCE, único emissor de moeda, tem poder para fazer uma coisa destas.

“Há evidência suficiente de que o QE pode ser eficaz”, disse Draghi, dando como exemplos os casos britânico e norte-americano em que os bancos centrais avançaram com programas desse tipo. O Japão também o fez, mas teve pouco sucesso. É um caso “mais complexo”, admitiu o banqueiro central.

Com o QE “não queremos afastar investidores privados destes mercados”, advertiu o líder do BCE.

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