Défice: França e Itália pedem alívio, Portugal e Irlanda demarcam-se

Duas das maiores economias da zona euro, França e Itália, apresentaram esta semana as propostas de Orçamento para 2015 e uma coisa ficou clara: ambos pretendem mais flexibilidade e tempo para reduzir o défice até aos 3%. Portugal e Irlanda demarcam-se da posição e até mantêm um tom de censura às pretensões gaulesas: cumprir o que foi combinado. Alemanha gostou de ouvir.

De acordo com informações veiculadas ontem pela Reuters e hoje pelo Financial Times, a segunda e terceira maior economia do euro estão a pressionar as instituições da União Europeia (conselho e comissão) no sentido de obterem mais flexibilidade na aplicação das regras do tratado orçamental europeu de forma a dar mais oxigénio às economias e a gerirem melhor o descontentamento político e social interno.

Em França, o segundo maior país, a situação parece particularmente delicada. A proposta de Orçamento do Estado para 2015 hoje apresentada pelo Governo francês dramatiza a situação: o défice nominal será de 4,3% no próximo ano e só ficará abaixo dos 3% do PIB (a regra-mãe dos tratados) em 2017.

2017 é tarde demais. O que tinha ficado combinado com Bruxelas, no âmbito pacto de estabilidade, é que França traria o défice para menos de 3% já no próximo ano.

O ministro das Finanças, Michel Sapin, defendeu hoje a sua dama, dizendo que o plano de médio prazo de França “é legítimo e tem argumentos”. Afinal, alertou, o seu país vai crescer apenas 1% em 2015 e não 1,5% como se esperava na primavera.

Além disso, de acordo com o FT, Sapin sublinhou que em cortes na despesa pública França continua a fazer o trabalho de casa. Vai cortar 50 mil milhões nos próximos três anos, dos quais 21 mil milhões em 2015. “França nunca antes fez um esforço desta dimensão”, disse o ministro.

Merkel avisa que nem pensar

Pouco impressionada ficou a Alemanha. Num encontro com empresários alemães, a chanceler Angela Merkel ripostou imediatamente após os acontecimentos em França: “ainda não estamos no ponto em que podemos dizer que a crise está totalmente atrás de nós”. “Por isso, é importante agora que todos cumpram os seus compromissos e obrigações de uma maneira credível. Isto só pode ser feito pelos próprios Estados membros”.

Roma também apresentou os seus planos menos auspiciosos, mas que inquietam Berlim.

O défice de 2015 será 2,8% em vez dos 1,8% falados até agora. Mas se a meta orçamental continua abaixo dos ‘proibitivos’ 3%, já o desempenho da economia italiana parece estar cada vez mais de rastos. Uma recessão de 0,3% este ano em vez de uma expansão de 0,8% (abril) e um crescimento de 0,5% em 2015 em vez da anterior estimativa de 1,3%.

Será isso que está a mover Roma no sentido de pedir mais calma na redução do défice.

Países da troika “severos” com França

Portugal, Irlanda, Espanha, Chipre, os países intervencionados, que poderiam beneficiar de algum oxigénio (mais investimento, como pede o FMI) não estão do lado da França, nem de Itália.

Quem o diz é o alemão Günther Oettinger, o novo comissário europeu da Energia e membro dos conservadores que fazem aliança com Merkel na Alemanha. Citado pela Reuters, disse que “alemães, holandeses, finlandeses e bálticos não estão sozinhos na avaliação severa que fazem do orçamento francês”.

“Gregos, irlandeses portugueses, cipriotas e espanhóis — todos os que passaram pelo moinho da troika – estão muito mais duros” relativamente a eventuais alívios na aplicação de regras, concretizou Oettinger.

Portugal vai acabar este ano com um défice de 4,8% ou mais (se o BES entrar nas contas chega a 7,7%), mas o Governo repete que está a ser avaliado pelos 4% sem eventos especiais e que essa meta será cumprida sem medidas adicionais de austeridade. No ano que vem, mantém-se o compromisso político de baixar o défice para 2,5%.

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