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Mais de metade dos trabalhadores têm qualificações a menos

Mais de metade dos trabalhadores portugueses (52,3%) têm qualificações demasiado baixas para o posto de trabalho que ocupam. Num lote de 24 Estados analisados pela Organização Internacional do Trabalho (OIT), Portugal é o país com pior desempenho neste indicador. Se acrescentarmos os 4% da força laboral que têm demasiadas qualificações, então 56,3% dos trabalhadores em Portugal estão desajustados. Numa população empregada de 4,5 milhões, há 2,5 milhões que não têm as suas competências devidamente alinhadas com a função que desempenham.

O estudo da OIT, intitulado “Desajuste de competências na Europa”, mostra que o fenómeno é igualmente grave entre a população jovem (até aos 31 anos): 40,1% dos trabalhadores jovens têm qualificações abaixo das que seriam exigíveis para o posto de trabalho que ocupam. Recorrendo às estatísticas do Instituto Nacional de Estatística (INE) referentes ao segundo trimestre deste ano, constata-se que este fenómeno afeta cerca de 380 mil jovens. Pior só na Islândia, com um rácio de 49,7%.

A falta de qualificações é visível nas próprias estatísticas do INE sobre o emprego, que serão atualizadas na quarta-feira. Distribuindo os 4,5 milhões de empregados pelos vários níveis de ensino, verifica-se que 52,6% têm apenas o ensino básico, 23,7% completaram o ensino secundário e eventualmente alguma formação pós-secundário. Com licenciatura completa, Portugal tem apenas 23,5% da sua força de trabalho, ou seja, pouco mais de um milhão de trabalhadores.

“A subqualificação da população ativa portuguesa é o principal problema do país. Decorre do subinvestimento que foi feito durante décadas na educação e da existência de um abandono escolar precoce muito acima da média europeia. Não há nenhum país da União Europeia com este défice educativo. Temos menos de 40% da população [empregada e não empregada] com menos do que o ensino secundário, sendo a média europeia superior a 75%. Há cinco anos, tínhamos menos de 25% com o secundário. E na Europa o abandono escolar precoce situava-se abaixo de 20%; em Portugal anda próximo de 40%”, sublinha Francisco Madelino, antigo presidente do IEFP e professor do ISCTE.

“Em Portugal existe um desajuste entre as competências requeridas pelos empregadores e o tipo de qualificações apresentadas pelos profissionais. Este cenário é fomentado por um sistema de ensino que não tem conseguido orientar os seus alunos para as necessidades de um mercado de trabalho em constante mutação, mais competitivo, que assenta noutras bases de oferta e procura”, refere Nancy Almeida, section manager da Hays, consultora de recursos humanos.

A emigração de quadros qualificados será um dos motivos para o desajuste atual? Em março, na conferência internacional a “Emigração Portuguesa Contemporânea”, um investigador português afirmou que esta debandada terá levado para fora do país um quinto dos trabalhadores mais qualificados nestes últimos anos de crise. “A escassez de profissionais deve-se não só ao processo formativo insuficiente, que não forma profissionais em número suficiente, mas também aos altos índices de emigração que têm caracterizado o mercado laboral português nos últimos três anos. De Portugal, têm saído inúmeros profissionais qualificados, que procuram fora de portas outros desafios para as suas carreiras, com níveis de remuneração superiores aos que encontram por cá”, acrescenta Nancy Almeida.

“Este estudo tem uma virtude, pois chama a atenção para um dos nossos principais problemas, o da subqualificação dos ativos. Mas o principal problema está em haver poucas ofertas pelas empresas, porque há uma crise económica profunda decorrente da austeridade fundamentalista que acompanha as políticas macroeconómicas. A dita sobrequalificação decorre sobretudo deste equívoco. O problema fundamental do emprego em Portugal, a começar pelos jovens, é não haver um crescimento económico que se aproxime de 2% e permita absorver as novas gerações que vão chegando ao mercado de trabalho”, explica Francisco Madelino.

O problema pode ser resolvido? No seu mais recente estudo sobre Portugal, conhecido na semana passada, a OCDE pede professores mais qualificados e diz que “a educação vocacional deveria estar mais bem alinhada com as necessidades do mercado de trabalho”.

Francisco Madelino aponta no mesmo sentido: “A desvalorização do sistema de educação de adultos por este governo tem sido um grande erro.”

“As instituições de ensino também deverão ter um papel mais ativo junto dos alunos e pais, promovendo um processo de escolha vocacional mais informado e mais próximo das necessidades do mercado. Se o sistema educativo trabalhar em antecipação e conseguir ouvir as necessidades do mercado de trabalho, os alunos poderão fazer escolhas académicas com maior empregabilidade, mais próximas da realidade profissional que irão encontrar alguns anos mais tarde”, afirma Nancy Almeida.

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