Silicon Valley em Lisboa. “99,9% das startups vão falhar”

Em nove anos, apenas quatro empresas portuguesas conseguiram entrar no YCombinator, o mais exigente acelerador de startups do mundo. Foi de lá que saiu a Dropbox, o Reddit, o AirBnB e mais recentemente a Stripe, tecnologia que está por detrás do Apple Pay.

Veja também: Este acelerador põe empresas portuguesas no mapa

O acelerador sediado em
Mountain View, Califórnia, já investiu em mais de 700 startups. E agora
quer atrair mais empreendedores internacionais: foi isso que Michael
Seibel, um dos sócios do acelerador, esteve a fazer em Portugal.

“Eu diria que 90% dos motivos pelos quais não temos mais startups internacionais é que elas não se candidatam”, diz ao Dinheiro Vivo Michael Seibel, que no passado foi co-fundador da Justin.tv e da SocialCam. O empreendedor está a viajar pela Europa e esta semana veio ao Lisbon Challenge, o programa de aceleração organizado pela Beta-i que está neste momento a incubar 22 projetos. “Estive a apresentar-lhes o YCombinator e dei conselhos sobre como fundar uma startup.” As empresas portuguesas que conseguiram entrar, até agora, foram a UnBabel, Orankl, Impraise e AirHelp. Destas, três participaram no Lisbon Challenge (salvo a AirHelp).

Como empreendedor que passou para o lado do investimento, Seibel tem uma visão diferente da norma: diz que não há mais espírito de empreendedorismo nos Estados Unidos que na Europa e que a ideia de que toda a gente tem de ir para Silicon Valley para fundar uma gigante tecnológica está errada. “A caracterização de que é mais fácil criar empresas nos Estados Unidos vem de estar dentro da bolha de Silicon Valley há demasiado tempo”, atira. “Não acho que criar uma grande empresa tecnológica seja como alguém no Midwest descreveria o sonho americano.” Mais ainda, avisa o responsável: “99,9% das startups falham. E detesto que as pessoas pensem que a razão principal para isso está relacionada com a cultura ou a língua ou onde começaram.” A razão número um para o falhanço, adianta Seibel, é que os co-fundadores não se entendem.

O que é que o YCombinator oferece então aos empreendedores portugueses? Uma incubação de três meses em Mountain View (ao lado da Google), com acompanhamento por especialistas e mentores como Mark Zuckerberg ou Al Gore, e a oportunidade de se apresentarem a 350 investidores no Demo Day, para angariarem financiamento. “Criar uma startup é basicamente o trabalho mais difícil que alguém pode escolher fazer.” Por isso, estar num acelerador onde há outros a tentarem fazer o mesmo é encorajador. O YCombinator dá esse sentido de comunidade.

O responsável explica quais são as condições para entrar no programa: boa equipa, grande mercado-alvo e tração. “Gosto de ver equipas entre 2 e 4 pessoas, em que 50% são engenheiros, que se conhecem há pelo menos seis meses. É o formato ideal para criar uma empresa tecnológica”, aconselha Seibel. “Segundo, gostamos de nos focar em empresas que têm como alvo mercados de milhares de milhões de dólares.” Não interessa qual o problema que estão a resolver, não podem querer ir apenas ao mercado doméstico. “O último fator é tração. Precisamos de sentir que vocês vão fazer a vossa empresa quer entrem lá ou não”, refere. Um indicador disso é ter uma equipa a tempo inteiro – se não está a trabalhar a tempo inteiro num produto, quão acredita nele? Também é bom já ter começado a trabalhar nisso – escreveu uma linha de código, tem uma maqueta, lançou algum tipo de versão alfa ou beta, expondo o produto a utilizadores.

O YCombinator não vai avaliar se a solução que a empresa propõe irá resolver um problema, apenas se é um bom ponto de partida. E a questão do compromisso é importante. “Demora sete a dez anos a construir uma startup de sucesso. É um projeto demorado, têm mesmo de estar comprometidos. E não podem comprometer-se com palavras, têm de se comprometer com ações.” O YCombinator investe em empresas duas vezes por ano – na última leva, financiou 85 startups. Sabe que muitas vão falhar, e vive bem com isso. “Nós estamos a ajudar as pessoas a fazerem o impossível. O resultado expectável é o falhanço”, diz, notando que isto é uma coisa positiva. “Toda a gente tem de aceitar isso quando entra. Agora, vamos lá bater essas probabilidades.”

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