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Skypro. Sapatos para andar com os pés bem assentes… no céu

Quilómetro a quilómetro, de gate em gate, Jorge Pinto foi conquistando o seu lugar no céu. "É engraçado não é? Há dez anos, isto era um cartão debaixo dos pés e uma secretária lá ao fundo. Estava sozinho aqui", explica, do alto da cadeira na sala de reuniões onde já fechou negócios com algumas das mais conhecidas companhias aéreas do mundo.

Jorge vende sapatos. Mas não são uns sapatos quaisquer. Jorge escolheu um nicho muito específico para vender sapatos: funcionários de companhias aéreas. Por isso, é inevitável que quando passar por um comissário de bordo da TAP ele leve sapatos Skypro calçados. E que não os tire nem no raio X do aeroporto. “O nosso pé deita 1/4 de litro de água por dia. E quando descalçamos os sapatos e temos humidade no pé, torna-se mais fácil apanhar doenças, fungos, dermatites. As pessoas vão absorvendo estas doenças nestas passagens”, explica ao Dinheiro Vivo.

Perceberam que um dos fatores mais preponderantes para criar sapatos para profissionais de aviação era evitar a necessidade de descalçar os sapatos. Substituíram a sola e puseram nylon na palma do sapato e o sapato deixou de apitar nos detetores de metal dos aeroportos. Mas pensaram em mais: a palmilha isola de tal maneira o sapato que os pés não vão notar diferentes temperaturas em latitudes distintas. Isto é, uma hospedeira pode levantar voo de manhã em Paris e aterrar em Nairobi sem notar nos pés a mudança da temperatura. “Sentimos claramente que o produto que desenvolvemos é abraçado pelas companhias aéreas de todo o mundo.”

Além de fornecer a TAP, a Skypro vende sapatos – e, muitas vezes, carteiras e luvas – para companhias como Virgin Austrália, Southwest, Qantas, Lufthansa, Delta, United, Qatar Airlines, Air Caledonia e Air Vanuatu, e para países tão longínquos como o Casaquistão, a Rússia ou a Malásia.

Jorge, 41 anos, abriu a Skypro com medo de perder alguma coisa. Depois de ter investido em lojas franchisadas da Lanidor, arriscou apostar na Aerosoles. Antes da falência da empresa, o gestor – que trabalhou muitos anos em mercados financeiros, telecomunicações e sistemas de informação – conseguiu criar a linha Aerosoles Pro e começar a trabalhar com a TAP. Em 2008, com a empresa em dificuldades, Jorge não quis perder a oportunidade que criara.

“Fornecíamos 4000 pares de sapatos, mais carteiras e luvas à TAP. Percebi que se não me mexesse ia perder um bom negócio e que tinha de transformar o azar em oportunidade”, recorda. Falou com a responsável de logística da TAP e disse-lhe que gostaria de substituir aquele sapato da Aerosoles por um que iria criar. “Nem pensei em marca: só queria substituir o produto para ficar com o negócio. Já que ia fornecer uma companhia aérea e a TAP me tinha dado a oportunidade de continuar a fornecer, não vou fornecer um sapato normal. E comecei a pensar num sapato ideal para um profissional de aviação.”

Na altura, sabia pouco de aviões. Agora, domina pisos, necessidades e matéria-prima. Criou sapatos que, usados todos os dias, duram até um ano e meio sem problemas e que são feitos com peles inócuas e têm palminhas de um material que reduz o impacto e impede o desgaste. “Com os nossos sapatos, damos o mimo que estes profissionais precisam para um dia de trabalho feliz. One work”s feels like a day off [Um dia de trabalho com sabor a folga].” Em suma, sapatos “para pessoas mais felizes”. “Queremos ser a Nike dos profissionais da aviação. Uma referência para profissionais que passam muitas horas de pé, de gate em gate, e fazem quilómetros dentro dos aeroportos. Muitos deles fazem várias viagens diárias consecutivas. Por isso, é necessário que se sintam bem e confortáveis. A qualidade dos sapatos determina essa sensação”, sublinha.

Para isso – e ainda que os escritórios da Skypro fiquem em Carnaxide e a empresa obrigue a viagens consecutivas de dois dos seis elementos da equipa -, Jorge tenta sempre acompanhar de perto os processos de fabrico nas cinco fábricas nacionais com que trabalha.

“Se não estivermos lá ao lado, a fábrica não tem critério. Temos de estar atentos e ter um controlo absolutamente colossal para que a nossa qualidade nunca sofra danos. Este processo de controlo de qualidade ocupa-nos imenso tempo, mas também nos garante que está tudo impecável”, diz. Para evitar surpresas. Por isso, do mais surpreendente que aconteceu nos últimos anos foi o facto de as vendas na loja online representarem já 15% da faturação da Skypro, correspondente a 150 mil euros de vendas online; mais ainda: as vendas dispararam a partir do momento em que o preço dos sapatos aumentou dos 89,90 para os 110 euros. “Há muitas empresas portuguesas que ainda não olharam para o seu negócio de forma séria. Fazemos coisas muito boas, mas, como somos portugueses, olhamos sempre para o que fazemos como tendo pouco valor. Um alemão faz exatamente o mesmo, só que os óculos dele valorizam o produto de tal maneira que, quando um alemão vai vender, vende com muito mais valor do que nós vendemos.”

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