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TC tem de ter em conta mercados

António Mexia é um gestor que fez carreira no sector privado, com uma breve passagem pelo governo de Santana Lopes, onde tutelou as obras públicas. Passou pela presidência da Galp e lidera a EDP há oito anos. Há quase dois, o Estado vendeu 21% da elétrica portuguesa aos chineses da China Three Gorges, por 2700 milhões de euros, e os novos acionistas optaram por manter Mexia à frente da empresa. Esta entrevista é feita em Pequim, onde a EDP juntou mais de cem empresas portuguesas e chinesas num encontro de negócios.Veja aqui o vídeo da entrevistaA sua experiência governativa e empresarial diz-lhe que este é o único caminho para evitar futuras crises? É preciso que a economia portuguesa se internacionalize para não termos crises periódicas? Sim, é fundamental. O sucesso de Portugal depende da sua atitude perante o fenómeno da globalização. Ver na globalização uma oportunidade e não uma ameaça. Isso, obviamente, implica que a economia se torne mais flexível e mais ambiciosa. E ter a noção de que tendemos, justamente com esta iniciativa, a estar totalmente abertos ao exterior. Os países de menor dimensão são os que têm mais a ganhar com o comércio internacional e Portugal precisa de ter essa atitude de total abertura. Portanto, essa é uma questão indispensável para voltarmos a crescer. A EDP, com as suas necessidades de refinanciamento, também sofre com o rating que foi atribuído à República. Mais de dois anos depois da chegada da troika, o rating está melhor. Vamos conseguir evitar um segundo resgate? Que a situação está muito melhor é indiscutível. No fim deste processo é preciso que haja uma libertação de fundos do sector público para o privado, ou seja, que haja menos peso do Estado, que tenhamos uma economia em que o sector privado tenha maior peso e que haja maior eficiência e maior justiça. Essa é uma questão absolutamente decisiva na distribuição de rendimentos, é uma das que temos de salvaguardar neste processo de ajustamento. O que me parece é que Portugal, hoje, já não tem uma pressão, não só por si mas também por aquilo que se passou a nível europeu, sobre a questão fundamental de há dois anos, que era ter ou não ter acesso a financiamento. Vemos o bom comportamento das exportações e um comportamento razoável na evolução do crescimento. Obviamente, ainda há muito a fazer a nível europeu, com uma atitude mais consistente e integrada e com uma maior liderança. Mas acho que Portugal irá conseguir acesso aos mercados. Para isso é decisivo que não se passem algumas decisões como as do Tribunal Constitucional. Acho que foram decisões complicadas, que no fundo não têm em consideração o contexto, ou seja, nós temos de ter a noção de que temos de ter acesso ao mercado e os direitos são também em função daquilo que for a capacidade da economia de se financiar. Há que ter uma abordagem muito clara nos próximos passos e reformas, e as decisões têm de ter em linha de conta esta obrigação de termos capacidade económica. Mas compete também ao governo encontrar alternativas quando as suas decisões são chumbadas no Tribunal Constitucional?Algumas decisões parecem-me desenquadradas. A leitura da Constituição tem de ter em conta aquilo que são as restrições do mercado. Concorda com o primeiro-ministro quando diz que o problema não é a Constituição, é a interpretação que dela fazem os juízes em funções? Sim, concordo. E acho que aliás se deve discutir; não há razão nenhuma para que isso não se discuta. Quando o assunto foi levantado parecia que se estava a pôr em causa. É normal que se discuta isso, é saudável em democracia que se discuta. O ex-ministro das Finanças, Vítor Gaspar, quando se demitiu, tornou pública a opinião de que a fórmula de austeridade falhou. Concorda? Ou a austeridade foi necessária mas agora é hora de alterar essa fórmula e apostar no crescimento? A austeridade era uma componente absolutamente indispensável, a diminuição do peso do Estado e a libertação de recursos eram absolutamente decisivas. A questão é que essa reforma do Estado – e foi isso que foi assumido – se calhar não foi iniciada no momento em que deveria ter sido e, portanto, houve algum atraso na reforma do Estado, que era indispensável à opção pelo crescimento, que é hoje a grande questão. O principal problema hoje em Portugal é o desemprego. Portugal tem de voltar a crescer, para voltar a crescer tem de haver esta libertação de recursos e por isso o que eventualmente terá havido é atraso na reforma do Estado, que tem que ver também com aquilo que os portugueses querem do seu próprio Estado. Nós queremos mais Estado, mas depois não queremos pagar por ele, e isso é uma questão decisiva, que tem que ver com escolhas no nosso modelo de sociedade. Com uma noção que é, para mim, a seguinte: a sociedade só é mais justa e só consegue distribuir mais riqueza se for mais eficiente, e para isso tem de ter um mercado mais flexível, uma noção maior de justiça. É uma questão decisiva. Uma das reformas mais esperadas é a reforma do IRC. Os dados já são conhecidos e apontam para uma redução gradual, ao longo dos próximos anos. Olhando para a recente polémica caseira sobre a intenção da China Three Gorges de construir uma fábrica de turbinas eólicas e as notícias que andaram à volta deste tema, julga que esse investimento, por exemplo, teria mais hipóteses de ter avançado se a reforma do IRC já estivesse concretizada? Vamos falar da reforma do IRC e depois deste caso particular. A reforma do IRC é indispensável. Basicamente, as economias têm de atrair as melhores pessoas e recursos – humanos e financeiros. A competitividade fiscal é um aspeto absolutamente decisivo hoje, no mundo. E por isso, os princípios da reforma desta comissão são particularmente saudáveis e acho que são um passo indispensável para voltarmos ao crescimento. Mas é uma reforma suficientemente ambiciosa? O objetivo a médio prazo aponta para uma taxa de 19% e já há países europeus com taxas inferiores. Sim, mas é uma alteração muito significativa em relação à situação atual; corresponde também a um sistema de maior simplificação fiscal. Eu acho que essas taxas são perfeitamente compatíveis com um país competitivo, em termos de capacidade de atração de capital estrangeiro, que é um elemento crucial para o nosso investimento. Portugal foi uma economia que se descapitalizou durante décadas, viveu muito do grau de alavancagem, ou seja, endividou-se, e de repente a dívida tornou-se muito mais difícil de obter pelos mercados e, por isso, a questão decisiva é que haja capacidade de atrair investimento estrangeiro. Portanto, essa competitividade fiscal é decisiva e a atual comissão, presidida por Lobo Xavier, fez propostas suficientemente boas para pôr Portugal nessa rota competitiva. E a fábrica da Three Gorges?Em relação a esta pseudopolémica, sejamos claros, não era um compromisso firme, tratava-se de um esforço, ou seja, aquilo que se chama em inglês, um best effort, até porque envolvia terceiras companhias e, obviamente, dependia de condições de mercado – a evolução do mercado europeu não foi no contexto de pedir mais capacidade, pelo contrário, houve excesso de capacidade instalada. É, obviamente, natural que a capacidade de atrair investimento, este ou qualquer outro, também depende dessa fiscalidade. Agora, eu não diria que a fiscalidade foi decisiva. A questão essencial neste caso, como já foi dito até pela China Three Gorges, continua em cima da mesa, depende de condições de mercado. Houve, pela evolução daquilo que foi a procura de energia na Europa – onde se recuou quase dez anos em alguns países, em termos de procura de energia, pelo ambiente recessivo -, menor procura de equipamentos e por isso é normal que os investimentos tenham de esperar pela procura. Sendo um homem de gestão de empresas, presumo que se sinta mais confiante com um ministro da Economia desse mundo. Álvaro Santos Pereira não lhe deixa saudades? Eu nunca comento saudades de ministros. Já fui, durante um curto ano, ministro, nunca perguntei se tinham saudades ou não. A única coisa que eu acho é o seguinte: no que diz respeito à política energética, à sua integração num contexto de desenvolvimento sustentável, que tem que ver com a fiscalidade, devíamos cada vez mais taxar recursos escassos em vez de taxar trabalho e poupança. A competitividade fiscal também passaria por isso. Obviamente, isso é um processo ambicioso, ainda mais de longo prazo do que aquele de mudar taxas. Mas não tenhamos dúvidas que hoje as economias são mais competitivas em função da qualidade de vida e da capacidade de atrair as pessoas certas para o sítio certo, da capacidade competitiva das cidades, dos recursos diferenciadores em termos das pessoas com mais capacidade e com um discurso de reindustrialização da Europa, isso é verdade. Mas a reindustrialização da Europa tem de ser sempre feita no contexto da liderança tecnológica, daquilo que é a capacidade de diferenciação em termos de design, de inovação, e não voltarmos a uma industrialização romântica. Isto não é um projeto romântico, é um projeto ambicioso do ponto de vista do research and development, de investigação e desenvolvimento, e sobretudo de capacidade de capital intelectual. Essa é uma questão decisiva e depende do conceito integrado de uma visão da economia que junta arte, ciência, economia, uma cidade mais cosmopolita, mais global, mais aberta. Nós temos essa capacidade, fomos a primeira aldeia global, portanto hoje, se não o voltássemos a ser, seria uma tristeza. Como gestor de uma grande companhia, assustou-se com a crise política no governo, este verão? As crises políticas nunca são boas, os mercados não gostam, o preço de mercado ressente-se logo. A estabilidade política é um aspeto profundamente essencial, sobretudo no contexto de um modelo de reformas indispensável e naquilo que é uma reta final de um programa de bailout. Acho que se sente hoje, no dia em que falamos, mais condições até do que antes e isso parece-me positivo para todos. Ou seja, não devemos estar sempre a voltar à casa partida, devemos construir em cima daquilo que está a ser feito.Quando estas coisas acontecem, isso dificulta a gestão, faz-lhe perder o sono? Tem imediatamente efeitos. A questão essencial na economia portuguesa é o seu financiamento que, obviamente, é indispensável ao crescimento e ao principal problema que é investir e diminuir o desemprego. Por isso, qualquer instabilidade traduz-se por menor atratividade nos mercados, maiores custos. Nós conseguimos aliás, há duas semanas, fazer uma operação de mercado com uma profundidade que até agora não tínhamos tido, que é a sete anos, com uma taxa de juro de 5% – bem inferior àquela que o próprio país financia. Essa operação deu logo sinais de que a estabilidade política tem valor para todos. Se não nos conseguirmos financiar, não conseguimos investir e não se cria emprego. Mas em termos de mercados ainda estamos a pagar a fragilidade política, ou isso está ultrapassado? As taxas voltaram a descer. Acho que vamos ter agora elementos decisivos como o Orçamento do Estado. As decisões dos chamados cortes ou redução são absolutamente decisivas para a credibilização, ou seja, as pessoas têm de perceber que o sistema tem, de uma forma endógena e sustentável, condições para fazer as reformas que precisa de fazer, reduzir os custos como tem de reduzir – em particular o Estado. Portanto, as decisões que aí vêm são absolutamente imprescindíveis para voltarmos ao sítio onde estávamos, ou seja, a estabilidade resulta também daquilo que for a posição e a capacidade desse corte. Teme mais os desencontros no interior do governo ou as decisões que o Constitucional terá de tomar em matérias importantes quanto à dimensão do corte a fazer? As medidas apresentadas terão de, dentro do máximo possível, evitar qualquer chumbo, mas eu acho que a posição do Tribunal Constitucional vai ser decisiva. Nós temos uma noção clara: a capacidade de discutir numa empresa portuguesa, ou mesmo no país, são momentos muito curtos junto dos investidores, e se se criasse uma noção de alguma dificuldade, de alguma rigidez e de alguma intransigência interna sobre essa redução de custos, isso seria negativo nesses poucos minutos, e depois as pessoas passam a discutir outro país, outra empresa, outro assunto. Muitas vezes perdemos a noção daquilo que é um mundo gigante, onde nós temos a dimensão que temos, e devemos ser pragmáticos nessa abordagem, ou seja, não falhar as oportunidades que temos e evitar becos. Tem ideia do impacte que a redução do IRC prevista possa vir a ter nos resultados da EDP? A EDP, estruturalmente, deve ser o maior pagador de impostos em Portugal. Há dois anos pagámos quase dez por cento do IRC total do país. Mas também gostaria de dizer o seguinte: já somos hoje o maior investidor em Portugal, independentemente da taxa de IRC. Eu vejo a taxa do IRC essencialmente associada a nível de investimento e criação de emprego, ou seja, para mim é preciso que essa não seja uma redução pura e dura, que resulte em distribuição exclusiva aos acionistas. Não vejo problema nenhum em que dependa dessa capacidade de investimento e da criação de emprego muito mais do que seja uma redução simples da taxa. A entrada da China Three Gorges, além do benefício financeiro que trouxe, acrescentou o quê à EDP? Deu músculo. A capacidade traduz–se num aumento de dois biliões de acesso a dívida num mercado ao qual não tínhamos ainda acesso e dois biliões de aquisições de posições maioritárias – alteraram completamente a posição em termos de acesso ao mercado e de liquidez. Também nos vai permitir entrar em novos mercados, com mais músculo, reduzindo o risco dessas operações, porque esta capacidade de associação com empresas da dimensão e da origem da China Three Gorges, portanto chinesas, diminui o risco político em determinados mercados, nomeadamente em África. Portanto, diversificámos e diminuímos o risco, e isso é importante para o nosso crescimento. Há uns anos decidimos ter o maior projeto hídrico da Europa, e estamos a fazê-lo. Decidimos tentar uma posição de liderança, a nível mundial, que hoje temos, nas renováveis, mas é importante que criemos novas opções de crescimento e isso, obviamente, tem que ver com a capacidade de replicar as nossas competências, essencialmente nas hídricas – seja na América Latina seja em África. E isso a China Three Gorges partilha connosco. Mas não pode acontecer também o fenómeno contrário? A EDP já tem uma presença muito importante na América do Norte. Imaginando que, por algum motivo, seria útil para expandi-la, a presença da China Three Gorges pode não ajudar. Os maiores detentores de dívida externa americana são chineses. Eu acho que se sobrevaloriza sempre esta questão da relação entre a América e a China. Pelo contrário, hoje é uma relação que tem de ser necessariamente construtiva, dependem um do outro, por isso não vejo problema nenhum. Gostava, aliás, de sinalizar que hoje o maior mercado de crescimento das renováveis para a EDP são os Estados Unidos. Isto mostra que não houve nenhum impacte, nenhuma redução da nossa capacidade ou alteração da estrutura. Há pouco falava de como a entrada da China Three Gorges permitiu à EDP ter mais capacidade de se financiar na China. Li, no Fórum, que 21% do fluxo de financiamento no último ano já foi feito com capitais chineses. A EDP tem ainda a possibilidade de financiar cerca de mil milhões de euros na banca chinesa. Tem ideia de quanto será necessário ou se há essa vontade de concretizar esse empréstimo? Neste momento não precisamos sequer desse empréstimo, mas a questão decisiva do financiamento chinês foi num momento muito difícil. Às vezes temos memória curta, mas na primeira metade de 2012 os mercados fecharam-se para a maioria das empresas do Sul da Europa, e em particular as empresas portuguesas tinham muito mais dificuldade. Há meia dúzia de empresas que têm acesso ao mercado internacional português, só meia dúzia é que tem acesso ao mercado externo, as outras têm de se financiar internamente, e o que aconteceu foi que este apoio – digamos assim – da China Three Gorges, através da banca chinesa, num momento difícil em que os mercados estavam fechados, criou um círculo virtuoso. Ou seja, deu-nos capacidade financeira para depois podermos ir ao mercado, nomeadamente ao mercado obrigacionista, que gostou de ver este acesso ao mercado bancário chinês – depois o mercado chinês gosta de ver que temos acesso ao mercado obrigacionista europeu, e isto cria um círculo virtuoso. Portanto, foi fundamental num determinado momento. Hoje não precisamos desse financiamento. Provavelmente vamos utilizá-lo em projetos internacionais, ou seja, nos projetos da parceria com a China Three Gorges.As necessidades de financiamento da EDP já estão cobertas até 2015?Para lá do final de 2014, início de 2015. Isso foi uma estratégia indispensável. A alteração do rating de Portugal trouxe dificuldades de financiamento às empresas portuguesas. Nós temos tido a estratégia de nos financiarmos com dois anos de avanço e isso é importante, nomeadamente para quem trabalha connosco, como as empresas que aqui estão – sabem que irem connosco implica também que vão com alguém que tem capacidade de investimento e de financiamento desses projetos. Portanto, neste momento, estamos tranquilos até 2015.Referia que esse financiamento chinês foi conseguido numa fase muito difícil, em que era quase impossível ir ao mercado, mas a Fitch considerou “não especialmente generosa a taxa de juro conseguida”. A si agradou-lhe o que a EDP conseguiu? Espera, com o evoluir da situação, uma taxa melhor quando chegar a altura de se refinanciar?Nesta última emissão a sete anos, já pagámos menos do que pagávamos há um ano e meio por emissões a cinco anos, portanto a EDP hoje consegue, em termos marginais, financiar-se mais barato do que se financiava há dois anos. A EDP tem um custo da dívida médio de 4,3%, neste momento. Isso mostra a nossa capacidade de mantermos a competitividade do nosso funding. Agora, tudo tem que ver com o momento, às vezes com o próprio dia, e essa era uma taxa para esse momento difícil. Hoje pode parecer mais alta, mas é como acertar no Totobola à segunda-feira, é porque entretanto as coisas melhoraram – e esse empréstimo ajudou a melhorar.O dinheiro hoje paga-se mais caro e isso dificulta a gestão da dívida. A dívida da EDP ronda já cerca de 18 mil milhões. Tem sido difícil fazer o refinanciamento da companhia? Não. As pessoas muitas vezes falam do montante global da dívida mas esse não quer dizer nada, tem que ver com a capacidade de geração de tesouraria em cada ano, com os ativos – a companhia tem mais de quarenta biliões de ativos, a EDP e a EDP Renováveis juntas têm mais ativos do que o resto do PSI20. Isto mostra a dimensão da companhia e a sua capacidade de geração de cash e o rácio é que interessa, ou seja, quanto é que eu gero por ano para conseguir pagar essa dívida. E aquilo que hoje é o sucesso da companhia, do ponto de vista dos mercados internacionais, demonstra a confiança dos mercados nessa capacidade de geração. Estamos absolutamente tranquilos sobre isso e o mercado tem dado sinais, os mercados premeiam a EDP. Eu gostava de dar aqui uma noção que é importante para Portugal: a grande alteração no final destes anos é que existe uma diferença estrutural que não existia entre aquilo que é o financiamento de empresas alemãs ou francesas e o de empresas portuguesas ou espanholas ou italianas. Essa diferença aumentou muito. Já foi muito maior do que é hoje, mas nunca mais voltará, no curto prazo, a ser aquela que foi antes da crise. Isso deve dar-nos um enorme pragmatismo sobre aquilo que é o grau de endividamento que se pode ter ou não, mas sobretudo sobre a capacidade de nos diferenciarmos em relação ao resto. O custo para as empresas portuguesas hoje é maior do que para as alemãs e se queremos concorrer com o mercado internacional temos de ter capacidade de cooperação, agilidade e capacidade competitiva em outras áreas que não apenas o custo de capital – temos de fazer bastante melhor do que os outros. Isso é uma exigência nova, em relação há quatro, cinco anos, para todas as empresas portuguesas.Mesmo assim, presumo que não seja necessário pensar em vender ativos para resolver problemas de dívida. Antes pelo contrário, pode fazer sentido aumentar a dívida global se isso significar um acréscimo de ativos que possam ser interessantes para a estratégia da EDP?Sejamos claros, nós vamos reduzir o grau de endividamento da companhia, ou seja, o rácio que há pouco referia de dívida, resultados operacionais anuais, esse rácio tem de baixar, está a baixar em todo o mundo. A situação mudou para toda a gente, o tempo do dinheiro barato – com algumas exceções para as companhias alemãs – acabou. E mesmo essas são pressionadas pelo mercado a reduzir o seu endividamento. Portanto, vamos reduzir o endividamento, reduzimos o volume de investimento em relação a 2007/2008, isso é óbvio. O que não implica que não estejamos a criar novas oportunidades em novos mercados. Mas vamos investir cinquenta por cento dos resultados operacionais quando houve anos em que investíamos mais ou menos cem por cento.Essa redução da dívida será feita com a venda de ativos?Não. Tem que ver com estas operações que estão planeadas com a China Three Gorges, com a venda das minorias, já vendemos algumas, nomeadamente nos Estados Unidos. Mas tem, essencialmente, que ver com a capacidade de geração de cash pela companhia nos seus negócios e do crescimento que resultou da sua capacidade de internacionalização. Os resultados operacionais em Portugal são, mais ou menos, o que eram há uma década, o que mudou na EDP foi a capacidade de gerar esses resultados fora e de ter essa capacidade de crescimento. A companhia tem quase o dobro do tamanho de há cinco anos, essencialmente porque entrou em novos mercados, tem mais ou menos o dobro dos resultados operacionais e do resultado líquido. Porquê? Pelo projeto de internacionalização e entrada em novas tecnologias, nomeadamente nas renováveis.Essa estratégia é para manter?Sim. A EDP acabou de ser nomeada, esta semana, a empresa número um do Dow Jones em termos de sustentabilidade: que fala de economia, que fala de resultados, que fala de social e de pessoas dentro e fora da companhia, que fala de ambiente. Fomos considerados a melhor empresa a nível mundial de todo o sector das empresas de eletricidade, gás e água. Em termos de retorno aos acionistas fomos totalmente distintivos nos últimos cinco anos, comparados com as maiores, mesmo com as alemãs e as francesas, ou seja, conseguimos criar valor e mostrar que a estratégia estava certa e particularmente adequada a tempos de crise: abordagem de baixo risco, de crescimento focado em novas tecnologias, mercados e eficiência. A EDP foi a empresa mais eficiente da Península Ibérica no nosso sector. Mostra que estratégia é para continuar mas neste contexto de diminuir o grau de alavancagem, ou seja, diminuir o endividamento.Outra polémica que gerou menos confusão, mas foi notícia, foi a entrada de um fundo norte-americano na EDP. O principal acionista sentiu-se incomodado? Isso foi conversado no interior da EDP?Isso é absolutamente falso, não corresponde à realidade, não faz sentido nenhum. Até porque a China Three Gorges é um investidor industrial e os fundos americanos, nomeadamente esse que foi referido, são fundos de investimento, institucionais, que entram e saem das companhias em função daquilo que consideram a sua atratividade e a sua capacidade de gerar riqueza para os investidores. O que é que aconteceu? No momento de crise do euro, os investidores americanos abandonaram o mercado europeu, muito por causa do medo que havia de que saíssemos do euro e que se criasse uma questão complicada: em que moeda é que a dívida era paga? Houve um medo em rebanho. E o que é que aconteceu agora? Aconteceu o contrário, houve a capacidade de ver que, face ao preço a que estão as ações, era atrativo. E por isso voltaram aos mercados português, espanhol, italiano mas, em particular, voltaram ao mercado português. Orgulha-nos muito que alguns dos maiores fundos internacionais tenham apostado na EDP, mostra que acreditaram que nós vamos gerar riqueza para todos os acionistas, senão não se tinham tornado acionistas. Isso é uma falsa polémica. Devemos ver isto como algo bom para a companhia, bom para Portugal e que traduz também essa melhoria estrutural do nosso mercado. Não há desagrado nenhum do principal acionista, ser americano ou não é irrelevante.Depois das reações que teve do FC Porto ainda diria que a vitória do Benfica é positiva para a economia?Acho que uma das coisas essenciais é o humor. É sabido que isso foi tido como bom humor, embora talvez correspondesse à verdade. Todos temos direito a ter as nossas convicções clubísticas e eu acho que isso só mostra respeito, quer pelo Benfica quer pelo Porto – até porque falei nessa altura de concorrência. No mercado da energia, Portugal é muito concorrencial. Nós calculávamos, no ano passado, que teríamos 650 mil clientes no mercado liberalizado no final de 2013. Temos mais de 1,5 milhões, ou seja, a liberalização é um facto e a concorrência é saudável e fundamental – também no futebol.Não sentiu uma saída de clientes de nenhuma zona do Norte por causa dessa polémica?Não. A questão essencial é que temos capacidade para atrair. Hoje temos quase 85% do mercado liberalizado doméstico, somos também líderes no mercado industrial. Porquê? Pela capacidade de ter oferta para os clientes e os clientes geralmente decidem pela melhor oferta. É sempre uma mistura entre coração e razão, mas no caso da energia tem muito que ver com a razão. Uma pequena provocação. Quando disse que a vitória do Benfica seria boa para a economia, lembra-se do jogo, do resultado?Lembro, lembro-me daquele último minuto. Foi um ano que lhe custou muito?Eu olho para isto com enorme desportivismo. Olho para tudo como uma empresa: mesmo quando o lucro do ano passado foi ótimo, o que me interessa é o que vem. Temos de celebrar as vitórias, mas a celebração deve ser curta. O que interessa na vida é a capacidade de criar futuro. Do que a sociedade portuguesa precisa é de mais oportunidades, e é isso que a EDP faz: olhar para o futuro.

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