Cascais

Vice-presidente da Câmara de Cascais: “O novo ouro está ali, mesmo à porta”

A edição deste ano da BioMarine International Convention realizou-se em Portugal. 300 CEO de empresas da indústria dos biorrecursos marinhos vieram a Cascais debate a economia azul. O local não foi escolhido ao acaso. Em entrevista ao Dinheiro Vivo, o vice-presidente da câmara de Cascais, Miguel Pinto Luz, discute o potencial da economia azul e explica o objetivo de tornar o concelho na plataforma europeia de negócios internacionais ligados ao mar.

Portugal é praticamente só mar. A ser aprovada a extensão da plataforma continental, o território marítimo aumenta para quase quatro milhões de quilómetros quadrados. No entanto, a economia do mar representa apenas 3% do PIB português. O país está a aproveitar o potencial económico do mar?

A resposta clara e direta é não. Ou ainda não, porque eu sou um otimista militante. O alargamento da plataforma continental pode representar para Portugal um momento de viragem como já não acontecia há muitos séculos na nosa história. Mas temos de aproveitar as oportunidades. Um país como Portugal, com a crise que atravessou, com três resgates nos últimos 30 anos, não pode perder esta oportunidade. Temos de nos deixar de conversas, de estudos, de diagnósticos. E é isso que temos feito nos últimos anos.

Fizeram-se muitos estudos, muitas análises que comprovam que o mar é, de facto, o nosso grande desígnio. Depois de tantos anos de história, o mar volta novamente a estar à nossa frente, quando esteve sempre aqui e nós esquecemo-nos dele. Hoje, alicerçamos muito a economia no turismo, que é considerado um desígnio nacional. Há uma grande aposta no turismo, mas no mar não estamos alinhados da mesma forma. Se olharmos para a história dos últimos anos, tem acontecido precisamente o contrário. Tem havido um desinvestimento em relação ao mar. A nossa frota pesqueira foi praticamente desmantelada e o nosso posicionamento estratégico e geopolítico foi desbaratado. Veja-se, simbolicamente, a questão da base das Lajes. Ela própria é um símbolo do mar estratégico, no centro do Atlântico, que os EUA também utilizavam. Hoje, até os EUA estão a desinvestir na base das Lajes. É paradigmático do desinvestimento, nosso e exterior, no nosso mar e nas nossas águas. Temos de encontrar novas riquezas, o novo ouro, e o novo ouro está ali, mesmo à porta.

Há outra vertente importante, que é o conhecimento. Temos universidades que têm vindo a desenvolver um trabalho notável, com investigadores que fizeram carreira lá fora e cá dentro. Temos esta possibilidade de estar numa rede internacional e global.

Com os recursos e o conhecimento, podemos construir economia e, com economia, podemos construir riqueza e emprego, neste momento tão escasso no nosso país.

O que está a falhar para que não estejamos a aproveitar o potencial do mar?

Primeiro, a visão estratégica dos nossos governantes. Se recuarmos nos últimos 30 anos, verificamos que cada primeiro-ministro teve um momento na sua história e que muitos herdaram momentos de emergência nacional e tiveram de arrumar a casa. Não falo em questões partidárias: todos, em algum momento, tiveram de arrumar a casa. E, quando temos de arrumar a casa, não temos cabeça para mais nada. Mas houve momentos em que tivemos enorme estabilidade e fizemos as apostas erradas. Tivemos momentos na nossa história, nos últimos 30 anos, em que tivemos estabilidade económica, desemprego muito baixo. Nessa altura, tínhamos de ter um desígnio nacional.

Houve ministros que fizeram do seu desígnio a educação. Do meu ponto de vista, bem, mas não se focaram. Trataram a educação e a investigação como algo muito lato. E temos de ter, também aí, estratégia. Não podemos apoiar da mesma forma todas as investigações ou todos os tipos de investigação. Temos de estar alinhados com a estratégia nacional. Todos os países fazem isso. A Noruega, por exemplo, aposta muito na estratégia ligada ao mar, porque é uma estratégia nacional. Não podemos é dividir o mal pelas aldeias e depois não apostar em nada. Tapamos buraquinhos e não fazemos rigorosamente nada.

O que falhou, do ponto de vista nacional, foi um desígnio e uma aposta errada de cima a baixo por parte de toda a administração pública, de todo o Estado. Acredito que quem quer [investigar] fora da estratégia nacional é livre de o fazer, mas não deve ter o apoio do Estado. Sei que esta visão é polémica, mas o Estado deve apoiar aquilo que está alinhado com a visão estratégica do país enquanto nação. Todos os investigadores que queiram fazer investigação esotérica sobre outros assuntos, que o façam, mas que não tenham apoio, pelo menos ao mesmo nível de quem fizer investigação na área estratégica para o país.

Outra coisa que falhou é a Europa. O projeto europeu tem gaguejado, tem andado aos soluços, por impulsos. De tratado em tratado, temos vindo a construir o projeto. Mas já estamos a construir a Europa há tempo demais. Esta obra já passou todos os prazos possíveis e imaginários para o seu término. Já devíamos estar a inaugurar essa obra, e não estamos, estamos há 50 anos a construir uma Europa. Era salutar termos construído uma obra que depois melhorávamos. Continuarmos no nosso léxico de abordagem quase que serve de desculpa para todos nós dizermos que ainda temos tempo, que isto não é ainda o projeto final. A Europa precisa de compromissos claros, de solidariedade entre nações, de saber qual o papel de cada um nesta Europa. O desinvestimento também ocorreu muito dos incentivos que a Europa nos deu. A Europa deu incentivos para desmantelarmos a nossa frota pesqueira.

A falta de estratégia nacional, aliada a um projeto europeu que não está inaugurado, naufragou neste marasmo que hoje temos de indefinições.

O que representaria para o país a extensão da plataforma continental?

Portugal sempre teve um problema de massa crítica, somos um país pequenino. Até nos nossos Descobrimentos e na nossa colonização, tivemos sempre esse problema de massa crítica. Não conseguíamos ocupar os lugares e não conseguimos fazer uma aculturação muito óbvia e evidente dos espaços. Esse problema de massa crítica subsiste até hoje. Acontece que esse problema pode ser resolvido com o alargamento da plataforma continental. Com esse alargamento, passamos a ser a 11ª maior plataforma continental do mundo. Passamos a estar na primeira liga do espaço de recursos. Se temos o espaço, temos de saber estar nessa primeira liga. O que a extensão representa é isto: passamos de um país periférico, pequenino, sem dimensão, sem escala, sem massa crítica, para passarmos para um país liderante e, geoestrategicamente falando, central no mundo.

Que exemplos há de “negócios azuis”?

A indústria biomarinha é um exemplo claro disso e funciona de forma sinérgica com as pescas. Estamos a falar de algas, macro algas, micro algas, mas também estamos a falar dos restos dos tratamentos pescados, dos sobrantes desse tratamento. Mas há mais: a náutica de recreio (que também funciona de forma sinérgica com o turismo), a energia das ondas, a indústria dos transportes, o turismo e o lazer. É um leque muito grande de atividades e diferentes áreas da economia, e o interessante delas todas é que funcionam de forma sinérgica com outros eixos da economia, como é o caso do turismo com a náutica de recreio, da indústria biomarinha com a indústria das pescas. Portugal reveste-se ainda de maior interesse, face a outros países. É difícil, por exemplo, a náutica de recreio vingar num país como a Noruega. Essa capacidade de criar sinergias é a grande virtude da economia azul.

Porquê a escolha de Cascais para plataforma internacional de negócios ligados ao mar? E qual a estratégia para que isso aconteça?

Cascais sempre foi virado para o mar. É uma vila, com 650 anos, que nasceu numa pequena aldeia piscatória. O interessante desta visão é que são 650 anos virados para o mar e sempre com uma forte ligação ao mar. Desde os Descobrimentos, em que chegavam caravelas carregadas de riqueza, à II Guerra Mundial, em que tivemos a felicidade de nos tornarmos um hub, quando recebmos políticos e reis e aprendemos a receber bem. O nosso negócio é saber receber bem. As pessoas gostam de viver aqui: há boas casas, boa qualidade de vida, bons espaços verdes. Mas é muito difícil para um concelho como Cascais albergar grandes indústrias ligadas à biomarinha ou ao pescado. Não temos possibilidade: a nossa costa está toda tomada ou por natureza, que queremos preservar, ou por turismo e habitação de qualidade que temos vindo a desenvolver ao longo de toda a costa. Se não podemos ser o centro nevrálgico onde a economia se vai processar, podemos ser o local onde se fazem negócios, onde as pessoas discutem e fecham negócios. E é aí que nos temos vindo a posicionar, nas várias vertentes: do imobiliário, ao desporto e ao mar. Para além do BioMarine, muito ligada aos negócios, para o ano temos o World Ocean Summit, que no ano passado se realizou em São Francisco.

O nosso posicionamento é esse: potenciar aquilo que sabemos fazer, recebendo conferências para fechar negócios. Queremos ser a Frankfurt dos negócios do mar. Daqui a alguns anos, queremos acreditar que quando se falar de onde é que se fazem negócios ligados ao mar, é aqui que as pessoas se vão sentar para falar de mar.

Acho que Cascais já se está a afirmar como essa plataforma. Os passos já estão a ser dados, mas isso requer cada vez mais contactos, requer que Cascais continue a fazer esta aposta enquanto câmara municipal, em termos de desígnio estratégico. Acredito que no prazo de cinco anos seremos conhecidos internacionalmente nesta área, e falo com propriedade, porque passamos uma situação muito similar na vela. Na vela, começámos há cerca de 6 ou 7 anos a fazer uma política de atrair grandes eventos para Cascais. Hoje, quando se fala de vela, fala-se de três ou quatro sítios no mundo, e Cascais é um deles.

O que é, exatamente, o BioMarine e qual a sua importância para o país?

É uma associação que congrega centenas de CEO do mundo todo na área dos biorecursos marinhos. Estamos a falar de top level, de quem toma decisões, quem pode fazer a diferença. Tivemos também a oportunidade de atrair o pai desta organização, o Pierre Erwes. Ele conseguiu criar uma plataforma que pode atingir 250 mil pessoas em todo o mundo, já que vai ser passada em live streaming. Tem impacto brutal para o país. Aquilo que sugiro à ministra [Assunção Cristas] e ao Governo é que utilizem esta plataforma para passar as mensagens que nós, Portugal, queremos passar para o mundo.

Quais as suas expectativas para o evento?

Não quero por expectativas muito altas, porque sou otimista mas gosto de manter expectativas baixas para depois ser surpreendido. Mas ter estes CEO do mundo é, para mim, uma novidade. Temos de perceber se temos capacidade de os aproveitar. E acredito que sim.

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