Vida pessoal e profissão: uma questão de gestão de tempo?

Tradicionalmente, a problemática da gestão de tempo era vista como uma habilidade quase técnica: ser produtivo passaria pela arte de encaixar peças no puzzle do calendário. Hoje em dia essa visão está mais que ultrapassada.

Os avanços das ciências cognitivas vieram esclarecer que a otimização da
rentabilidade de uma linha de produção é muito diferente da gestão
emocional
que subjaz ao mundo da eficiência pessoal.

De facto, um mundo de novidades na gestão de recursos mentais, passando pela focalização, orientação à ação, gestão de risco e definição intuitiva de heurísticas de sucesso, provocaram uma autêntica fratura com os antigos postulados clássicos da gestão de tempo, pouco adaptados aos dias de hoje.

Em particular, a escolha que fazemos, a cada momento, sobre o que vai merecer a nossa atenção no instante a seguir, passa por uma miríade de opções analisadas a um nível subconsciente. Assumindo uma simplificação abusiva, podemos padronizar que, de uma forma geral, nos aproximamos de tarefas e atividades com grande probabilidade de serem bem sucedidas, e úteis, afastando-nos do inverso: probabilidade de fracasso e despropósito. De facto, tendemos a recusar fazer o que não sabemos fazer bem, encontrando o desconhecido a nossa natural resistência. Por outro lado, não gostamos de investir o nosso tempo em reuniões desnecessárias ou a construir relatórios que nunca serão lidos. Sabendo isto, podemos artificialmente estabelecer prioridades que contrariem estes princípios na lista de tarefas ou no calendário, mas isso apenas resultará num grande desgaste e, com o tempo, provável noção de incumprimento e até sentimento de culpa.

É isso que se passa com quem se sente a “incumprir” na vida pessoal. Como Coach Executivo especialista em Produtividade Pessoal, contacto frequentemente com clientes que pretendem “equilibrar” vida profissional e pessoal. Muitas vezes, pretendem “matematizar” esse equilíbrio no calendário, esquecendo que, à semelhança do ginásio, ou atividades que fazemos “por obrigação”, um equilíbrio forçado e alicerçado em mera disciplina passageira nunca será sustentável.

Qual é, então, a raiz desta questão? Onde reside o segredo para uma vida mais equilibrada?

A resposta é que, para a maioria das pessoas, a sua vida estará perfeitamente equilibrada, de acordo com a sua atual perspetiva valorativa, porventura mais a puxar para o curto prazo. Isto é: tem feito um bom trabalho profissionalmente? Isso tem-lhe merecido reconhecimento? Dá-lhe gozo mobilizar equipas em projetos desafiantes e com contributo valioso para a sua organização e para a sociedade? E em casa? De que modo aprecia estas mesmas perguntas? Que tal vai de performance? E o desafio, interessante ou demasiado rotineiro? Sente utilidade no investimento do seu tempo junto da sua família ou das suas atividades de lazer, ou fica a pensar que poderia estar a adiantar algumas coisas no computador? Obtém verdadeiro reconhecimento ao “portar-se” bem no campo pessoal? Parece-lhe uma “concorrência” justa no dia-a-dia comparar o gozo do estrelato profissional com a relativa banalidade pessoal?

De facto, muitas vezes é só quando nos chega um aniversário com algarismos assustadores ou uma consulta no cardiologista nos dá um estremeção, que nos apercebemos que os filhos cresceram rápido demais enquanto não estávamos lá, que se evaporou o tempo para tempo de qualidade, que foram tão poucas as férias a sério, como sonhávamos quando jovens, e que não colecionamos assim tantos momentos de tranquilidade, sossego e bem-estar, sempre aflitos com o peso de mais um desafio e de tanta responsabilidade. Afinal de contas, qual o propósito de tanta batalha? Qual a promessa para o fim da corrida? Qual o sentido de tudo, senão a própria viagem?

É, pois, apenas quando clarificamos os grandes projetos da vida, lhes revemos a importância e lhes redefinimos a noção de cumprimento, que nos podemos abandonar à tranquilidade de sentir reequilibrar-se quase sozinho o calendário, não em esforço – só porque racionalmente “me disseram que tinha que ser”-, mas de forma fluída e natural: já que intuitivamente passa a ser a única coisa que dá sentido a tudo o resto. Então, volta a equilibrar-se o equilíbrio, como sempre, apenas tendo mudado a perspetiva que nos faz dar valor a cada coisa.

Por Gonçalo Gil Mata, Professor do The Lisbon MBA e Partner da MIND4TIME

*Blog: www.WhatsTheTrick.com

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