Catarina Furtado e a Rainha de Inglaterra

O Presidente da República ganha por mês, de acordo com a Lei,

6.897 euros, mais despesas de representação. Segundo a imprensa, a

remuneração de Catarina Furtado é superior a 25 mil euros. A de

José Carlos Malato ronda os 20 mil euros, a de Jorge Gabriel anda

pelos 15 mil euros, um pouco mais do que a de João Baião, Tânia

Ribas de Oliveira e Sílvia Alberto. Na informação, José Rodrigues

dos Santos, diz-se, ganha pouco mais de 10 mil euros. Estes valores

nunca foram confirmados oficialmente (nem desmentidos, já agora),

mas, confirmam-se fontes da RTP, não andarão longe da realidade.

Falar de ordenados é sempre complicado. Sobretudo, num momento

como este, em que os portugueses vêem-se confrontados, por via de

muitos anos de erradas políticas económicas e financeiras, com um

austero plano de racionalização. O contexto é o que é, mas a

discussão dos ordenados em torno das figuras mais populares da RTP é

completamente demagógica.

Não vale a pena descortinar motivações pessoais nas críticas

que vamos encontrando por aí. É difícil confrontarmo-nos com a

realidade, mas é fácil perceber que o português que passou a ser

obrigado a levar a marmita com o almoço para o trabalho, ou que

entrou em incumprimento com o seu banco para o pagamento da prestação

da casa, se revolte com estes ordenados.

É demagógica, esta discussão, mas é compreensível. Como podem

os portugueses achar justo o que lhes está a acontecer se, ao seu

lado, sentem que há portugueses com outras possibilidades, tão

diferentes das suas? Como pode alguém que ganhe mil euros, e que vai

ficar sem subsídios em 2012, evitar a indignação de ver um

apresentador de televisão ganhar mais em um mês do que ele próprio

em um ano e meio ou dois anos?

É uma injustiça? Talvez seja, mas o mundo, pelo menos o mundo em

que vivemos, não se compadece com a força do mercado. A reflexão é

um caminho pantanoso, politicamente incorrecta (basta ver a profusão

de comentários indignados que esta história dos milhões provoca

nos fóruns de discussão na Internet...), mas vamos a ela.

Goste-se ou não deles, Catarina Furtado, José Carlos Malato,

Jorge Gabriel, João Baião, Tânia Ribas de Oliveira, Sílvia

Alberto e José Rodrigues dos Santos, só para citar os exemplos com

que comecei esta crónica, são sete dos melhores, mais conhecidos,

mais experimentados comunicadores da televisão portuguesa. O que

recebem por mês na televisão pública pode ser uma afronta para

quem sente uma guilhotina prestes a cair sobre a sua cabeça, mas é

o preço do mercado televisivo. Qualquer um deles ganharia isso, ou

mais, na SIC ou na TVI, se fossem contratados por uma televisão

privada.

A argumentação é já um clássico: "Pois, mas ninguém tem

nada a ver com o que eles ganhariam nas privadas. A RTP é uma

empresa pública". Verdade, a RTP é uma empresa pública e paga

com o dinheiro de todos nós. Mas nenhum deles obrigou as

administrações a pagarem-lhes o que lhes pagam. Eles aceitaram uma

proposta da RTP no quadro de um mercado concorrencial, porque a

empresa acreditou, e bem, que estes profissionais lhe trariam valor

acrescentado.

As regras podes vir a mudar. É uma decisão legítima do

accionista, que tem, contudo, de assumir os riscos. Quer um canal de

televisão de programação diversificada, que agrade a uma larga

franja dos espectadores portugueses, ou prefere uma estação que dê

representatividade às minorias, que incuta os valores da

solidariedade, da cultura e das artes, e que promova o conhecimento?

Se quer a primeira, uma estação capaz de ser uma referência mas

que seja capaz de tocar a vida e o coração dos portugueses, que

trabalhe para um milhão de espectadores todas as noites, vai ter de

contar com estes e outros profissionais, pagando-lhes o preço que o

mercado considera justo. Se opta pelo segundo modelo, se acha que

chega um canal que toque 200 mil portugueses, então não precisa das

Catarinas e dos Malatos da vida.

A decisão é política, logo é da tutela. É simples de tomar. E

urgente. Nivelar os ordenados das estrelas da RTP ao salário de

Cavaco Silva pode ser um acto de coragem, pode cair bem junto do

eleitorado, pode parecer mais justo, pode até ser útil para

resolver um problema urgente de tesouraria. Mas será seguramente um

erro a médio prazo, quando a televisão pública portuguesa for uma

espécie de rainha de Inglaterra. Está lá, mas é como se não

estivesse...

Director executivo da Notícias TV

Escreve à terça-feira no Dinheiro Vivo

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