Há vida para além da PUB

Dois Gajos a Falar de Anúncios. Podcast arranca na segunda

Gonçalo Martinho e António Neto

Fotografia: Joana Carvalho/D.R.
Gonçalo Martinho e António Neto Fotografia: Joana Carvalho/D.R.

Criativos no Mundo Gonçalo Martinho e António Neto explicam o que vão fazer com o podcast que fala sobre publicidade. E o primeiro convidado é...

Começou numa conversa de bar entre dois amigos publicitários, foi-se concretizando entre arrumação de malas de viagens e check ins de segurança no aeroporto a caminho de Berlim: o podcast Dois Gajos a Falar de Anúncios arranca na próxima segunda-feira, dia 11.

Gonçalo Martinho (diretor de arte) e António Neto (copy), há um mês em Berlim a trabalhar a criatividade das marcas Kia e Hyundai na agência Innocean Worldwide Europe, revelam ao Dinheiro Vivo os planos para este projeto pessoal onde falam sobre o mundo da publicidade.

“É o podcast que eu gostava que já existisse (em Portugal) quando saí da escola”, diz António Neto. “Tentamos provar que não há um percurso certo ou errado para quem quer meter-se nisto”.

Publicitários, estrategas, criativos irão fazer parte do convidados do podcast semanal e que arranca com um convidado de peso: Pedro Magalhães, diretor criativo da Fullsix.

O podcast pode ser seguido através do Facebook, do Instagram ou subscrito no iTunes ou Spotify.

 

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Preparam-se para lançar o podcast Dois Gajos a Falar de Anúncios. Porquê?

Gonçalo Martinho (GM): Sempre gostei de fazer projetos pessoais fora do trabalho — algumas vezes ligados à publicidade — e este veio dessa vontade de criar algo, de fazer algo acontecer. A verdade é que em agência criamos, é esse o nosso trabalho, mas há muitos filtros. Os diretores criativos, os clientes, os accounts por vezes, os colegas… É bom, porque é o que nos faz evoluir também, mas, por vezes, há a necessidade de criar algo com a nossa visão, sem necessidade de aprovação com terceiros ou com objetivos que nos chegam às mãos criados por alguém. É importante ter a liberdade de criar de raiz.

António Neto: Falando da razão de existência do projeto, achamos que há espaço para este formato no nosso mercado. Que é pertinente para quem trabalha na área e que pode ser útil para jovens estudantes em início de carreira. E não menos importante, porque nos dá um ‘gozo do caraças’. Finalmente, porque à exceção de um convidado que — compreensivelmente — recusou, todos aceitaram. Já não dava para voltar atrás.

A ideia surgiu porque estão em Berlim e querem manter ponte com a “casa criativa” portuguesa ou era algo há muito pensado?

GM: Isto surgiu há uns meses, não sei precisar se já sabíamos que vínhamos para fora ou não. Numa conversa com uns copos à mistura pareceu-nos uma boa ideia. Nos dias seguintes, já sem copos, voltámos a olhar e continuou a fazer sentido… E quando é assim há que meter mãos à obra para fazer acontecer e não deixar o projeto na gaveta. Obviamente que, saindo de Portugal, acaba por ser uma forma de estar presente, mas acima de tudo de contribuir com algo, afinal é, e será sempre, o nosso mercado, o nosso país. Se for útil de alguma maneira para alguém, é sinal que valeu a pena e é o que me deixa mais feliz.

AN: Eu e o Gonçalo queríamos muito voltar a fazer coisas juntos. Ora, o que pensámos foi o seguinte: se a publicidade não nos dá essa oportunidade agora, vamos criá-la. E assim foi. Entretanto, fomos contratados na Alemanha e havia 1000 coisas para tratar. As entrevistas do podcast passaram a ser encaixadas entre filas na segurança social e malas por fazer.

Vão ter convidados, então. É um programa temático ou são apenas ‘dois gajos’ a falar de publicidade?

GM: São dois gajos a falar com alguém relevante sobre publicidade. Mas esse nome era muito longo… Como não somos nem queremos ser gurus, achamos que isto tem muito mais interesse com convidados, gente que tem mais para ensinar do que nós, perspetivas diferentes e acima de tudo num registo mais informal do que aquele a que estamos habituados quando lemos entrevistas da malta nos jornais ou revistas da área.

Vai ser um programa semanal sobre comunicação no geral e publicidade em particular e vamos focar-nos muito em abordar diferentes profissões dentro da comunicação, mostrar o que é o nosso mundo e quem são as caras do nosso mercado. Lembro-me que quando estudava, na minha cabeça só podia ser criativo enquanto termo genérico ou account. Porque só sabia que existia isso. Mas dentro da parte criativa podes ser muitas coisas, dentro da publicidade podes ser muitas coisas, dentro do mundo da comunicação ainda mais… Para os mais novos isso é importante, ajuda-os a ver a realidade da indústria de uma forma mais próxima, acho. E julgo que para quem anda nisto há mais tempo também é interessante ver o que os pares têm para dizer.

AN: É o podcast que eu gostava que já existisse (em Portugal) quando saí da escola. Antes de começarmos a trabalhar, todo este mundo nos parece inacessível, e a verdade é que a publicidade é um meio um pouco hermético. Não acho que os responsáveis de grandes agências façam por mal, simplesmente não há tempo para receber todo o “maluco” que lhes bate à porta. Então, perguntamos sempre aos convidados como começaram e que dicas têm para quem está no início. Tentamos provar que não há um percurso certo ou errado para quem quer meter-se nisto. Acho que aquilo que o Gonçalo referiu também é importante, ou seja, perceber a quantidade de papéis que se podem desempenhar na indústria, que não exclusivamente “criativo”. É por isso que entrevistamos produtores, estrategas, diretores de contas…

Não é algo que vai acontecendo ao sabor do momento, então.

GM: Não vai ser ao sabor do momento, foi planeado, até porque eu sofro um bocadinho se não houver processo e organização, se não houver alguma consistência. Aqui o António teve de aturar uns quantos stresses meus à conta disso… É uma joia, fica aqui dito publicamente. O podcast vai ser semanal e vamos ter um convidado a cada episódio. Durante quanto tempo é a única coisa que não sabemos, mas com a qual também não nos queremos preocupar muito para já.

AN: A vantagem de sermos, de certa forma, “produtores independentes de conteúdo” dá-nos liberdade para errar até acertar. Ou seja, queremos que resulte, que seja relevante, e é nisso que nos vamos focar. A verdade é que poucas coisas “feitas ao sabor do momento” resultam. Mas, como é um projeto pessoal, estamos a tentar sempre encontrar o equilíbrio entre gozo e responsabilidade. Até agora está a resultar.

Já têm convidados fechados? Arranca com quem?

GM: Já fizemos bastantes entrevistas, portanto já temos muitos nomes com quem já falámos e outros tantos apalavrados. Haja tempo e capacidade para fazer um episódio com todos… Vai arrancar com o grande Pedro Magalhães, diretor criativo da Fullsix, um dos nomes mais consensuais do nosso mercado, o que me parece um excelente início.

AN: Ficámos de boca aberta com a quantidade de gente que aceitou participar. Estamos imensamente gratos, porque são pessoas com vidas e carreiras estabelecidas, algumas delas figuras públicas. Não tinham que se meter nisto e é questionável que lhes traga algum benefício. Sem dúvida que houve muita generosidade. Temos muita sorte.

 

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O que mais vos surpreendeu ao desenvolver este projeto?

GM: As pessoas com quem falámos. Às vezes temos uma ideia em relação às pessoas completamente diferente da realidade. Só houve um convidado que recusou o convite. E mesmo esse que recusou foi impecável na forma como o fez. Este tipo de projeto ajuda a perceber que, independentemente do cargo, somos todos humanos, estamos todos para o mesmo e é muito bom perceber isso na prática, ver que o mercado está cheio de gente boa, que quer ajudar, que fica feliz por isto acontecer, sinceramente. Pessoas que não conhecia, mas cujo trabalho admiro, revelarem-se uns porreiros, foi o melhor disto tudo. Já para não falar nas conversas em “off” depois de desligarmos os microfones… Mas essas são segredo…

AN: Correndo o risco de me repetir, a generosidade. Acho que é a palavra-chave aqui. Temos um mercado repleto de gente generosa. Se a publicidade portuguesa não está nos seus melhores dias, não é certamente por falta de boa gente, que por sinal é muito boa naquilo que faz.

E depois do podcast? Há ideia de levar este conceito para outro formato?

GM: No mundo ideal, numa terceira ou quarta temporada teríamos um canal de YouTube, por exemplo. Teríamos a oportunidade de gravar num estúdio com outras condições de trabalho, teríamos algum apoio técnico (de edição ou na promoção do podcast), só para dar alguns exemplos de coisas que obviamente elevariam a qualidade do produto final. Mas a verdade é que estamos na Alemanha. Já seria difícil conseguir isso em Portugal, quanto mais estando longe. E tudo isto está sempre dependente da adesão que o podcast venha a ter ou não. Portanto vamos ver. Dá-nos um gozo tremendo trabalhar nisto, para nós é o principal.

Lembrei-me agora que pode ser um dia um livro com as conversas, pode ter diversas parcerias pontuais, dá realmente para expandir para muitas coisas, haja tempo, capacidade e interesse de terceiros para isso.

AN: Há. Mas, como o Gonçalo disse, depende muito da colaboração de terceiros. Ou não – uma das lições mais importantes que retiramos disto é que não dá para estar à espera da notificaçãozinha vermelha no ícone do email. É meter as mãos na massa e ir à luta. Um técnico de som captaria melhor? Claro. Um editor faria melhor? Pois com certeza. O sonho é conseguirmos juntar essa equipa, nem que seja pontualmente. Não queremos ganhar dinheiro com este projeto, queremos aprender muito e que seja o “go to” podcast para quem trabalha em publicidade.

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