Elas são Next Creative Leaders. "É uma vozinha a sussurrar "alguma coisa têm de estar a fazer bem"

As Criativas no Mundo Teresa Verde Pinho (copywriter) e Mariana Reis (diretora de arte) são Next Creative Leaders na Europa. Um reconhecimento do festival One Club e do 3% Movement.

Fixe estes nomes: Teresa Verde Pinho (28 anos) e Mariana Reis (32 anos). São criativas, trabalham desde 2016 na agência de publicidade Ogilvy Paris e são portuguesas. A dupla Criativa no Mundo acaba de ser reconhecida como uma das vencedoras regionais da Europa do Next Creative Leaders, uma parceria entre o festival do One Club e o 3% Movement, iniciativa que pretende visibilidade ao talento criativo no feminino (quando arrancou em 2017 apenas 3% dos diretores criativos nos EUA eram mulheres).

No sexto ano desta competição, o One Club abriu portas aos vencedores regionais dando palco a criativas talentosas que, no seu canto do mundo, deram voz a histórias que não costumam ter visibilidade. Ao todo foram escolhidas 25 criativas a nível mundial, 15 vencedores regionais.

"À medida que nos ajustamos ao "novo normal" e começamos a sonhar sobre qual o futuro da nossa indústria e no mundo as 10 Next Creative Leaders e as 15 Next Creative Leaders Regionais de 2020 mostram-nos que é possível usar a criatividade para dar espaço a todos e de forma corajosa dar-nos o passo em frente para resolver os problemas que enfrentam as nossas comunidades, os nossos países ou o mundo a que chamamos casa", refere a competição.

O Dinheiro Vivo falou com as Criativas no Mundo Teresa Verde Pinho (copywriter) e Mariana Reis (diretora de arte).

Estão entre as vencedoras regionais da Creative Leaders Europa do One Club. Qual o significado deste reconhecimento?

Teresa Verde Pinho (TVP): Significa o mundo a olhar para nós. Os últimos quatro anos foram muito complicados, não conseguimos produzir tanto quanto queríamos, sofremos de imposter syndrome (crónico e profundo) e tivemos problemas com a agência. Chegou a um ponto que achávamos que estávamos "jinxed". Por isso, sermos escolhidas entre diretoras criativas da Droga5, criativas da DAVID Miami, e da Wieden+Kennedy, vem como um botão de restart e uma avalanche de motivação. É uma vozinha a sussurrar "alguma coisa têm de estar a fazer bem".

Sermos duas das Next Creative Leaders é uma grande honra, mas um reconhecimento destes não vem só com aplausos, mas também com um sentido de responsabilidade. Há que fazer mais.

Qual foi o extra que vos colocou aqui neste topo mundial?

Mariana Reis (MR): Paciência, resiliência e ... "desemerdanço". Pode parecer simples ou cliché mas é verdade. Esta indústria é muito cruel e é fácil um criativo ficar frustrado e perder o Norte. O essencial, mais que do ter talento ou sorte, é a capacidade de não desistir nunca, de arranjar outras formas para crescer criativamente sem ter que só depender numa agência.

Estarem há vários anos numa carreira internacional, em Paris, ajudou para este reconhecimento?

MR: Ajudou, mas não foi crucial. Grande parte dos projetos que inscrevemos foram "side hustles" criados proativamente no nosso tempo livre, apenas um foi produzido na Ogilvy Paris. No entanto, estarmos cá deu-nos uma curva de aprendizagem mais rápida do que em Portugal, e também significa estarmos mais expostas a este tipo de iniciativas.

Olhando para as vencedores, as suas origens geográficas, tipo de trabalho, sentem que há algum tipo de linha condutora, alguma tendência que o One Club queira dar um impulso?

TVP: Não. Aliás, muito pelo contrário. Achamos que o One Club estava à procura de criativas com perfis diversificados. O trabalho não precisa ser ativista, não é necessário estar numa agência de topo ou ter prémios na pasta. O que eles procuram são pessoas que criam ideias com um propósito, seja o cliente a Nike, o Intermarché ou uma ONG local.

Os temas femininos, o empoderamento, ganham com este tipo de iniciativas ou é apenas mais uma vela numa tempestade?

MR: Com toda a certeza que ganham. Há muitos que dizem que faltam mulheres com talento na nossa área, como desculpa para não contratarem mais criativas femininas. Este tipo de iniciativas só vem provar o contrário.

Falava-se do telhado de vidro que impedia a progressão de carreira das mulheres. Ainda sentem essa pressão ou o telhado está a ficar mais fino?

TVP: Muito honestamente, pouco mudou. O telhado continua lá e é bem palpável. Infelizmente, enquanto dupla feminina, sentimos na pele a desigualdade de género. Isto é um problema sistémico e cultural o que torna tudo mais complicado, porque nem sempre as pessoas se apercebem que este normal "não é normal".

Quais os planos de agora em diante?

MR: Nós aprendemos que não podemos traçar planos muito concretos. Mas sim vários pequenos objetivos que gostaríamos de alcançar. Como por exemplo, estarmos há 8 meses a tentar lançar um projeto pro-bono em que acreditamos. Isto faz com que estejamos abertas a novas oportunidades com mais facilidade. Claro que num mundo ideal, esperamos que este reconhecimento abra portas que de outra forma estariam fechadas.

Que trabalhos têm realizado na agência que vos enche o coração?

MR: Temos vários, mas os que mais nos enchem o coração são os que fizemos fora de horas, como o "If I Were A Man" e o "Natal dos Esquecidos". Porque trabalhar no mercado internacional não é o mar de rosas que achávamos quando cá chegámos, tudo demora muito mais a ser produzido, principalmente quando se trabalha campanhas globais.

França está em recolher obrigatório. Como está a ser viver, trabalhar e criar nestas circunstâncias?

TVP: Curto e grosso: não é fácil. Contudo, estamos todos no mesmo barco e por isso existe uma compreensão maior quando as coisas não correm tão smoothly como se estivéssemos presencialmente em ambiente de agência. Falta aquele contacto imediato com os outros criativos. Porém, não nos podemos queixar, as coisas têm corrido bem e até existem aspetos positivos. Esta situação põe em perspectiva o que o nosso trabalho significa e ajudou a cimentar a ideia de que nós as duas somos uma mini agência dentro de uma grande agência. E quem sabe se esta situação não abrirá portas para que a indústria não fique presa a vistos e que bons criativos e talentosos seja o único critério para trabalhar em qualquer mercado.

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