Este museu tem uma barra de ouro que pode tocar

A antiga Igreja de São Julião agora é o Museu do Dinheiro, do Banco de Portugal. Moedas e notas únicas explicam a relação do homem com o dinheiro.

Ermelinda Freitas aprendeu a ter uma relação "desprendida" com o dinheiro "porque tem de reinvestir" na produção dos vinhos Dona Ermelinda. Já a reformada Maria Luísa Conceição Ferreira, com um rendimento conjunto com o marido de 313,20 euros, nem por isso. Para levar a reforma até ao fim do mês, "tenho mesmo de me apertar, saber conduzir as mãos."

Ermelinda Freitas e Maria Luísa Conceição Ferreira são dois dos 14 testemunhos reunidos no Museu do Dinheiro e convivem com uma barra de ouro de 12,4 kg que vale cerca de meio milhão de euros - e que pode tocar - na exposição permanente do museu do Banco de Portugal que abre esta quarta-feira ao público, no edifício da antiga Igreja de São Julião, em Lisboa, ao lado da Câmara Municipal.

A barra de ouro é uma das 1200 peças das cerca de 51 mil que constituem o acervo que o Banco de Portugal tem vindo a reunir desde 1974, procurando com isso mostrar "a relação do homem com o dinheiro", conta Eugénio Gaspar, diretor dos serviços de apoio do Banco de Portugal durante a visita guiada ao museu cujo edifício sofreu um profundo processo de recuperação, com o projeto arquitetónico a cargo do arquiteto Gonçalo Byrne e todo o design museográfico concretizado por Francisco Providência.

O Museu convive com a sede do Banco de Portugal que, em 2006 foi uma das instituições que avançou para o projeto de requalificação da Baixa Pombalina, com a recuperação de um quarteirão de prédios, do qual era proprietário, entre os quais o da antiga Igreja de São Julião que hoje acolhe o Museu do Dinheiro. Ao todo o Banco de Portugal investiu cerca de 25 milhões de euros, adianta Hélder Rosalino, administrador do Banco de Portugal, ao Dinheiro Vivo.

Para o espaço de cerca de 2 mil m2, foram criadas 140 vitrinas especificamente para o Museu, tendo colaborado 50 empresas portuguesas em todo o projeto, da recuperação à criação de 12 experiências interativas e multimédia, adianta Eugénio Gaspar.

Aqui não se quer um ato de contemplação, mas uma relação interativa com o espaço do museu e com as peças. "O Museu tem de ser descoberto e não contemplado", diz Eugénio Gaspar. Não só se pode tocar na barra de ouro, como o próprio bilhete que é entregue à entrada o visitante pode interagir em cinco momentos do percurso com a exposição. "Que pode ser recordada em casa", através do site do museu, reforça o responsável.

Dividido em 9 núcleos, por três pisos, no Museu pode conhecer-se a primeira moeda (reinado da Lídia, séc. VII A.C) e notas conhecidas no Oriente e Ocidente. E conhece-se muito do momento político, das dificuldades vividas do momento económico do país pelas moedas e notas expostas.

Ficamos a saber, por exemplo, que depois de Sancho II e dos seus Morabitinos (inspirados nos dinares almorávidas islâmicos) não se cunhou durante mais de um século moeda em ouro. Somos transportados para a turbulência política do Portugal do século XIV com o real de D. Beatriz, do qual se conhecem apenas quatro exemplares, e que terá sido cunhado em Santarém em 1384, durante a invasão militar de D. João I de Castela em defesa dos direitos de sucessão de D. Beatriz, sua mulher e herdeira da Coroa portuguesa após a morte do pai. E que durante a I Guerra Mundial a falta de moeda para trocos levou câmaras municipais e lojas a emitir notas para esse efeito. E conhecemos notas de todo o mundo, algumas já fora de circulação, como as do Iraque com Saddam Hussein.

Pode cunhar uma moeda, imprimir notas com a sua cara, testar se as suas notas e moedas cumprem os requisitos do Banco de Portugal e até ver exemplares de notas falsificadas por Alves dos Reis.

O Museu do Dinheiro abre de quarta-feira a sábado, das 10h às 18h. A entrada é gratuita.

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