Fomos jogar Pokémon Go para perceber a nova loucura

Com uma semana de existência, o jogo para smartphones já contabiliza 15 milhões de downloads e a febre espalhou-se por todo o lado. Porquê?

Nada podia ter preparado a Nintendo, a Niantic e a Pokémon Company para a obsessão que o seu novo jogo para smartphones gerou nos últimos dias. De acordo com estimativas da SensorTower, o Pokémon Go já foi descarregado 15 milhões de vezes e ultrapassou os minutos de utilização diária de redes como o Facebook. Acabaram relações, foram descobertos cadáveres, a polícia emitiu alertas e sucederam-se roubos e acidentes. Não há memória de um impacto tão repentino e massivo com qualquer jogo na história dos telemóveis. Como é que isto se explica?

Disponível oficialmente apenas nos Estados Unidos, Austrália e Nova Zelândia, o Pokémon Go é um jogo gratuito que usa os sensores, GPS e câmara dos smartphones para entrelaçar o mundo real e o virtual. Sabe-se que correm por aí versões não oficiais do jogo para Android, instaladas através de lojas alternativas à Google Play, mas os analistas de segurança estão a alertar para os riscos que isso acarreta – algumas estão infetadas com códigos maliciosos. Não há data de lançamento para a Europa, apenas a intenção de o fazer “em breve.”

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A Niantic, que desenvolveu o jogo em parceria com a Nintendo e a Pokémon Company, teve mesmo de fazer uma pausa no lançamento porque os servidores foram abaixo. É que o poder computacional que alimenta o jogo em tempo real para milhões de utilizadores está concentrado numa única localização, de forma a garantir exatamente os mesmos dados e condições a toda a gente.

A Niantic, responsável pela tecnologia de realidade aumentada que tornou o jogo tão viciante, é um spin-off da Google. E o seu fundador, John Hanke, foi um dos fundadores da Keyhole, empresa que viria a tornar-se o Google Earth. A New Yorker conta como o conceito do Pokémon Go nasceu de uma partida de 1 de Abril: em 2014, a Google lançou um vídeo que punha criaturas do mundo Pokémon em cima do Google Maps. A Niantic questionou-se se seria possível tornar isso realidade, e dois anos depois, mais que ultrapassa a ficção.

À caça de Pokémon

O mundo dos Pokémon apareceu pela primeira vez em 1996 na consola Game Boy da Nintendo e gerou um franchise multimilionário, com séries animadas e cartas. Mas não é preciso conhecer este universo para jogar Pokémon Go. Descarregámos o jogo para iPhone, através da loja iTunes dos Estados Unidos, e fomos à caça de Pokémon para perceber o que está por detrás da loucura.

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No início, o jogo permite personalizar a aparência do jogador, que será o treinador de Pokémon – criaturas fantásticas que queremos apanhar e treinar para mais tarde pôr a lutar umas contras as outras (dito assim, não parece tão nobre). Depois, não dá para jogar sentado no sofá. O jogo requer que o treinador se faça ao caminho e vá procurar Pokémon na rua. O ecrã mostra uma simulação animada do treinador e do local onde se encontra, e quando começamos a andar a aplicação usa o GPS para determinar as nossas coordenadas. De repente, surge no ecrã o aviso de que há um Pokémon nas proximidades e é preciso que nos aproximemos o suficiente para o apanhar com uma Pokéball. Quando chegamos perto, a câmara do smartphone ativa-se e mostra a pequena serpente, o dragão ou o Pikachú ali a mexer-se em cima de um arbusto, a meio das escadas ou no passeio. É uma sobreposição de fantasia no mundo real – por isso se chama realidade aumentada.

pokemon

Desliza-se o dedo para atirar a bola e apanha-se o Pokémon (às vezes só depois de algumas tentativas), que é guardado dentro da bola. E retoma-se o caminho. O objetivo é ir passando de nível para podermos ir até um “ginásio”, onde o treino vai permitir pôr os Pokémon a lutar – mas só a partir do nível cinco.

REUTERS/Mark Kauzlarich REUTERS/Mark Kauzlarich

Entretanto, o ideal é procurar uma Pokéstop, locais como fontes, jardins ou edifícios singulares onde podemos recarregar o cesto de Pokéballs e de ovos (que depois incubamos para fazer nascer novos Pokémon).

Há centenas de Pokémon diferentes. Alguns só aparecem à noite, o que explica porque é que alguns jogadores foram apanhados a entrar à socapa em igrejas às quatro da manhã ou às voltas no Santa Monica Pier até ao raiar do sol. Outros só se encontram junto à água. O fascinante é que, por aqui, parece haver sempre alguém a jogar em qualquer rua, e estranhos que antes se cruzariam sem notar agora param e perguntam: “Há aqui alguma Pokéstop? Viste um Squirtle por aí?”.

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Este é um jogo verdadeiramente social, que obriga a ir para a rua, a andar quilómetros e a interagir fisicamente com outros jogadores. Também por isso tem perigos – um dos Pokémon que apanhei fez-me andar às voltas para me posicionar no sítio certo, enquanto uma polícia olhava para mim de lado. Há quem tenha caído ou batido com a cabeça em postes. Uma adolescente encontrou um cadáver a boiar num rio. Ontem, aqui em Los Angeles, dois homens que estavam a jogar sofreram um ataque de carjacking, e já houve outros assaltos relacionados com o Pokémon Go. Algumas pessoas perderam o sossego desde que os jogadores descobriram que as suas casas são “ginásios” e vão dar com eles de pijama à porta de casa às onze da noite. É possível que os níveis de produtividade tenham baixado consideravelmente na última semana, tendo em conta os avisos zangados que alguns patrões afixaram nas paredes nos últimos dias.

REUTERS/Sam Mircovich/Illustration REUTERS/Sam Mircovich/Illustration

Também é possível que muitos jogadores percam alguns quilos nas próximas semanas, dado que o jogo faz realmente andar muito sem quase se dar por isso. Na minha primeira excursão, andei quatro quilómetros para apanhar seis Pokémon, ir a duas Pokéstops e localizar um ginásio, debaixo de um sol abrasador. Não foi preciso muito para perceber porque é que o jogo é tão viciante: permite misturar o mundo fantástico e o real – fez-me lembrar o Sítio do Picapau Amarelo – sem ser preciso usar sistemas complexos nem óculos esquisitos. Esse será o efeito mais duradouro da loucura com o Pokémon Go: muitos anos depois de nos prometerem a revolução da realidade aumentada (a YDreams já falava nisto em 2006), este jogo mostra-nos o quão atrativa a tecnologia pode ser. Os smartphones estão mais potentes, os GPS são ubíquos, há banda larga e Wi-Fi em todo o lado: condições que anteriormente não estavam todas reunidas. Daqui para a frente, é assim que vamos querer interagir com aplicações e jogos móveis. Sem necessidade de gastar milhares de euros num aparelho que nos faz parecer o Inspetor Gadget, como os Google Glass ou o HoloLens. Sem precisar de óculos especiais, como os das televisões 3D. Usando o cenário das nossas casas, ruas, fontes e jardins, onde poderão saltar criaturas fictícias ou aparecer o Eça de Queirós a ler um livro.

O próximo passo da Niantic é permitir que os treinadores ponham os seus Pokémon a lutar contra os Pokémon de outros jogadores. Aí sim, está tudo estragado: vai instalar-se o caos.

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