Morreu Rosalina Machado, uma grande senhora

Primeira mulher portuguesa presidente de uma multinacional e grande senhora de negócios é recordada pelo seu percurso notável e generosidade ímpar.

Foi a primeira mulher portuguesa a liderar uma multinacional, a Ogilvy & Mather Portugal, mas mais do que isso, Rosalina Machado foi sempre uma líder. Soube ombrear e ir mesmo além de muitos homens de negócios da sua geração e uma grande senhora, reconhecida em Portugal e no mundo.

Até 2009, ocupou o lugar de chairwoman da Ogilvy, virando-se depois para as empresas da família e o Belcanto, em parceria com o marido.

Morreu hoje na sequência de um cancro no pulmão contra o qual lutava há anos - um dia depois do marido de há mais de 50 anos, Francisco Tavares Machado, vítima de covid-19.

A multinacional já reagiu ao desaparecimento de Rosalina Machado. "A Rosalina deixava, em tudo o que fazia, um sorriso, uma felicidade, uma alegria contagiante. Marcou várias gerações de publicitários com a sua atitude positiva, com a sua profunda honestidade e a certeza que as empresas são pessoas. Pessoas que ela apoiava, incentivava e ajudava mesmo fora do universo profissional. Rosalina Machado sabia que a felicidade é o bem mais valioso de uma empresa", recordou o diretor de serviço a clientes da atual BAR Ogilvy, Francisco Costa, que trabalhou com a profissional.

Quem também trabalhou com Rosalina Machado, mesmo de forma indireta, foi o publicitário Edson Athayde. "Quando cheguei a Portugal, há 30 anos, Rosalina Machado estava na elite da publicidade. Eu admirava pessoas como ela", recorda o brasileiro ao Dinheiro Vivo.

Edson Athayde assumiu a direção criativa da Ogilvy em meados de 2005 e acredita que a gestora teve uma palavra neste processo. "Ela apoiou a minha contratação com a Ogilvy, como chairwoman. Foi uma pessoa muito educada e delicada, com quem tive imenso prazer de trabalhar. Não era uma executiva do estilo mulheres de armas mas era sempre muito simpática e alegre. Muito sorridente."

Também os amigos recordam a importância de Rosalina Machado neste mercado. "Morreu uma das melhores profissionais do mundo da comunicação, publicidade, marketing e o mais que quiserem que Portugal teve até hoje. Afirmou-se no mundo empresarial como poucos e, no seu tempo, como muito poucas. Uma mulher linda, elegante, sabia ensinar com diplomacia, ceder e ser dura", reagiu no Facebook António Cunha Vaz, amigo de Rosalina Machado.

"Uma pioneira, uma excelente mulher de negócios, uma excelente Relações Públicas e uma mulher com uma forte atividade cívica e política", reagiu Ricardo Monteiro, antigo presidente e chairman global do grupo Havas, em declarações ao Dinheiro Vivo. "Uma mulher especial na nossa profissão e diferente no nosso panorama, com uma notoriedade pública acima dos demais homólogos, com uma atividade política, com uma grande ligação ao PS e ao Mário Soares", continua.

"A nível profissional, além de ter sido uma pioneira, foi sob a sua liderança que a Ogilvy teve anos muito prósperos, chegando a ser uma das grandes agências nacionais tanto ao nível de colaboradores como de clientes", recorda o ex-Havas. "Tinha uma grande elegância na forma de tratar as pessoas".

Mário Rui Silva, CEO da Happy Brands e antigo CEO e fundador da HPP, recorda Rosalina Machado como a pessoa que "efetivamente me abriu as portas no mundo da publicidade".

"Ainda entrei para a DC3, e depois esta agência nacional foi comprada pela multinacional Ogilvy & Mather. De repente, sem que tivesse feito alguma coisa para isso, eu estava a trabalhar numa das maiores multinacionais. Naquele tempo, trabalhei contas como a Varig, a Lever, o Entreposto (Nissan), Macieira, etc .e ela sempre me ajudou imenso", recorda.

"O que mais admirava nela era a sua postura de líder, sempre com fairplay e com um contacto invejável e muito próximo dos clientes que efetivamente tinham poder de decisão", diz Mário Rui Silva. "Era muito afável, uma líder, muito compreensível e amiga da sua equipa, humana e socialmente uma pessoa excelente."

"Tudo o que fiz na Ogilvy ajudou-me a compreender os negócios", contava Rosalina Machado, entrevistada para o livro O Homem Certo para Gerir uma Empresa é uma Mulher, de Rosália Amorim. No mesmo livro, a gestora contava que o seu pai sonhava para a filha um futuro brilhante como "dona de casa empenhada e mãe a tempo inteiro". Recordava quando veio de Coimbra para Lisboa e decidiu que "queria começar a trabalhar". Recebeu telefonemas em casa para um primeiro recrutamento para a empresa Gás Sidla, mas foram sempre atendidos pelo pai, até que se pôs a caminho para falar ao potencial empregador e ainda teve de ouvir do pai "se julgam que me compram por dar emprego à minha filha está muito enganados"... "Durante três meses só me disse bom dia e boa tarde", contava, a propósito dos desafios de ser mulher e profissional. A emancipação, confessava, custou-lhe caro: "o país era rígido", talvez por isso "eu respeite muito a personalidade de cada uma das pessoas", concluía.

Entrada na publicidade e o nascimento da DC3

A entrada na publicidade deu-se quase por um acaso. "Havia um primo direito da minha sogra, o Manuel Queiroz Pereira, que tinha nessa altura o jornal A Capital e convidou-me para estar à frente do suplemento feminino. Nessa altura contratámos uma agência de publicidade para divulgar aquele que foi o primeiro suplemento a cores. Eu tinha 23 anos. O suplemento era sobre a mulher na vertente política, desportiva, etc., e foi um sucesso. Entretanto, veio o 25 de Abril e essa agência que trabalhava connosco abriu falência. Várias pessoas amigas, entre elas o António Dias da Cunha, que era administrador do Entreposto, e o presidente da Varig perguntaram-me porque é que não começávamos uma agência", lembrava Rosalina Machada, em 2010 em entrevista à revista VIP.

O nome da agência DC3, os aviões em que a Varig começou a voar. "A DC3 esteve durante cinco ou seis anos entre as dez maiores agências de publicidade. Nessa altura, a multinacional Ogilvy andava em Portugal a estudar a compra de uma agência ou começar uma de raiz. Uma prima minha que conhecia o presidente europeu pediu-me para dar informações sobre as pessoas e empresas que eles já tinham selecionado. A meio do processo, o presidente da empresa disse-me que gostava de fazer essa empresa comigo. Eu nunca tinha pensado nisso e, além disso, havia alguns problemas entre as multinacionais e as empresas locais e eu não estava interessada em entrar nesse conflito. A verdade é que acabei por aceitar. Ainda hoje não sei qual o grau de inconsciência, mas foi um risco que resultou", recordava.

"Hoje, que estou retirada, sinto mais que fui uma referência no feminino do que sentia na altura. Tinha a perfeita noção de que a minha carreira podia ter acabado ali e de que muitas pessoas que estão à frente das empresas têm um reconhecimento interno, mas não têm reconhecimento do outro lado da rua. Eu consegui, felizmente, ter os dois", disse.

"Orgulho-me muito de ter sido pioneira como presidente de uma multinacional em Portugal, num campo que aparentemente era muito difícil e que nunca tinha sido ocupado por uma senhora. Sinto orgulho em saber que a minha audácia serviu de inspiração para algumas gerações seguintes que tiveram como padrão a minha audácia, ou a minha capacidade. Ter criado uma carreira no feminino e que foi seguido por jovens é algo que, logicamente, me satisfaz."

A ligação à multinacional que se iniciou em 1986 - foi a primeira mulher a dirigir uma agência Ogilvy no mundo, cargo que ocupou durante décadas - foi interrompida em 2009, após quatro anos como chairman, tendo vendido a sua participação de 12,5% à WPP.

Não voltou à publicidade, tendo-se dedicado aos negócios da família, tendo através da FTM Holdings, atuado em áreas como o imobiliário e a metalomecânica.

"Não sinto saudades. Ao lon­go da minha carreira tentei sempre marcar pela diferença. Não gosto de dizer que assumi uma gestão feminina, mas a verdade é que as mulheres que trabalham em gestão conseguem criar um ambiente mais familiar e afetivo. Nunca me sentei numa cadeira à espera que as coisas acontecessem. Mas agora, que trabalho na empre­sa familiar, sinto que há uma grande diferença. Hoje, sou eu que mando na agenda e durante anos foi a agenda que mandou em mim. Tem de haver um equilíbrio entre o trabalho e a vida privada. Claro que às vezes fal­ta o tempo para se viver de uma maneira tranquila esses dois mundos, mas, no meu caso, se abdiquei de alguma coisa ao longo desses anos foi de mim própria, porque não tinha tempo para fazer aquilo de que gostava", disse em 2013 numa entrevista à Caras.

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