Nespresso. O que faz George Clooney no Sudão do Sul?

George Clooney é uma estrela no Sudão do Sul, mas a razão está longe de ser a habitual. Num país onde a guerra só terminou há três anos e o cinema passa totalmente ao lado dos habitantes, a ligação do ator é outra: o café. Porquê? A explicação foi dada pelo próprio: "Atualmente só existe um produto proveniente do Sudão do Sul, que é o petróleo, e o problema deste produto é que alguém, uma companhia, retira-o do solo, coloca em condutas e vende. E o dinheiro obtido não retorna à origem." Por outro lado, o café "é uma oportunidade real", defende.

Foi por isso que George Clooney convenceu a Nespresso, onde é embaixador do café, a analisar as capacidades de produção e, ao fim de um ano, os resultados começam a surgir. É que para além da altitude do solo e do passado de produção de café, o Sudão do Sul tem a particularidade única de produzir tanto Arábica como Robusta, duas variedades bastante apreciadas e que normalmente crescem em zonas distintas -- esta não é a única ação do ator naquele país

O desafio foi ideal para a marca, que já desenvolve programas de apoio a produtores em outros países de África e América Latina. "Se não fizermos aquilo com que nos comprometemos poderá não haver café para os nossos clientes nos próximos dez anos", diz Guillaume Le Cunff, chairman da Nespresso, ao Dinheiro Vivo.

O responsável lembra que "os produtores não têm a obrigação de vender o seu café à Nespresso, podem vendê-lo a quem quiserem". Mas a marca está a desenvolver métodos que prolongam o vínculo a estas pessoas. "Eles querem ter lucro e benefícios, por isso, está na nossa mão encontrar uma forma de os manter felizes. O segredo é ser sempre o número um e conseguir ter a preferência dos produtores". Mesmo sem quaisquer contratos.

"Do total de produtores que se juntaram a nós há dez anos, 90% ainda estão a trabalhar connosco. Não posso dizer que nos próximos dez anos conseguiremos os mesmos 90%, mas para já os nossos modelos estão a funcionar e os produtores querem estar connosco", defende.

É precisamente para garantir condições especiais aos produtores que a Nespresso irá investir 500 milhões de francos suíços (413 milhões de euros) durante os próximos seis anos. No plano que desenhou até 2020, e que apresentou esta quarta-feira em Milão, a marca determinou logo à partida 15 milhões de francos suíços (13 milhões de euros) para melhorar as produções em África. E ainda uma fatia para o Fundo de Pensões de produtores de café que iniciaram há um ano na Colômbia. Porquê? "Porque a lealdade é um bem que se constrói com tempo", refere Le Cunff. O CEO da empresa diz o mesmo: "Queremos garantir o acesso a pelo menos 2% do café de maior qualidade que se produz no mundo e para isso precisamos dos produtores", adianta Jean-Marc Duvoisin.

Do total do investimento, a marca prevê uma fatia para reflorestar África e anular a sua pegada de carbono. Além disso, quer assegurar condições para reciclar a totalidade das cápsulas vendidas mundialmente e consciencializar os clientes da importância de fazer o alumínio (material utilizado nas cápsulas) retornar à origem. "Cada cliente é diferente. Alguns preocupam-se mais, outros menos, mas nós queremos o nosso alumínio, queremos as nossas cápsulas de volta. Primeiro porque o alumínio é um material muito interessante, mas especialmente porque a sua plena utilização passa pela reciclagem", conta Le Cunff.

Em 2009, a Nespresso começou a implementar um sistema de reciclagem de cápsulas que, no final de 2013, já permitia a reutilização de 75% das cápsulas vendidas pela empresa. Agora, com 150 milhões de francos suíços a investir até 2020, a marca pretende ter capacidade para reciclar a totalidade das cápsulas que coloca à venda. "Falamos de capacidade porque o nosso objetivo é criar meios para que as cápsulas regressem, mas não podemos estar em todas as cozinhas", lembra o chairman da Nespresso. Ou seja, dizer que vai ser possível reciclar 100% das cápsulas até 2020 pode não querer dizer que isso aconteça realmente.

"Varia muito de país para país. Na Suíça começámos a reciclar em 1991 e há pontos de recolha de cápsulas em todo o lado, mas em outros países onde estamos há menos tempo a realidade ainda é muito diferente", lembra Le Cunff. Em Portugal existem já 290 pontos de recolha, mas os impedimentos legais inviabilizam sistemas como o francês ou o suíço, e que passam pela recolha das cápsulas usadas pelo transportador que leva a nova encomenda. E não serve de nada colocar as cápsulas usadas no contentor amarelo porque os sistemas de reciclagem existentes no país não estão preparados para separar o café do invólucro de alumínio, como em França.

Ainda assim, os portugueses já podem utilizar a aplicação da Nespresso para smartphones, que permite localizar os pontos de entrega mais próximos. Podem ser lojas da Nespresso ou outros pontos associados à empresa. "Assim não há desculpas", diz Gillaume de Cunff.

A marca não descarta um novo material para as cápsulas de café, mas lembra: "Ainda não encontrámos um com as propriedades do alumínio". O ideal é, por isso, informar e aproximar soluções.

*em Milão. A jornalista viajou a convite da Nespresso

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