Dinheiro Vivo TV

“Pessoas estão à espera de ver quais as companhias que cuidam das suas pessoas”

A carregar player...

Alan Iny, coautor de Thinking in New Boxes: A New Paradigm for Business Creativity, é um dos oradores da Happy Conference, a decorrer a 30 de junho.

Criatividade é a chama que pode dar às empresas capacidade para dar a volta aos seus negócios, mesmo em tempos de pandemia do covid-19.

Alan Iny, coautor de Thinking in New Boxes: A New Paradigm for Business Creativity e partner e diretor associado para a Criatividade & Cenários da Boston Consulting, defende o poder da inovação e como pensar em cenários pode ajudar as empresas a estar melhor preparadas num futuro incerto. Cada vez mais as empresas/marcas têm de ser saber qual o seu propósito ou não estivessem os consumidores neste momento atentos às empresas que cuidam das suas pessoas e comunidades.

É um dos oradores da Happy Conference, que decorre em ambiente 100% virtual, no próximo dia 30 de junho.

Participa na Happy Conference numa altura em altura em que o mundo vive um momento bastante infeliz com a pandemia do covid-19. Como se pode dar alguma alegria aos negócios?

Estamos a viver tempos sem precedentes, há todo o tipo de desafios, mas para mim isso é diferente de ser feliz ou infeliz. Há situações de infelicidade, mas globalmente começo a ver sinais de criatividade, de novas possibilidades, que, possivelmente, não teriam sido possíveis sem o impulso deste vírus. A situação em que estamos está em muito fora do nosso controlo, mas a que está sob o nosso controlo o que podemos fazer? Como podemos ter ideias criativas para novos negócios, em vez de pensarmos como é podemos voltar àquilo que tínhamos antes, como garantir que a sociedade em que vivemos é ainda melhor, de certa forma, do que era antes?

As velhas formas de fazer irão de facto funcionar no ‘novo normal’?

Percebo que as pessoas usem a expressão ’novo normal’ mas para mim não funciona, não penso que vá ser um novo normal, vai ser uma nova realidade. Os negócios estão a ser confrontados com todas estas situações de curto prazo: será que as coisas vão melhorar, vai haver uma segunda vaga, uma terceira? Mas, depois desta crise de curto prazo, o que vai ser esta nova realidade? E quando pergunto isto aos líderes de negócios eles ainda não têm uma resposta muito clara. Dizem que devemos ter mais teletrabalho, mas o que mais? Não sabem. E o motivo é porque ainda há uma grande incerteza em torno de coisas muito importantes como globalização vs protecionismo, qual será o papel de organizações como a ONU e a União Europeia no futuro ou vai ser cada país, cada região por si? E a tecnologia e qual o papel que o Governo poderá ter na sociedade como um todo? E as alterações climáticas?

Tenho tentado com clientes ter algumas imagens do que poderão ser essas novas realidades. Imagine um mundo onde o vírus dura muito tempo, em que é difícil encontrar uma vacina, em que os governos apoiam os empreendedores, há uma série de startups, e são as organizações existentes que vão ter problemas a não ser que se consigam reinventar digitalmente; ou então um mundo super protecionista, onde a nível global há uma luta por ventiladores e máscaras, como já assistimos, mas também uma luta por tratamentos e vacinas sem qualquer tipo de colaboração, com as fronteiras fechadas; ou um cenário, em que chegamos ao limiar do desastre, e depois nos apercebemos que estamos nisto juntos e começamos a colaborar nas vacinas, nas mudanças climáticas… Pode parecer muito improvável hoje, mas as coisas estão a mudar de forma muito rápida. Para mim, não pensar em só uma realidade, mas ter quatro ou cinco cenários de novas realidades ajuda as empresas, pois se conseguirem aceitar que qualquer uma das realidades pode acontecer, podem preparar-se melhor, ter planos de contingência e serem mais resilientes independentemente do futuro.

Há algum sector que esteja a mostrar maior resiliência? Portugal é muito dependente do turismo que foi fortemente afetado. Algumas das empresas que está a trabalhar é da área do turismo? Que estratégias estão a desenhar para dar a volta?

Numa nota pessoal, o ano passado trabalhei em 18 países e adoro conhecer sítios interessantes, com família e amigos, incluindo Portugal, estou desejoso do dia que possa regressar e conhecer um pouco mais. Para Portugal, Itália, França, especialmente no verão, o pico do setor, este é um embate significativo na economia. Esta situação é um desafio. Estão à procura de soluções talvez no turismo doméstico, mais local, do que internacional, mas isso não é uma solução total.

É verdade que há sectores que têm tido mais vantagens do que outros, por exemplo, na indústria naval de transporte de mercadorias falei com alguns operadores que referiram que, haja o que houver, terão sempre de levar trigo, soja ou óleo, porque nem tudo é produzido localmente, poderão ter de alterar rotas mas o negócio irá continuar. Este sector está relativamente estável, enquanto o turismo e outros sectores têm mais desafios.

Em todos os sectores vai haver vencedores e perdedores. No turismo os operadores que sejam capazes de dar confiança aos clientes – não é uma questão de dizer estamos abertos, que fizeram alterações e que não é apenas o mesmo de antes, exceto agora têm de manter dois metros de distância, etc – se conseguir encontrar soluções criativas, pensar em novas abordagens, modelos de negócio, para mim é o tipo de coisa que aumenta a probabilidade de estar entre os vencedores num sector difícil.

Defende que mais do que pensar fora da caixa, as empresas devem pensar em ‘novas caixas’ e colocar a criatividade no centro do negócio.

A criatividade é essencial, já o era há seis meses e agora ainda é mais. Sempre nos foi pedido para pensar fora da caixa, o que significa apenas que tens de ter novas ideias porque as que tens não prestam. O que significa encontrar uma nova caixa? Primeiro temos de perceber o que são as nossas premissas ocultas: fazemos as coisas deste modo, é assim que toda a gente faz, pensamos isto sobre este tipo de cliente, pensamos sobre a concorrência assim, sobre o uso de Big data. Tudo isto são caixas.

A criatividade significa desafiar algumas destas caixas para encontrar novas caixas, premissas, novas formas de olhar para as coisas. O primeiro passo é encontrar as premissas, em especial as que damos como garantidas, e pensarmos e se fizermos de outra forma? Sempre foi importante, mas nesta era do covid é essencial mais do que nunca, por dois motivos. O primeiro é histórico.

As empresas que investem mais em R&D (pesquisa e desenvolvimento) e em inovação agora acabam por ter um retorno adicional para os acionistas. Na última crise, as empresas que foram melhores em inovação tiveram um aumento de 4% do retorno para os acionistas quando comparado com aqueles que não o fizeram. Portanto esta é a razão histórica. Mas para além disto, este é o momento onde as nossas caixas fundamentais estão a ser desafiadas. Se uma empresa tem vindo a fazer há 30, 50, 100 anos as coisas de uma determinada maneira, isso está a mudar quer queiram quer não.

O retalho está a mudar, agora temos acrílico a separar as pessoas, somos encorajados a pagar com aplicações móveis e a fazer entregas em casa. A PepsiCo está a pensar em como pode vender diretamente aos consumidores em vez de em lojas. Nos EUA a Pepsi começou alguns serviços de entregas em casa para vender diretamente aos consumidores que tem um grande impacto nos lucros.

Em certa medida é um momento bonito, apesar de difícil, para desafiar o status quo, para encontrar novas caixas, para pensar as coisas de forma diferente. Se não agora, quando?

Estratégias de vendas diretamente ao consumidor podem ser uma forma das empresas darem volta ao negócio, tornando-as mais ágeis? Que outras medidas?

Penso que a curto prazo, definitivamente, sim. As lojas estão fechadas. Para mim a única coisa que é segura no médio prazo é que irá haver mais consumo virtual de bens e produtos, por isso, é melhor marcar presença nesse domínio, mas, em geral, a melhor vantagem é esta capacidade de repensar as normas, de tentar novas coisas e experimentar. Mesmo grandes corporações como a Microsoft. A empresa estava, não apenas nos últimos meses mas nos últimos cinco anos, com esta grande transformação de uma empresa que vende licenças para Word e Excell para uma plataforma de serviços para negócios, em que criaram um ecossistema de parcerias. Este é o tipo de agilidade que é ainda mais importante agora. Avançar para outros negócios é algo que vemos cada vez mais. A Amazon entrou no negócio do retalho alimentar em vez de apenas livros, entrou nos media, nos jornais. Estamos a ver uma série de oportunidades ao longo de uma série de fronteiras da indústria.

Inovação é fulcral, mas nesta fase as empresas enfrentam problemas de liquidez e as taxas de sucesso de inovações são baixas. Como se dá volta a isto?

A inovação sempre foi baseada em ter um portefólio de ideias, algumas serão vencedoras e outras não. Há sempre esse risco, sempre foi assim e isso não mudou. Neste momento, um CEO ou um CFO tem de lidar com as crises de curto prazo, de cash flow, emergências, o que está a acontecer aos seus trabalhadores, a manter as coisas a flutuar. Compreendo que haja um grande foco no curto prazo. Proponho é que pensem também no médio prazo, é muito importante para encontrar formas de adaptar o modelo de negócio. Foi Linus Pauling, vencedor de um Nobel, que disse que a melhor maneira de ter uma ideia é ter muitas ideias. E isso continua a ser verdade.

Ter tempo para ser criativo e por uma série de ideias em cima da mesa é essencial, não quer dizer que cada ideia tenha de ser difícil, dispendiosa ou complexa para que seja vencedora. Nos EUA a United anunciou uma parceria com a Clorox e com a Cleveland Clinic. A Clorox é uma das marcas de desinfetantes mais reconhecidas e a Cleveland Clinic uma das mais respeitadas ao nível de clínicas e hospitais privados. Com isso pretendem que as pessoas tenham mais confiança quando entram num avião com os protocolos de limpeza e segurança que implementaram. Sinceramente, não sei se os protocolos de limpeza são diferentes da Delta ou da American Airlines, mas do ponto do vista dos consumidores não é algo dispendioso dizer ‘temos estas parcerias’. É apenas um exemplo de algo criativo que não teria acontecido há uns meses. A ideia de chegar a um portefólio de ideias, ver quais aquelas que podem fazer movimentar a agulha, as que podem fazer uma grande mudança a longo prazo, mas também uma pequena agora, pode fazer uma grande mudança.

Tem-se falado muito de marcas com propósito. Qual é o propósito das marcas nesta nova era?

Ter um propósito claro é mais importante do que nunca. Em tempos como este, as pessoas estão à espera de ver quais as companhias que cuidam das suas pessoas, das suas comunidades e dos seus clientes. Porque existimos? Porque fazemos tudo isto, porque estamos no mercado? E não é só porque queremos criar valor para os nossos acionistas. Por isso, para mim a ideia de marcas com propósito continua forte. O propósito em si pode evoluir. Espero que estejam mais focadas nas mudanças climáticas, nas pessoas, nos colaboradores, como um lugar que toma conta das suas pessoas, mais focadas em segurança e bem-estar no trabalho.

Comentários
Outras Notícias que lhe podem interessar
Outros conteúdos GMG
Hoje
Paschal Donohoe

Sucessor de Centeno: Irlandês Donohoe surpreende e bate espanhola Calviño

O Ministro das Finanças, João Leão. EPA/MANUEL DE ALMEIDA

Défice de 2020 vai ser revisto para 7%. Agrava previsão em 0,7 pontos

Comissário Europeu Valdis Dombrovskis. Foto: STEPHANIE LECOCQ / POOL / AFP)

Bruxelas acredita que apoio a empresas saudáveis estará disponível já este ano

“Pessoas estão à espera de ver quais as companhias que cuidam das suas pessoas”