Há vida para lá da PUB

“Se este for o meu primeiro e último livro, já valeu a pena”

Diogo Alegria Pecurto
Diogo Alegria Pecurto

Copy durante o dia, escritor nas horas que restam, Diogo Alegria Pécurto é o vencedor do prémio de literatura infantil do Pingo Doce

Diogo Alegria Pécurto é copy na agência Velvet Design e Publicidade. É também o vencedor da última edição do prémio de literatura infantil do Pingo Doce, com Há Monstros no Túnel.

Por pouco o copy viu passar o prémio ao lado. Entregou um pouco o que foi a história da sua infância já o prazo estava prestes a terminar. “Sem esta iniciativa, é provável que a minha história nunca tivesse passado de uma memória que se perderia com o avançar dos anos”, diz em entrevista ao Dinheiro Vivo. É a sua primeira obra literária. O lançamento, já com ilustração, está previsto para novembro.

Diogo Alegria Pecurto, Premio Literatura Pingo DoceO que levou a escrever Há Monstros no Túnel?
Foi uma decisão totalmente impulsiva e com o prazo de entrega prestes a terminar. Talvez por ter uma profissão em que passo os dias a escrever, embora com fins muito diferentes de qualquer produção literária, não me é natural continuar a fazê-lo depois do trabalho e este tipo de iniciativas escapam-me quase sempre. Felizmente não escapam à minha namorada e após muita insistência da parte dela, decidi contrariar a preguiça pós-laboral e participar. Perdi algumas noites de sono, fui editando na pausa para almoço no trabalho e no pouco tempo livre, mas valeu o sacrifício.
A história é uma ideia muito simples, relata o que eu “via” diariamente no caminho para a creche (Dr. José Domingos Barreiro) com a minha mãe, que ainda hoje é educadora de infância no mesmo local. Vivíamos longe de Lisboa e este trajeto e as personagens que o habitavam foram uma constante nos meus dias durante anos. Eram tempos mais simples, não existiam os estímulos ininterruptos que existem hoje, portanto ou era a imaginação ou era “nada”. Lembro-me de perceber desde cedo que podia interpretar o que me rodeava à minha maneira, sem consequências, pois mais ninguém sabia o que estava a pensar e era, de certa forma, o meu segredo – a habilidade de transformar o que nos rodeia. É desse processo que fala a história, de um trajeto diário pela minha cidade e das pessoas que o enriqueciam à sua maneira. Tudo através dos olhos de uma criança de 5 anos e do filtro da imaginação.

É copy numa agência de publicidade. De que modo a sua atividade principal se toca com a de escritor?
Julgo que não há forma de dissociar as várias vertentes que influenciam e compõem alguém que “escreve”, acho que há muito a ganhar no esbater destas linhas e em ir buscar algo às diversas áreas de intervenção da escrita e incorporar isso no nosso método de trabalho. Acredito que o resultado final será mais rico por isso. Independentemente de ser ou não competente no que faço, sei que não seria copywriter se não fosse de certa forma escritor, e tentei sê-lo durante alguns anos antes de ser copywriter. Da mesma forma, nunca teria sido nenhuma destas coisas sem antes ter encontrado refúgio nos livros e ter passado muito tempo a devorar tudo o que encontrava.

Nesse sentido, sei que uma das mais-valias que consigo oferecer enquanto copywriter é a capacidade de emocionar – não tanto de persuadir – talvez por isso a publicidade convencional me diga pouco e não me tenha fixado em agências mais convencionais. Mas, se sei que tenho essa característica enquanto copywriter, também sei que a devo precisamente aos livros que tiveram esse efeito em mim e à desconstrução desse processo, que me faz entender a escrita enquanto algo que se constrói e onde a qualidade depende da experiência, da capacidade de visualizar uma estrutura antecipadamente e entender que as partes que formam o todo têm uma lógica, um ritmo, uma hierarquia, têm que procurar incorporar o leitor e gerar empatia. É um pouco como a carpintaria, um ofício humilde e nobre, profundamente solitário mas com um fim totalmente social. Porém, o oposto também é verdade. No início da minha atividade de copywriter, sentia que se não escrevesse sempre 2 km de texto, não estava a dizer tudo o que precisava, e chegar a essa conclusão implica errar e aprender com isso, o que não é particularmente fácil. Hoje sei que uma das competências mais importantes de um copywriter, e suponho que também de um escritor, é a de se autoeditar sem piedade, reduzir tudo ao essencial.

Sem esta iniciativa, é provável que a minha história nunca tivesse passado de uma memória que se perderia com o avançar dos anos”

Desenvolver trabalho na área da literatura infantil é um objetivo?
Eu sinto com muita clareza que não poderia ter escrito outra história. A base do que escrevi estava em mim há muitos anos. Julgo que se tivesse tentado ter “ideias” para algo sobre o qual escrever em tão pouco tempo, não teria conseguido um relato fluido ou que passasse para o papel de forma tão espontânea como sinto que passou desta vez. Porém, desde que soube que tinha vencido o Prémio, tenho reunido algumas ideias que gostaria de desenvolver e é sem dúvida algo que gostaria de fazer enquanto profissão. Por outro lado, tenho algumas noções sobre a realidade literária em Portugal e sei que é muito difícil publicar de forma viável e de modo a gerar retorno financeiro para todas as partes envolvidas.
Gostaria muito de ter a oportunidade de voltar a publicar e estou inteiramente aberto a propostas para tal. Gostaria imenso de poder dizer que sou “escritor” a tempo inteiro ou algo que se aproxime desse conceito, mas também sei que é muito complicado e que há pessoas com muito mais talento do que eu que nunca tiveram oportunidade de publicar. Se este for o meu primeiro e último livro, já valeu a pena. É absolutamente surreal pensar que vai ser lido por alguém.

O que representou para si esta vitória no prémio do Pingo Doce?
Sinceramente, ainda hoje não tenho bem noção do que realmente se passou. Lembro-me de pensar que levaria algumas semanas a assimilar o sucedido, lembro-me também de entrar um pouco em piloto automático com a logística da apresentação na Feira do Livro, pois ser o centro das atenções não é uma posição natural para mim. Após o nervosismo desse momento, entrei em descompressão e o quotidiano encarregou-se do resto. Hoje em dia mal consigo acreditar que ganhei o Prémio. Mas pensar que em novembro terei um objeto palpável, escrito por mim e que outras pessoas vão ler, é algo que ainda não consigo conceber e que espero me faça sentir algo que até hoje não senti.
É isso que representa – a noção de que vale a pena trabalhar e arriscar ainda que pareça impossível, por vezes a sorte sorri-nos. Porque muito para além da diferença incalculável que um prémio monetário desta dimensão pode fazer na vida de alguém, sem esta iniciativa, é provável que a minha história nunca tivesse passado de uma memória que se perderia com o avançar dos anos. Imagino que o mesmo seja verdade para os outros participantes, a quem quero deixar uma palavra, pois certamente que também mereciam estar no meu lugar.

Tudo isto dá-me uma incrível satisfação e nunca terei palavras suficientes para agradecer ao Pingo Doce, à Alêtheia e aos membros do júri em particular que viram qualquer coisa de diferente na minha história.

 

Tenho uma vontade imensa de saber o que viram e sentiram as ilustradoras e ilustradores quando leram a história, de que forma lhes estimulou a imaginação”

 

Aind vai ser escolhido o ilustrador que vai dar vida em imagens à sua história. Como é que imagina a sua história?

É complexo imaginar pois eu vejo as caras, os objetos e os locais como via quando tinha 3, 4, 5 anos e as coisas sobre as quais escrevi se passavam diariamente à minha frente e na minha cabeça. Como é evidente, o tempo encarregou-se de acrescentar um ou dois pontos e chegar algo mais para a esquerda ou para a direita, mas são as primeiras memórias tangíveis que tenho e às quais consigo aceder e, fruto do processo de escrita, naturalmente ficaram ainda mais nítidas.
Tenho uma vontade imensa de saber o que viram e sentiram as ilustradoras e ilustradores quando leram a história, de que forma lhes estimulou a imaginação e o que vai surgir desse processo.
Sei perfeitamente que a partir do momento em que algo é publicado, “deixa de ser” do autor, de certa forma, mas acredito que é nisso que reside a sua maior riqueza, na partilha e na interpretação dos outros. Tal como acontece com as coisas deste género de que mais gostamos (livros, música, cinema, etc.), acredito que as histórias são tão mais ricas e capazes de plantar raízes profundas em nós, quanto mais relacionáveis forem.

Nesse sentido, e sabendo eu que não consigo traçar uma linha direita nem tenho qualquer talento para isso, posso apenas esperar que a história tenha despertado a curiosidade e a criatividade dos ilustradores, que sintam que é algo a que vale a pena dar forma e eu acabe por ver coisas surpreendentes, que nunca poderia ter imaginado.

Comentários
Outras Notícias que lhe podem interessar
Hoje

Página Inicial

Ministro da Economia, Manuel Caldeira Cabral, com responsáveis da VW na apresentação do T-Roc. Fotografia: DR

Caldeira Cabral confiante em acordo com trabalhadores da Autoeuropa

Fátima Barros, presidente da Anacom
Fotografia: Álvaro Isidoro / Global Imagens

Operadores dificultam rescisões de contratos e Anacom divulga alternativas

Outros conteúdos GMG
Conteúdo Patrocinado
“Se este for o meu primeiro e último livro, já valeu a pena”