João Calado: Evolução do petróleo "vai depender da OPEP", EUA e China

As questões geopolíticas entre a Rússia e a Ucrânia poderão marcar 2022. Recondução de Powell no banco central dos EUA é sinal de continuidade.

Ana Laranjeiro
João Calado é analista do BiG © Direitos reservados

João Calado, analista do BiG - Banco de Investimento Global, admite que a evolução da cotação do petróleo nos mercados internacionais vai estar dependente da OPEP e da ação das duas maiores economias.

Que efeitos podemos esperar nos mercados das cadeias de abastecimento?
Houve as quarentenas que espoletaram a queda da procura pelos consumidores e também o congelamento da atividade dos portos e viagens de avião. Quando tivemos as vacinas, houve um aumento da procura e estas cadeias de fornecimento globais estavam desorganizadas; a procura aumentou e não conseguiram aumentar a oferta. Houve outro efeito: apesar das viagens de transporte marítimo terem ficado operacionais à medida que as quarentenas acabaram, as viagens de avião não. Passou a haver um aumento do recurso ao transporte marítimo para os principais bens e isso refletiu-se nos preços por contentor. Um índice de um contentor que vem da Ásia para a Europa passou de dois mil dólares, antes da pandemia, para cerca de dez mil dólares, entre julho e setembro.

Vai manter-se?
A questão para as cadeias de fornecimento, segundo as empresas de logística, é que, enquanto não tivermos uma desaceleração da procura, não vai haver tempo para uma reorganização e o problema pode prolongar-se até meados de 2022.

Que efeitos pode ter nos mercados?
O principal impacto é nas empresas que precisam de importar produtos. O primeiro impacto é a subida dos preços. Os custos de transporte aumentaram, logo os custos sobem e depois é uma questão de decidirem se passam esse aumento para os consumidores ou se absorvem. Outro problema é o atraso das encomendas.
O aumento dos custos pode ter efeitos nas ações?
Exatamente. Vimos isso nos resultados do terceiro trimestre com várias empresas, principalmente retalhistas, a avisarem que esperam que as margens diminuam nos próximos trimestres porque vão tentar absorver os custos. Outras avisaram que não iriam conseguir alcançar os objetivos.

Nas matérias-primas o que se pode esperar?
O caso do petróleo é também efeito da pandemia; houve um período em que não havia deslocações e a procura caiu. Isso levou a que a OPEP cortasse a produção. E a produção nos EUA também caiu porque muitos dos produtores de petróleo de xisto foram à falência porque os preços estavam deprimidos. O que está a acontecer é que a procura já recuperou, estando perto de níveis pré-pandémicos, mas a oferta está muito abaixo. A OPEP optou por fazer aumentos graduais. O presidente Biden, em conjugação com a China, optou por libertar alguns inventários de emergência, de modo a tentar chegar a este equilíbrio entre oferta e procura. Este é um tema que vai continuar no próximo ano e vai depender da ação da OPEP, da facilidade, ou não, que os produtores americanos têm de aumentar a produção e da ação de Joe Biden e Xi Jinping relativamente aos inventários que têm.

E o gás natural?
O que tivemos na Europa foi um conjunto de fatores que levaram a uma subida do gás natural. O primeiro tem a ver com os inventários, que no início do ano estavam bastante baixos porque o inverno foi rigoroso. Depois, a China optou por aumentar a produção de eletricidade através de gás natural versus o uso do carvão, porque está a tentar limitar a poluição. A China importou mais gás natural, o que acabou por aumentar o preço. Na Europa, em meados do ano, a produção de eletricidade através de energias renováveis estava abaixo da média e foi necessário produzir eletricidade através de outras fontes. Isto aumentou a procura de gás natural na Europa, que depende muito da importação, sendo que uma parte significativa vem da Rússia. A Rússia, segundo relatos da imprensa internacional, está focada em aprovar o projeto de um pipeline, o Nord Stream 2, que liga a Rússia à Alemanha. E isso, diz-se, motivou a Rússia a limitar o volume de gás que envia para a Europa. O principal problema da Europa e dos EUA em relação a este novo gasoduto é que vai diretamente da Rússia para a Alemanha, não passando pela Ucrânia, e assim dando armas à Rússia para limitar o fornecimento de gás à Ucrânia. Essa vai ser uma das grandes preocupações para o próximo ano: a questão geopolítica entre a Rússia, Ucrânia e depois Europa e EUA.

Jerome Powell foi reconduzido à frente da Reserva Federal dos EUA (FED). O que é que se pode esperar?
A inflação adveio destes fatores, como as perturbações nas cadeias e subida das matérias-primas. Mas também por um aumento da procura dos consumidores americanos. Os bancos centrais defenderam que

seria um efeito transitório e não se iria prolongar por mais do que um ano ou dois. E, por isso, não faria sentido estar a restringir a política monetária expansionista. Passados trimestres, a inflação manteve-se bastante alta e parece que os efeitos se foram mantendo. Os bancos centrais estão num impasse para decidir que tipo de política monetária devem adotar. Em relação à FED e à escolha de Jerome Powell, a decisão era entre Powell e Lael Brainard. Brainard não tinha uma posição muito diferente da de Powell, ou seja, era a favor de uma política mais expansionista. A questão da escolha de Powell é de continuidade e já houve a sinalização de que vai haver uma diminuição da compra de ativos por parte da Reserva Federal e, possivelmente, uma subida das taxas de juro.

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