Opinião

1 de Junho: Portugal vai começar a regressar gradualmente ao normal

Fotografia: Mário Cruz/EPA
Fotografia: Mário Cruz/EPA

O Governo deveria ser mais temerário e arriscar com uma data, que tivesse algum fundamento face aos dados disponíveis

Um dos impactos bastante negativos da actual pandemia reside no facto de as pessoas necessitarem de estar confinadas nas suas casas, mas sem fazerem a menor ideia por quanto tempo.

Uma tal incerteza agrava as condições para o “stress” e para os problemas psicológicos, pessoais e familiares, ainda mais num contexto em que muita gente já perdeu os seus empregos e/ou rendimentos ou tem receio de os vir a perder no pós crise. Por outro lado, este enquadramento de incerteza tolhe muitas das necessárias decisões empresariais.

É neste contexto que o Governo deveria ser mais temerário e arriscar com uma data, não inventada ou conveniente mas que tivesse algum fundamento face aos dados disponíveis e ao que se vai passando noutros países. Ainda mais quando assistimos a intervenções, avulsas e sem fio condutor, de responsáveis do Ministério da Saúde que parecem ir atirando a saída da crise algures lá mais para final do ano, o que faz aumentar a confusão que por aí grassa.

Na realidade julgo mesmo que essa data já existe, e tem estado na mente de muita gente, incluindo no Governo, constituído mesmo um dos alicerces para a elaboração por diferentes entidades, incluindo a Academia e o Banco de Portugal, de diversos cenários para a economia portuguesa.

Essa data parece ser 1 de Junho. Uma data em que se espera (e sabe) que diversos países europeus já estejam nessa desejada fase da retoma económica e social.

Julgo que o Governo deveria apresentar, com adequada flexibilidade e solenidade, esse cenário, objectivo e viável, de início da saída da crise e desafiar todos os portugueses para continuarem a fazer aquilo que deve ser feito para assim tornar possível que todos nós, em conjunto, possamos tornar realista a prossecução dum tal objectivo e vencer o coronavírus.

Algo claro, motivador e “palpável”.

Se desse esforço conjunto viessem a resultar as condições para se poder antecipar numa ou duas semanas essa retoma gradual da normalidade, tanto melhor.

Se não o conseguíssemos, certamente que haverá então boas justificações para adiar por mais algum tempo o objectivo temporal que havia sido fixado com a melhor das intenções. Sem riscos políticos de monta!

Julgo que a assumpção, ao mais alto nível, do compromisso proposto viria a dar esperança e ânimo redobrado, bem realista, aos portugueses mais desorientados com a situação que lhes caiu em cima e apontar, desde já, para uma “luz ao fundo do túnel”, mesmo que a mesma não possa ainda ser descortinada, de forma clara, na presente data.

 

António Duarte Pinho, economista e ex-conselheiro técnico na REPER/Representação Permanente de Portugal junto da União Europeia

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