Opinião

100 mil mortes no Brasil

(Foto cedida pelo autor)
(Foto cedida pelo autor)

O Brasil assiste à morte de 100 mil pessoas com o olhar de quem vê uma chuva forte adiar um compromisso. Simples assim.

Há determinados acontecimentos que de tão grandiosos não conseguem impactar a cabeça de pessoas medíocres. Elas não alcançam intelectualmente seu significado e isso faz com que o fato pareça não existir. Talvez isso explique a banalização da dor e do sofrimento alheios. Mas não é apenas necessário ser medíocre, é preciso mais, muito mais.

Quando uma situação foge do nosso entendimento, extrapola a realidade e está além do que aos olhos pareceria normal, é comum que a pessoa se feche numa bolha, aja normalmente e ignore a realidade como arma de autodefesa. Mas quando tudo ao seu redor comprova que a situação é real de maneira física, no caso mortes, é preciso ser um anormal para não se comportar de forma anormal. E é o que temos visto diante das mortes causadas pela pandemia no Brasil, muita gente se comportando como isso fosse o “novo normal”. Eles se transformaram em pessoas anormais e não perceberam.

Vamos tentar entender essa realidade que não é paralela. Para tornar mais palpável podemos pensar numa grande tragédia como o terrível e inesquecível ataque às Torres Gémeas. No colapso do World Trade Center morreram 2996 pessoas. Foi uma comoção internacional por tudo o que representou, mas, sobretudo, pelas vidas ali perdidas. O que a Covid-19 ceifou de vidas no Brasil equivale a 34 ataques às Torres Gémeas. Já ultrapassamos a marca das 100 mil mortes.

Num outro exemplo sinistro, imagine que jogaram bombas que dizimaram toda a população das cidades de Reguengos de Monsaraz, São Brás de Alportel, Murtosa, Vouzela, Montalegre, Oliveira de Frades, Moimenta da Beira, Sobral de Monte Agraço, Chamusca e Trancoso. Morreria a mesma quantidade de gente que morreu no Brasil. Ou ainda, que a bomba foi lançada sobre estas quatro freguesias muito conhecidas dos lisboetas: Carcavelos, Parede, Cascais e Estoril. Mate todos os seus moradores dessas localidades e terá o mesmo número de mortes que aconteceu no Brasil. Já agora responda se isso pode ser tratado como normal? Só um anormal acharia isso normal.

Imagine que o Presidente da República de um país que atingiu 100 mil mortes não moveu uma palha no sentido de minimizar o drama da população. Foi incapaz de liderar uma política nacional que transmitisse tranquilidade e, mais do que isso, uma orientação centralizada que, ao mesmo tempo, fosse delineada para cada região devido suas peculiaridades. Isso é o que fez o presidente Jair Bolsonaro. Ele apenas zombou da pandemia. O Brasil é um país de dimensões continentais com 210 milhões de habitantes – a maioria é pobre.

Não é possível que uma pessoa se comporte de forma normal diante desse descalabro. Mas o Presidente do Brasil faz crescer a banalização da morte. Ele chegou a afirmar que a Covid-19 seria “uma gripezinha” e que se ele a pegasse, por seu histórico de atleta (que não sabemos qual é), nem sentiria. Ele é o ser anormal que age como se tudo fosse normal. Bolsonaro faz com que seus eleitores se acostumem com isso, ele é o teórico líder da nação. Ocupa o cargo executivo mais alto do país e relativiza o avanço dos números de infetados como se tratasse de uma epidemia de piolhos. A população ignara reagiu de início com susto, depois medo, de seguida o relaxamento e, por fim, o costume. Hoje morreram três mil! Que coisa. E o jogo do Corinthians?

Estima-se que na Guerra do Golfo 50 mil iraquianos perderam a vida, o que representa metade das mortes ocorridas no Brasil. Era uma guerra! Não é normal que em 23 semanas morram 100 mil pessoas no país por conta da pandemia. Por isso o principal telejornal brasileiro, o Jornal Nacional (JN), da Rede Globo – conhecida em Portugal por suas telenovelas retransmitidas pela Sic – fez duras críticas ao presidente Jair Bolsonaro no sábado, 08/8, quando o país atingiu a marca das 100 mil mortes. O telejornal citou a Constituição e cobrou que Bolsonaro seja responsabilizado.

O JN afirmou que “enquanto as autoridades mundiais defendiam o isolamento social como única medida para conter o avanço acelerado dessa tragédia, os brasileiros viam o presidente criticar essa iniciativa diariamente, na contramão do bom senso. O resultado disso foram a confusão e a perplexidade de muitos cidadãos que ficaram sem saber em que acreditar”. Que a falta de isolamento social deixou de achatar a curva de crescimento da doença e sobrecarregou o sistema de saúde. E que diante disso tudo era importante “relembrar a Constituição porque isso nos levanta uma pergunta importantíssima. Já mostramos o artigo 196 que diz ser dever das autoridades que governam o país implementar políticas que visem a reduzir o risco de doenças. E a pergunta que se impõe é: O Presidente da República cumpriu esse dever? Mais cedo ou mais tarde o Brasil vai precisar de respostas.”

Bolsonaro minimizou a pandemia e atuou contra as medidas e orientações das autoridades de saúde até de seu governo. Como aquelas determinadas pelo então ministro da saúde Luiz Henrique Mandetta, um médico e ex-deputado federal que estava empenhado nas estratégias de enfrentamento da pandemia. Mandetta bateu de frente com Bolsonaro e foi demitido em 16 de abril por não aceitar a postura do presidente que ignorava o uso de máscaras, discordava do isolamento social e fazia passeios aleatórios por padarias de Brasília a gerar aglomerações de seus seguidores – aqueles seres medíocres citados no início do texto. Todos eles, sem exceção. Cegos.

O governo Bolsonaro comprou dois milhões de doses de cloroquina e pagou 500% a mais na compra de insumos para a sua produção. Um medicamento que a comunidade científica internacional descartou, mas o presidente insiste no uso e faz campanha como se indicasse vitamina C no combate à gripe. Talvez seja motivado por um desses dois motivos: 1. ele é médico; 2. ele tem um amigo dono de um laboratório que produz cloroquina. Uma coisa podemos afirmar de certeza: Bolsonaro não é médico.

Ele zomba da dor alheia. Há alguns meses, quando os números se agravavam, ele disse a um repórter que citou o número de mortes atingido naquele dia: “E daí? Não sou coveiro”, como se fosse normal. Para parecer normal já disse mais de uma vez que todos vamos morrer um dia. Enquanto isso 100 mil pessoas morreram. No mínimo 300 mil pessoas estão de luto. Histórias foram interrompidas. Histórias de pais, mães, avôs e avós. E agora até crianças. Na grande maioria, pobres.

Uma doença que desembarcou no Brasil trazida por gente rica e de classe média, que tem acesso aos melhores médicos e hospitais, e ainda assim muitos morreram, e se alastrou nas camadas sociais mais pobres. E são esses os que mais sofrem e fazem crescer a curva de casos exatamente porque o Presidente da República se esforça em jogar uma cortina de fumaça na tragédia estimulando a todos que sigam sua conduta irresponsável e bandida.

Pode ser uma estratégia de Jair Bolsonaro para desviar a atenção de uma dessas duas opções: 1. Uma missão espacial brasileira achou água em Marte e já está a construir um aqueduto ou 2. Os escândalos de corrupção estão batendo à sua porta com a descoberta de 21 cheques que foram depositados na conta de sua mulher, Michele Bolsonaro, por Fabrício Queiroz, preso investigado por crimes de corrupção.

O Brasil é uma tragédia condenada ao obscurantismo dessa massa ignara e sórdida. Bolsonaro não protagonizou um único evento que leve seu nome aos livros de história. Sua política trabalhista acabou com os direitos dos trabalhadores, seu governo está destruindo nossas florestas, os índios são tratados como animais de corte – vão desaparecer em breve. Desde o início de sua gestão ele só fez barulho nos media para desviar o olhar do que estava por vir. O envolvimento de sua família com a milícia do Rio de Janeiro e o envolvimento de seu filho com desvio de verbas do gabinete da câmara dos deputados.

Para aqueles que não alcançam intelectualmente a gravidade de tudo isso, tudo é normal. São pessoas que justificaram seu voto no candidato como um ato anticorrupção. Eles são os anormais e foram abduzidos por campanhas sórdidas via redes sociais feitas a base de fake news. Caíram no golpe. Transformaram-se em zumbis alheios à dor do próximo. Só acordam quando morre um pai, um filho, uma mãe. Se tudo continuar assim, não haverá família no Brasil sem uma perda para a Covid, com aval do Presidente da República.

Que Deus ilumine as almas dos que partiram precocemente. Deus ilumine os caminhos do Brasil. Quem trata com normalidade a morte de 100 mil pessoas, não está em seu estado normal.

Jornalista e designer brasileiro

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