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Opinião. Medo dos juros

Mario Draghi, presidente do BCE
Mario Draghi, presidente do BCE

Os números não apontam para uma crise. Não há que ter tanto medo do BCE.

No debate sobre dívida pública dos últimos tempos há um consenso de que teríamos uma crise à porta se o BCE subisse as taxas de juro e reduzisse as compras da nossa dívida. Embora exista alguma verdade nestas afirmações, os números não apontam para uma crise. Não há que ter tanto medo do BCE.

Como é assim se a dívida ronda os 127% do PIB? Como não ter medo se gastamos atualmente mais de 7,5 mil milhões de euros por ano em juros quando a taxa média ronda os 3%? Se o BCE subir a sua taxa de juro principal dos atuais 0% para uns mais normais 3% e deixar de comprar a nossa dívida, parece razoável inferir que a taxa a que conseguiríamos pedir emprestado aumentasse dos atuais 2% para entre 5 e 7%. De onde viriam os milhares de milhões a mais no Orçamento do Estado para pagar juros?

A resposta está na composição da dívida. Para começar, um quarto da dívida tem como credor a UE e o FMI. Nenhuma desta dívida tem de ser paga nos próximos anos. Os pagamentos obrigatórios ao FMI ocorrem entre 2021 e 2023, enquanto os pagamentos à UE não começam antes de 2025. Para além disso, o IGCP tem tido bastante sucesso a aumentar a maturidade da dívida portuguesa. Por isso, em 2018 só temos de reembolsar um pouco mais de seis mil milhões e em 2019 só nove mil milhões. Por isso, mesmo que as taxas aumentassem 4% em média nos próximos dois anos, o custo acrescido em juros nesses dois anos seria só aproximadamente 600 milhões de euros. Não são amendoins, mas não chega para desencadear uma crise. Tendo em conta que os mercados financeiros esperam antes que as taxas de juro aumentem apenas cerca de 0,4% nos próximos dois anos, são cerca de 60 milhões a mais de juros, o que é perfeitamente gerível.

Não quer isto dizer que o aumento nas taxas de juro não seja custoso para uma economia tão endividada como a nossa. Só que estes custos seriam distribuídos temporalmente, levando a uma austeridade forçada mas espalhada por uma década. Tal como a estagnação económica portuguesa começou no ano 2000 mas só provocou uma sensação de crise de 2008 em diante, também acredito que a normalização das taxas de juro só seria vista como um enorme problema pela população daqui a uns anos.

Passos Coelho perdeu a liderança do PSD por ter apostado tudo numa crise económica depois das últimas eleições. Não tomou devidamente em conta que: as suas reformas estruturais começassem a dar dividendos; que a retoma da economia europeia puxasse a economia portuguesa para cima; que António Costa tivesse o enorme sucesso de manter a maioria parlamentar estável oferecendo o Ministério da Educação ao BE e distribuindo benesses pelos sindicatos do PCP, sem nisto gastar muito dinheiro. O crescimento pode ou não ser sustentável, mas no curto prazo não houve crise. O mesmo se aplica à dívida pública nos próximos dois anos. Os portugueses podem dormir descansados, mas ao mesmo tempo a pressão para fazer o que tem de ser feito diminui e a responsabilidade dos políticos tem de ser maior.

Professor de Economia na London School of Economics

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