Opinião

Opinião. Teimoso na visão e flexível nos detalhes

Filipa Neto e Lara Vidreiro, fundadoras da Chic by Choice.
Filipa Neto e Lara Vidreiro, fundadoras da Chic by Choice.

Neste último mês no ecossistema de startups nacional o tema do falhanço teve um grande destaque, em particular devido ao caso da Chic by Choice.

Este último mês no ecossistema de startups nacional o tema do falhanço teve um grande destaque, em particular devido ao caso da Chic-by-Choice.

O falhanço é um tema de difícil digestão para a nossa cultura judaico-cristã de culpa e contrição, em que a maioria de nós vive numa tentativa de sublimação idealizada e temos dificuldade de entender que o erro e o falhanço são parte integrante da nossa aprendizagem e crescimento e não algo que devemos expurgar a todo o custo.

Uma das coisas mais difíceis na vida é saber quando desistir ou quando continuar. Por vezes temos que ter uma confiança desmedida e apostar a fundo naquilo em que acreditamos e outras vezes temos que ser capazes de perceber que as coisas não funcionam e parar ou mudar de rumo.

Mas a verdade é que as pessoas de sucesso desistem várias vezes, e no mundo empreendedor, onde quase 90% das startups falham (em Portugal este número é menor), os projetos de maior sucesso são na maioria das vezes liderados por empreendedores que estão a (re)começar pela segunda ou terceira vez.

Existem várias formas de falhar, podemos falhar nas nossas táticas (como fazemos), nas nossas estratégias (o que fazemos) ou na nossa visão (porque fazemos).

A falha tática é a mais comum, todos nós temos falhas na execução, falhamos nos detalhes, temos falta de produtividade, temos dificuldade de definir processos claros e corretos, temos dificuldade em medir bem os resultados e em avaliar rapidamente para podermos ajustar a nossa tática de execução. A maioria de nós passa o tempo a apagar fogos, porque não temos uma tática correta. Um excelente exemplo de uma boa execução tática é o caso do McDonalds, que executa de forma exemplar em milhares de restaurantes em todo o mundo.

No entanto, por vezes mesmo executando de forma perfeita, não conseguimos atingir o que queremos com a estratégia que temos. O caso da Amazon é um excelente exemplo. Até conseguir que o Amazon Marketplaces fosse um sucesso, a Amazon teve várias tentativas de marketplaces com o Amazon Auctions e o Amazon zShops. A Amazon perdeu milhares de milhões em estratégias falhadas para conseguir montar um Marketplace de artigos usados. Hoje em dia o Amazon Marketplaces representa quase 50% do volume de negócios da Amazon.com.

A melhor forma de corrigir falhas de estratégia é seguir o modelo típico de startups: lançar rápido, gastar pouco com o máximo de qualidade e iterar rapidamente. Se até a Amazon que é uma das maiores empresas do mundo, com algumas das pessoas mais qualificadas, falha, porque razão não haveremos nós de falhar?

Com a aceleração da velocidade da tecnologia, com a disrupção da inteligência artificial e com a aproximação da singularidade, é cada vez mais importante termos a capacidade de antecipar estratégias diferentes e olhar para a nossa visão de forma distinta.

Na minha opinião, a maior falha é quando não temos uma visão clara do que queremos ou não percebemos porque fazemos aquilo que fazemos. Principalmente quando falamos de ter uma visão clara para as nossas vidas e empresas. Ter medo de mudar, ter medo de arriscar para perseguirmos aquilo que verdadeiramente queremos e acreditamos, esses sim são os erros que devemos evitar.

É preciso dedicar tempo a pensarmos naquilo que pretendemos verdadeiramente, é preciso sabermos aquilo que não queremos mesmo e é preciso sermos autocríticos e auto-conscientes para irmos sempre melhorando o que fazemos.

Como dizia Jeff Bezos “Nós somos teimosos na visão, mas flexíveis nos detalhes”. Muitas vezes sinto que em Portugal somos mais ao contrário, infelizmente.

Cofundador e CEO da Beta-i

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