Opinião

Apostar (tudo) na economia (IX)

Pedro Reis,  Head da Banca Institucional do Millennium BCP e ex-presidente da Aicep.
(Reinado Rodrigues/Global imagens)
Pedro Reis, Head da Banca Institucional do Millennium BCP e ex-presidente da Aicep. (Reinado Rodrigues/Global imagens)

Pedro Reis escreve sobre as necessidades de investimento para dar gás à economia no pós-pandemia.

Com este nono e último texto desta série de artigos redigidos a convite do Dinheiro Vivo, que ficam como meu singelo “contributo cívico” nesta hora mais complexa que todos atravessamos, encerro este conjunto de reflexões onde procurei identificar algumas tendências que me parecem que tendem a ganhar tração nos próximos anos (não somente no rescaldo da atual crise sanitária mas certamente por ela aceleradas) e que é importante termos presentes se quisermos ser capazes de reinventar a economia na busca de um novo começo e não de um mero recomeço (no fundo lutarmos por construirmos um mundo “melhor” e não apenas contentarmo-nos por vivermos com um mundo que é “mais do mesmo”).

Entre os vetores que despontam com acrescido vigor temos a autonomização estratégica dos grandes blocos regionais (conciliando globalização com consolidação), a previsível reconversão do tecido empresarial de cada país, nomeadamente via a sua reindustrialização aditivada pela sua digitalização e descarbonização, entre outros fatores sendo que todos eles vão obrigar-nos a confrontar eficiência com eficácia e complementaridade/especialização com independência/diversificação.

Procurei também apontar brevemente por onde me parece que vão passar algumas das políticas e as medidas públicas que estão na forja para protegerem e blindarem a economia: de medidas mais avulso de apoio de emergência à tesouraria a pacotes mais estruturados de aposta na capitalização das empresas; do estímulo ao recurso ao capital de risco à revisitação das vantagens do mercado de capitais ou, ainda, de instrumentos de política fiscal para captar investimento a mecanismos de política económica para valorizar a oferta.

Aflorei ainda o que acredito que será o traçado de algumas avenidas interessantes para se desbravar o futuro: da agenda verde ao chamado “impact investment”, de caminho cuidando do combate sem tréguas aos custos de contexto (justiça mais célere, burocracia menos tóxica e fiscalidade mais competitiva entre outros) e tratando da definição de uma grelha clara e objetiva de critérios para majorar os apoios e incentivos públicos através da aplicação de parâmetros para medir o contributo de cada projeto em concreto para o aumento da produtividade e da competitividade da economia.

Defendi de igual modo o benefício de ganharmos escala nas nossas empresas: nomeadamente porque tal traz às organizações acesso a melhor talento, a melhor capital e a mais adequado financiamento, a melhores parcerias e a maior poder negocial com tudo o que isso implica em termos de captação de valor e de margem de manobra estratégica. Escala é geralmente mãe de eficiência e filha da produtividade na família da competitividade.

Tentei por fim resumir o que me parece ser o “roadmap” dos casos de sucesso na exportação e na internacionalização das empresas portuguesas: quer ao nível micro do foco estratégico e da aposta determinada na inovação e na qualidade que permite às exportadoras apresentarem uma proposta de valor diferenciada nos mercados externos, quer ao nível macro onde a diplomacia económica é um vértice nuclear e incontornável do posicionamento proativo de uma economia no palco mundial.

Há tempos reli o livro “Voltar a crescer”, que publiquei em 2011 baseado no valioso contributo de 55 gestores e empresários, para revisitar os desafios que se colocavam há economia portuguesa há quase uma década: tal como referi num destes artigos, constatei como muita gente e mais uma vez que de facto o nosso grande desafio é de implementação. Não é tanto de conceptualização mas mais de execução. De certa maneira, falta fazer “acontecer Portugal” depois de se “pensar Portugal”: é hora de se projetar a nossa economia no seu máximo potencial.

Nesse sentido, deixo uma última palavra quanto à matriz setorial da nossa economia aflorando, tal como acontece sempre neste exercício que todos fazemos em momentos transformacionais e de bifurcação estratégica como o que o mundo atualmente atravessa, de forma a repensar o seu modelo económico, a acelerar o seu crescimento e a procurar atingir um patamar que nos escapa há décadas em muitas partes do planeta incluindo em Portugal.

Antes de mais, permitam-me fazer um modesto “ponto de ordem”: eu sou daqueles que acredita que (i) não cabe ao Estado definir os setores estratégicos, cabe lhe sim criar condições para que os mesmos vinguem e (ii) há que ter cuidado com as “modas” passageiras que tantas vezes colidem com a realidade, ou são por ela descartadas, ao condenarem prematuramente setores inteiros por má leitura e falta de confiança na dinâmica dos empreendedores e na resiliência dos empresário (sabendo nós que há muitos setores que se reinventam e reemergem ainda mais fortes das vicissitudes porque passaram e dos desafios que ultrapassaram).

Acrescentaria ainda que (iii) mais importante que “grandes” apostas setoriais (muitas vezes bipolares no sentido em que tão rápido se transformam na nova “coqueluche” em voga na economia como inexplicavelmente passam a “patinhos feios” sem motivo aparente ou causa profunda que o justifique) são as apostas colocadas de forma continuada nas boas empresas e nos bons projetos na medida exata em que em todos os setores existem exemplos muito válidos e casos de sucesso espantosos que devem servir como referência a acompanhar, a alimentar e a replicar sem estigmas setoriais preconcebidos.

Dito isto, diria que a economia portuguesa tem um saudável padrão de diversificação (aliás, tal conta com um naipe bastante variado de mercados destino das suas exportações) o que lhe permite imunizar-se contra ciclos mais cavados: felizmente temos cada vez mais setores competitivos e com dimensão; há muito que contamos com setores tradicionais reinventados além de assistirmos a despontar novos setores que se afirmam pela diferença.

Com esta morfologia podemos beneficiar de inúmeros setores onde soubemos gerar e criar empresas de dimensão já considerável e que são referencias nos respetivos mercados e segmentos, ajudando a desbravar caminho para os seus parceiros nos respetivos ecossistemas; entre outros, são os casos de liderança, mesmo no mercado mundial onde atuam, empresas com base portuguesa a atuarem no setor automóvel e aeronáutico, no setor metalomecânico e de moldes, no turismo e hospitality, na energia e engenharia, no retalho e setor financeiro e segurador e ainda na fileira da floresta e a indústria química.

Contamos também com empresas campeãs nos tais setores (ditos) tradicionais que souberam reinventar-se com uma espantosa capacidade de renovação e de reconversão: entre outros, temos neste perímetro exemplos fabulosos como o setor agrícola em geral (e do vinho, do azeite, dos cereais e das frutas e legumes em particular), do calçado e do têxtil e vestuário, e do mobiliário e da cerâmica. Estes setores conseguiram dar saltos quânticos na qualidade da sua gestão e na diversidade da sua oferta e, como prémio e como reconhecimento muito justos, viram ser-lhes abertas as portas dos mais exigentes mercados externos.

Por fim temos toda uma “nova economia” que se afirma crescentemente na crista da onda da sofisticação tecnológica e da inovação disruptiva: entre outros, contam se neste grupo os setores agroindustrial e da agricultura biológica, a indústria farmacêutica e a fileira da biotecnologia, os centros de serviços partilhados da mais variada espécie e ainda uma miríade de casos notáveis de empresas da mais variada dimensão que se dedicam à investigação, à engenharia, ao design, à programação e ao desenvolvimento de tantas tecnologia de ponta nos mais variados âmbitos.

Uma palavra final e especial para o que é, a meu ver e há tantos anos (demasiados!), o maior “desperdício” estratégico do nosso País: ainda está por verdadeiramente “acontecer” ( no sentido de estar por “explodir” num big bang de densificação económica) a nossa afirmação definitiva como uma potência do Mar: no dia que conquistarmos esta fronteira e nos afirmarmos nesta frente azul, voltaremos a ser grandes.

Todos estes setores e outros mais, ajudaram a transfigurar para muito melhor a imagem de Portugal no mundo. Todas estas empresas ajudaram a levar o País pela mão para nos tirar das crises e para nos alçar a novos patamares de afirmação económica global.

Desta vez, e nesta crise forte em que estamos apenas a entrar, não será certamente exceção: até porque a história destes setores e destas empresas é um pouco como a história de Portugal: longa e dura, obrigando-nos e obrigando-as a conquistar território nacional e internacional palmo a palmo, sempre com base numa admirável capacidade de afirmação e numa extraordinária força de vontade.

Tudo fruto do valor excecional da sua notável Gente: da nossa Gente !

Leia aqui outros artigos do mesmo autor

Proteger a economia (I)

Reinventar a economia (II)

Blindar a economia (III)

Relançar a economia (IV)

Investir na economia (V)

Escalar a economia (VI)

Capitalizar a economia (VII)

Internacionalizar a Economia (VIII)

Comentários
Outras Notícias que lhe podem interessar
Outros conteúdos GMG
Hoje
Foto: EPA/PATRICK SEEGER

Bruxelas dá luz verde a Banco Português de Fomento

Exemplo de ouro numa loja de câmbio em Klaaswaal, Países Baixos. (EPA/ROBIN VAN LONKHUIJSEN)

Ouro atinge recorde e excede os 2 mil dólares

Centenas de turistas visitam todos os dias os jardins do Palácio de Cristal, no Porto. Fotografia: Leonel de Castro/Global Imagens

FMI: Portugal com perdas acima de 2% do PIB devido à quebra no turismo

Apostar (tudo) na economia (IX)