2021, um ano de recordes nos mercados europeus de eletricidade

2021 foi um ano de recordes nos mercados europeus de eletricidade. A procura disparou - depois de ter sido registada uma quebra em 2020, fruto da pandemia - e os preços acompanharam esta tendência crescente.

Foram atingidos máximos históricos do preço da eletricidade como consequência, direta e exclusiva, da subida, também histórica, do preço das emissões de CO2 e do gás natural, o que fez catapultar o preço do megawatt-hora (MWh) nos mercados europeus. O impacto do aumento do gás natural é responsável por 3/4 do aumento do preço da eletricidade, enquanto o aumento do preço das licenças de emissão de CO2 é responsável por apenas 1/4.

A incorporação renovável, que registou igualmente um crescimento muito significativo, não foi ainda suficiente para dar resposta à procura - o que explica que tenhamos recorrido ainda a combustíveis fósseis para colmatar as necessidades de consumo, pagando mais do que se tivéssemos apenas eletricidade a partir de fontes renováveis.

É preciso ir mais além na incorporação de renováveis, mas, ainda assim, é preciso dar nota de que, em 2021, a produção solar aumentou em comparação com 2020 na maioria dos mercados europeus. Portugal, com 38% de aumento, está entre os países que mais cresceram. Espanha ficou nos 28%. Mais modesto foi o aumento da produção em França, com 10%, e na Alemanha, com apenas 1,7%, que, apesar deste ligeiro crescimento, continua a ser o mercado com a maior produção solar. A exceção foi o mercado italiano, onde a produção com essa tecnologia caiu 1,1%.

Na produção de eletricidade a partir de energia eólica, em 2021, Portugal também se destacou com um aumento de 5,4%. A produção aumentou ainda em Espanha e Itália, com 11% e 10%, respetivamente, mas reduziu-se no mercado alemão e francês. Esta análise, feita pela consultora AleaSoft, permite-nos perceber o caminho que há ainda a fazer rumo à neutralidade carbónica e a uma matriz de preços mais baixos.

É fácil perceber porquê: em 2021 Portugal registou um preço médio horário no Mercado Ibérico de Eletricidade (MIBEL) de 111,47 €/MWh. No entanto, em 2021, foram registadas 1.108 horas não consecutivas em que a geração renovável foi suficiente para suprir o consumo de eletricidade de Portugal Continental. Nessas horas o preço horário médio no MIBEL reduziu-se para 44,75 €/MWh quando o valor nos mercados europeus era muito superior chegando em alguns países aos 124,7 €/MWh, como no caso italiano.

No último mês de 2021 o preço máximo horário mais elevado foi registado em França, Alemanha, Áustria, Bélgica, Dinamarca, países que atingiram os 620,00 €/MWh. Em Portugal e Espanha esse valor ficou nos 409 €/MWh, como se verifica no Boletim Eletricidade Renovável da APREN, referente a dezembro de 2021.

Estes números provam que, quanto maior é a incorporação renovável, mais baixos podem ser os preços. À medida que as renováveis crescem, deixaremos de ter necessidade de recorrer aos combustíveis fósseis, que ainda ditam, ao final do dia, os altos valores pagos no mercado grossista pela eletricidade.

Uma nota sobre o caso francês: curioso é observar que durante o mês de dezembro de 2021 Portugal registou um preço médio horário no MIBEL de 239,27 €/MWh. Trata-se de um valor mais baixo do que os 274,67 €/MWh registados em França, país que tem energia nuclear no seu mix energético.

Também por isto, mas só não, será um erro considerar a energia nuclear como um investimento sustentável no processo de transição energética. Essa opção poderia levar a catástrofes ambientais devastadoras, caso se registasse um acidente grave num reator, mas geraria também grandes quantidades de resíduos perigosos altamente radioativos.

Para mais, está visto que nem sequer contribui para a redução dos preços, como se pode observar através do comportamento do preço da eletricidade nuclear no mercado francês. Para além do preço, o custo de produção de eletricidade a partir de fonte nuclear é quatro vezes superior ao do eólico e seis vezes superior ao solar fotovoltaico (informação constante do Lazard"s Levelized of Energy Analysis Version 15.0).

As renováveis são o caminho verdadeiramente sustentável na dimensão ambiental, social, económica e financeira.

Pedro Amaral Jorge, CEO da APREN

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