310 mortos por dia, ou… apenas 11

A decisão de como gerir a epidemia é nossa; e os representantes políticos devem tomar a decisão que nós gostaríamos de tomar.

A covid (novamente) deixou de ser modelável. Os melhores modelos de evolução da pandemia, reportados pela agência europeia ECDC (European Centre of Disease Control), afirmam que, para Portugal, nas próximas quatro semanas, podemos ter 310 mortos por dia, ou... apenas 11. Como tomar decisões em frente de tamanha incerteza?

Esta enorme amplitude só quer dizer uma coisa: Ninguém sabe como é que a "coisa" vai evoluir. O que estes modelos mostram, em termos estatísticos, é que nas próximas semanas podemos ter qualquer resultado. Neste momento não há modelos em quem se possa delegar as decisões de gestão da pandemia.

E em abono da verdade, foi sempre assim, ou devia ter sido sempre assim. Os modelos, a ciência, devem reduzir a incerteza dos custos e dos proveitos; mas a decisão deve ser política - isto é, deve ser feita em nosso nome. Dizer que se "acredita na ciência" ou que se "segue a ciência" é um disparate completo. A ciência é para ser compreendida, não é uma fé onde as decisões são baseadas em dogmas ou em verdades reveladas.

Quem melhor retrata este desafio entre risco, decisão, decisor e indivíduo, é o Código Deontológico da Ordem dos Médicos. Este documento é muito claro: a decisão de risco em relação à terapêutica é sempre do indivíduo, não é do médico/cientista. Mais, caso o doente - isto é, cada um de nós - não possa expressar o seu consentimento ou não tenha capacidade de compreender o tratamento clínico, o regulamento de deontologia médica esclarece: o tratamento a executar deve ser aquele que o doente aceitaria "de forma livre e esclarecida se para tal tivesse capacidade". Por outras palavras: a decisão é nossa; e os representantes políticos devem tomar a decisão que nós gostaríamos de tomar se tivéssemos na posse de toda a informação.

Note-se que não estou a falar dos micro dados, que nos ajudam a rastrear os lares e a compreender as cadeias de transmissão. Aí Portugal, passados 15 meses desde o início da pandemia, continua sem números públicos - de alguma forma as autoridades de saúde acham que é possível conter o vírus sem saber onde estão os vulneráveis. Volto por isso a centrar a pergunta: com os grandes números e as tendências que temos, qual o modelo de gestão de pandemia que quer ter? A decisão é, e sempre foi política, não é da ciência. Não há nenhum manual de epidemiologia ou de estatística que diga como devemos agir. A tomada de risco é nossa, ou dos políticos que agem em nosso nome.

Vale por isso a pena ver a entrevista do Prof. Johan Giesecke. Este médico sueco foi, entre 1995 e 2005, epidemiologista chefe da Suécia. É considerado o mentor da estratégia sueca de combate à covid, já que é ainda mais assertivo que o atual responsável pela gestão da pandemia. A dada altura, em 2020, Johan Giesecke, chegou a afirmar: "A Suécia está certa" e "todos os outros países estão errados".

A entrevista de Giesecke à UnHerd acontece um ano depois deste professor ter defendido a estratégia sueca ao mesmo órgão de comunicação social. Estratégia essa deslumbrou o mundo pela sua diferença face à generalidade das soluções adotadas: uma aposta na responsabilidade e liberdade individual e claramente mais fluida. De facto, ao invés de decretar sucessivos Estados de Emergência, o primeiro-ministro, Stefan Lofven (um antigo sindicalista e líder do "PS" sueco), exortou a população a ser sueca! Apelou às boas maneiras, à moralidade e bom-senso. Não colocou restrições, mas insistiu em recomendações e a ações voluntárias. Enquanto isso, Anders Tegnell, o atual epidemiologista chefe, descreveu os países vizinhos como "loucos" e "ridículos". Tanto Tegnell e a Autoridade de Saúde Pública declararam - incorretamente - em abril, maio e julho de 2020, que Estocolmo estava à beira da imunidade de grupo.

A entrevista a Giesecke começa com este especialista com um ar vencido e visivelmente irritado. Em 2020 o professor tinha ido à UnHerd e afirmado as suas certezas e sabia que agora, em 2021, 12 meses depois, seria confrontado com o resultado da sua estratégia e a força das suas afirmações de então. Para quem, como eu, advoga desde sempre uma política de responsabilidade individual e de liberdade, esta entrevista sobre a situação sueca é um assombro.

Claramente Giesecke assume que esperava que a transmissibilidade do vírus fosse maior e que a letalidade fosse menor. Ou seja, esperava que o vírus corresse mais depressa e que matasse menos. Afirma ainda que o modelo do Imperial College, que levou toda a gente na Europa para casa ao justificar o lockdown, não estava assim tão errado e que, surpreendentemente, as pessoas não se cansaram de estar em casa. O jornalista vai empurrando, de forma delicada e estruturada, as conclusões a Giesecke, que vai concordando com as críticas em penosos monossílabos.

Giesecke não traz para cima da mesa que a economia sueca caiu, em termos relativos, menos do que as congéneres. Giesecke não menciona que a recuperação Sueca será mais acelerada. Não refere que nos restantes países da Escandinávia, se retirarmos o descontrolo inicial de 2020, o excesso de mortalidade, por todas as causas de morte e não apenas Covid, não é assim tão diferente. E finalmente não indica que o modelo do Imperial College apesar de não ter falhado tanto como se suponha continua a ser um monumental disparate estatístico. Nada disso o especialista refere, e se o fizesse creio que ganharia claramente a entrevista.

Na sua defesa, Giesecke usa apenas quatro curtos argumentos:

-- a evolução da pandemia foi grosso modo igual em todos os países com e sem lockdown - conclui assim que esta estratégia apenas adia o inevitável, não suprime a doença;

-- é necessário sempre proteger as crianças e as escolas - estas praticamente não fecharam na Suécia;

-- o foco deve estar nos mais vulneráveis;

-- e a mortalidade tem de ser avaliada num ciclo mais longo.

Basicamente, Giesecke centra a discussão no processo seguido e defende o seu objetivo: defesa dos mais vulneráveis. Este especialista não se defende com os resultados que até não lhe são desfavoráveis. Assume os erros nos pressupostos que condicionaram a sua ação. E ponto.

Os resultados de saúde pública (e da coisa pública em geral) não se deveram a características nacionais excecionais, mas a escolhas conscientes e perfeitamente racionais. Face a evidências houve necessidade de alterar a estratégia, num processo por vezes doloroso e penoso, mas que tem/teve de ser feito. A Suécia não cristalizou a sua estratégia. A gestão pública continuou com os dados, criando cenários razoáveis de expansão da doença com o que se sabe, não imaginando o que poderia acontecer, assumindo sempre o pior e o mais catastrófico cenário possível.

Tudo isto seria impossível em Portugal. Nós não temos um plano e uma estratégia clara de combate à pandemia. Não temos metas, pelo que qualquer resultado é sempre bom - como diz o nosso Presidente da República em cada adversidade: "Bom!... fizemos o melhor possível!". Em Portugal, ninguém assume os erros de má gestão e muito menos alguém é capaz de mostrar alterar pressupostos ou convicções quando a realidade mudou.

O drama sueco, aos olhos da opinião pública, é o seguinte: os resultados são comparáveis à generalidade dos países europeus, e melhores face ao esperado pelos seguidores de uma estratégia de lockdown. Têm, porém, mais mortes do que as autoridades no seu país previam.

Quero terminar com os números com que abri este texto: os modelos atuais não são capazes de prever a evolução nas próximas semanas e muito menos no próximo inverno. Hoje, sabemos que as vacinas podem não proteger contra todas as variantes. Em termos de imunidade de grupo estamos tão prontos quanto é possível estar neste verão.

A decisão pelo que a decisão que temos de tomar é esta: Queremos continuar a insistir na estratégia da impossível supressão da doença, quando o SNS tem capacidade de acolhimento, aumentando o pico do próximo inverno? Ou aceitar algum risco no apelo à responsabilidade individual? A decisão é, ou devia ser, nossa.

Olhando para o que vejo na rua, creio que a população portuguesa preferia uma solução de desconfinamento responsável, com algumas regras claras. Infelizmente, não é isso que temos.

O que mais me choca no meio de isto tudo é que se olharmos para o país com algum distanciamento, creio que é evidente que estamos a lidar com a pandemia praticamente da mesma forma (se não pior) do que no verão de 2020.

PS: é bom que em setembro os nossos alunos tenham finalmente os PC prometidos. É provável que o inverno de 2021 não seja fácil.

Filipe Charters de Azevedo é fundador e CEO da DATA XL e da SafeCrop

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