João Adelino Faria

A morte dos inocentes

Buscas na praia da Giribita, onde uma mãe se atirou ao mar com as duas filhas . Foto: Júlio Lobo Pimentel/Global Imagens
Buscas na praia da Giribita, onde uma mãe se atirou ao mar com as duas filhas . Foto: Júlio Lobo Pimentel/Global Imagens

A lei nestes casos para nada serve, enquanto alguma imprensa continua perigosa e impunemente a substituir-se aos tribunais

Desta vez, o corpo que estava inerte na praia era de uma criança que falava português. Também ela foi vítima de uma guerra, não na Síria, mas mesmo aqui à porta da nossa casa, na nosso bairro. Infelizmente, desta vez, os media não perderam tempo a procurar as razões profundas desta morte inocente. Em vez disso, começaram de imediato o julgamento.

Ao ver o corpo tapado da bebé Viviane na praia da Caxias, é impossível não recordar a imagem que correu mundo do pequeno Aylan Kurdi numa praia turca. Será que são assim tão diferentes? Na altura, aquele inocente refugiado mártir levou-nos, quase todos, a chorar a sua morte e a empenhar-nos muito mais na ajuda aos migrantes. A imagem do pequeno corpo, que parecia estar a dormir, acordou a imprensa e as redes sociais de todo o planeta. Talvez tenha sido por causa da morte daquele menino que o mundo quis saber as verdadeiras razões da guerra. Jornais de todo o planeta uniram-se na ajuda aos refugiados e nas soluções para a paz.

Pelo contrário, desde o início da tragédia da praia de Caxias que cresceu em muita imprensa nacional, redes sociais, e até nas autoridades, uma espécie de onda justiceira e sacudir de responsabilidades. Desta vez, a solidariedade foi substituída pelo desejo de vingança contra os pais e sede de justiça. Em vez de nos preocuparmos em saber como é que é possível isto acontecer no nosso país, na nossa rua, no nosso bairro, preferimos encontrar rapidamente culpados e descansar as nossas mentes atormentadas. É bem mais fácil atirar os mais diretos responsáveis para a fogueira, mas não pode ser nunca essa a função do jornalismo.

Preferimos encontrar rapidamente culpados e descansar as nossas mentes atormentadas.

Em vez de uma reflexão e debate nacional porque é que isto acontece, muitas das notícias dadas não foram informação, mas sim pré-juízos. Sem pudor, as caras da mãe, do pai e até das duas menores mortas, apareceram escarrapachadas nas primeiras páginas. Antes de ser julgada, a mãe já era apelidada de assassina e as duas meninas não tiveram sequer direito à privacidade. A lei nestes casos para nada serve, enquanto alguma imprensa continua perigosa e impunemente a substituir-se aos tribunais.

De onde deveria chegar o bom exemplo, também não chegou. Logo a seguir à tragédia, em vez do recato que se impõe, as autoridades “responsáveis” apressaram-se a correr para os jornais para sacudir culpas. Dizem que fizeram tudo, e que os anteriores sinais, queixas e apelos da família em desespero foram todos tratados “de acordo com a lei”.

Qual lei? Que a tragédia desta família seja a tragédia de todas as nossas famílias. Que a dor desta mãe seja a dor de todas nós, e que o jornalismo volte a fazer aquilo que é a sua função. Que a morte da Viviane e da Samira sirva, como serviu a do pequeno Aylan, para evitar que outra criança volte a aparecer, coberta por um pano, numa outra praia qualquer.

Pivô e jornalista da RTP

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