5G na indústria: para lá de uma comunicação móvel mais rápida

Cada vez mais assistimos a notícias sobre tecnologia 5G, sobretudo na área das comunicações móveis. A questão que se coloca e que surge muitas vezes é porquê o interesse súbito da indústria na tecnologia 5G?

Na verdade, o 5G promete resolver uma série de desafios que a indústria 4.0 tornou mais visíveis e que, em muitas situações, limita a sua disseminação:

Aplicações "sem fios" na indústria

As soluções "sem fios" são muito requisitadas na indústria, pela sua flexibilidade, utilidade e baixo custo. Desde soluções wearables, onde é possível um técnico ou engenheiro de processo receber em tempo real informação e alertas em dispositivos usados por estes como smart watches ou tablets/smartphones, passando pela flexibilidade que a utilização de dispositivos de controlo, de aquisição de dados e sensores sem fios proporcionam tornando possível simultaneamente criar novas situações onde novos alertas podem ser gerados.

Robótica móvel

Existe um potencial enorme, em alguns casos ainda em exploração, para utilização de robótica móvel. Desde soluções já vulgares de AGV (veículos autónomos, normalmente utilizados para serviço logístico no interior da fábrica, em rotas pré-definidas), até soluções de robótica colaborativa (robots que podem trabalhar lado a lado com humanos, auxiliando nas funções menos confortáveis para os humanos, e podendo ser associados a plataformas móveis), no limite estes robots podem ter todo o seu controlo executado remotamente, algo que até há pouco tempo seria impossível, pela necessidade de rapidez e robustez dos meios de comunicação utilizados.

Realidade aumentada e virtual

Cada vez mais, as máquinas utilizadas na indústria estão de tal forma dotadas de sensores e sistemas inteligentes que, em situação de avaria, é possível praticamente fazer um raio-X à referida máquina. Estas soluções, quando associadas a sistemas de realidade aumentada ou mesmo realidade virtual tornam possível a um técnico ou engenheiro de processo ver o que está a acontecer "dentro" da máquina, possibilitando assim antecipar ou planear a reparação com uma eficácia que de outra forma seria impossível. Além disso, este técnico passa também a poder intervir na máquina remotamente, algo muito útil sobretudo numa altura em que as deslocações podem estar condicionadas.

Todas estas aplicações acabam não só por tirar partido, como serem elas próprias simultaneamente um catalisador de outras tecnologias com machine learning e inteligência artificial, as quais têm já larga aplicação na indústria - quer ao nível dos processos industriais, quer ao nível dos próprios processos de negócio.

O 5G promete muito mais do que apenas "comunicação móvel mais rápida": esta tecnologia traz consigo novas características como redução de latência (tempo que demora a informação viajar da fonte até ao destino) e qualidade de dados que até aqui não eram possíveis de assegurar, e que nem mesmo novas tecnologias sem fios como o WiFi6 permitem explorar.

No entanto, não deixa de ser relevante refletirmos sobre três questões importantes, ora vejamos:

Afinal, porque são estes novos casos de uso importantes?

A indústria 4.0 é um fator de competitividade fundamental: se é verdade que com a indústria 4.0 passamos a poder explorar processos industriais de forma mais eficiente, com a agilidade e flexibilidade que o novo contexto mundial exige, não é menos verdade que a dotação tecnológica que passa a ser necessária nos equipamentos e processos industriais obriga a encontrar novas ferramentas avançadas de diagnóstico que permitam aos técnicos e engenheiros de processo perceber de forma muito ágil o que está a acontecer a cada momento. Isto é particularmente relevante quando, sobretudo nos países desenvolvidos, temos uma população crescentemente envelhecida, que pode não estar preparada para dominar tecnologias de ponta. Por outro lado, a própria diversidade tecnológica passa a ser de tal ordem que é necessário encontrar novas formas de apoiar pessoas e equipas que podem não estar por dentro de todas as tecnologias envolvidas nos novos equipamentos, até porque esses mesmos equipamentos passam a ter sistemas de diversa natureza (sistemas mecânicos, hidráulicos, sistemas IT incluindo comunicações, sistemas de visão, etc.).

Qual o desafio que enfrentamos?

Podemos dizer que existem desafios de natureza tecnológica: apesar do 5G já estar disponível para utilização móvel em zonas dotadas da respetiva infraestrutura, as funcionalidades que permitem a utilização em ambiente industrial desta tecnologia estão ainda em fase de definição e desenvolvimento, sendo necessário uma colaboração muito intensa entre academia, empresas tecnológicas da área de telecomunicações, operadores móveis, reguladores nacionais e a própria indústria para que estas novas funcionalidades possam não só vir a ser uma realidade, como importa que sejam uma realidade financeiramente atrativa.

Se do ponto de vista tecnológico acredito que este desafio será ultrapassado, é precisamente na utilização financeiramente atrativa que outro desafio se levanta: é necessário que exista um enquadramento estratégico que permita que a tecnologia seja utilizada na indústria de forma competitiva em Portugal. Alguns países europeus viram os seus reguladores definir políticas de utilização de espetro para uso privado que permite que a indústria possa, de forma competitiva, utilizar esta tecnologia. Em Portugal esperamos a definição das condições de utilização por parte do regulador.

E a pergunta final que se impõe: estamos preparados?

Existem bons exemplos de projetos pioneiros em Portugal, com grande relevância tecnológica. Estes projetos contam com a presença de todos os stakeholders necessários para atingir resultados convincentes e contribuir efetivamente para o desenvolvimento do standard 5G. Os próximos 3 anos serão cruciais para confirmar o 5G como uma tecnologia "de facto" para a indústria.

Nelson Ferreira é responsável Internacional Indústria 4.0 Bosch Termotecnologia

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