Ricardo Reis

Opinião. A produtividade e o salário mínimo

Agricultura intensiva usa cada vez mais pesticidas

Qual é o setor com maior aumento de produtividade nos últimos 30 anos? É a agricultura, onde hoje existem melhores máquinas

Na sua coluna no Expresso da semana passada, o jornalista Nicolau Santos começava por apontar corretamente: “Com efeito, a produtividade depende dos trabalhadores, seguramente, mas os saltos que ela pode dar resultam muito mais da introdução de equipamentos mais sofisticados, de uma melhor organização das empresas, das condições de trabalho do que do desempenho individual de cada um.”

Os “saltos” e a convicção do “muito mais” são exagero literário, mas o resto da frase resume bem os principais fatores que afetam a produtividade. Começando bem, no entanto, o artigo salta para vários non sequitur que vale a pena discutir para perceber melhor as questões em torno da produtividade.

Primeiro, Nicolau Santos afirma que “aumentos de produtividade em pessoas que executam tarefas muito básicas serão sempre muito reduzidos”. Historicamente, isto é falso. Qual é o setor com maior aumento de produtividade nos últimos 30 anos? É a agricultura, onde hoje existem melhores máquinas, novas formas de organizar as colheitas, modificações genéticas das sementes, novos produtos orgânicos, e trabalhadores mais qualificados e empenhados, pelo que um agricultor numa quinta moderna produz muito mais.

Olhando antes para um estabelecimento comercial vemos: a organização de stocks da Zara que lhe permite com poucos armazéns e alfaiates vender muita roupa; a gestão de trabalhadores da Continente que permite vender milhões num hipermercado com poucos empregados; ou a racionalização dos processos de produção da McDonalds que permite servir centenas de refeições num dia com meia dúzia de empregados. Estes trabalhadores executam tarefas que podem parecer “básicas” mas que foram muito pensadas, resultando em enormes aumentos de produtividade. Começando do exemplo destas empresas, não é difícil entrar em muitos restaurantes ou lojas de roupa em Portugal e ver que se podia aumentar a produtividade.
Segundo, afirma que “o salário mínimo não pode nem tem de depender da produtividade.” Mas ele esquece-se de discutir o elo principal que liga os dois: a competitividade. O custo em produzir mais uma unidade é dado pelo rácio entre o salário e a produtividade. Se o primeiro sobe e o segundo não, a empresa tem de aumentar o preço em relação aos seus concorrent3es. O salário, mínimo, médio, ou máximo, não só pode, como tem de depender da produtividade, se o trabalhador quer vender o que produz no mercado.
Por fim, defende que o salário mínimo “…tem de ser um referencial civilizacional…” que reflita “…o valor mínimo pelo qual uma pessoa cumpre uma função útil à sociedade…” A afirmação aplica-se bem, mas à existência de um rendimento mínimo universal que é muito discutido pelo mundo fora. Mas o valor mínimo da pessoa pode ser assegurado pela sociedade e financiado pelos impostos, incluindo impostos negativos para as pessoas com baixos salários. Faltam os argumentos para exigir que ele seja antes pago pelos trabalhadores e pelos custos de produção.
Professor de economia na London School of Economics

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