Opinião de João Domingos

A altura certa para abraçar o digital

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Vivemos tempos exigentes, muitas organizações tiveram de reavaliar o papel que a tecnologia desempenha no apoio aos seus colaboradores, clientes e parceiros. Algumas delas viram-se forçadas a acelerar os seus planos de transformação digital, de maneira a permitir novas formas de trabalhar. No entanto, a transformação digital pode apresentar um lado sombrio e do qual muitas vezes não nos apercebemos. É um aspecto que acaba ofuscado pelos relatos de êxito das grandes empresas que se conseguem reinventar.

Essas empresas conseguem proceder a alterações significativas que moldam inclusivamente o respectivo sector de actividade. Mas nem todos os ‘case studies’ envolvem as grandes empresas. E nem todas as histórias terminam em sucesso. Muitos projectos de transformação digital falham. E se as Amazons e os Spotifys deste mundo podem pôr em prática a mentalidade do ‘fail fast’, a verdade é que a maioria das empresas não se pode dar a um tal luxo.

Não vemos muita informação sobre a relação entre o midmarket e o digital. E isso é estranho, considerando que, em muitas regiões, são as empresas de média dimensão que compõem a maior parte do tecido económico. Esta maioria silenciosa está à beira de um admirável mundo novo. Um mundo onde a corrida ao armamento digital levou as expectativas dos clientes ao rubro. Espera-se que o midmarket seja capaz de facultar experiências na mesma escala das grandes corporações – mas com uma fracção dos recursos. Pode isto concretizar-se? Sem qualquer dúvida. Na verdade, as empresas de média dimensão possuem, em vários sentidos, uma vantagem sobre as suas pesadas e grandes homólogas. Mas primeiro, vamos analisar alguns dos desafios que estas empresas enfrentam.

Estudos sugerem que, para as empresas de média dimensão, o maior desafio reside na criação de equipas dedicadas – o que é compreensível, se tivermos em conta as limitações a nível dos recursos e do número de colaboradores com que estas geralmente se debatem. Indo mais fundo, há três áreas principais em que as empresas de médio porte enfrentam dificuldades: reunir equipas qualificadas, assegurar um orçamento e depender demasiado de sistemas e/ou processos implementados no passado (“legacy”). Obviamente, as grandes empresas sentem restrições similares. Mas, para empresas mais pequenas, os riscos são muito superiores. As consequências da gestão incorrecta de um projecto – tanto para as áreas de negócio quanto para o CIO – podem revelar-se devastadoras. Sendo a falta de recursos sentida com maior acutilância em empresas de média dimensão, muitas delas ficariam muito satisfeitas se pudessem manter os seus processos exactamente como até aqui. Infelizmente, isso deixou de constituir uma opção. No entanto, à medida que a tecnologia se torna mais acessível, as empresas descobrem que a falta de recursos não é uma barreira tão grande quanto inicialmente julgavam.

A democratização da tecnologia é um grande impulsionador da inovação no midmarket. Num passado não muito longínquo, qualquer acréscimo na área da tecnologia exigia uma enorme quantidade de recursos para a sua implementação. A especialização, o número de colaboradores e o investimento financeiro necessários tornavam a inovação impossível para todos excepto os principais players do mercado. Mas, actualmente, a realidade é distinta com a capacidade de implementar soluções de IA, chatbots ou RPA (Robotic Process Automation) de forma rápida e fácil.

O verdadeiro facilitador é a Cloud. Muitas destas novas aplicações estão assentes numa infra-estrutura de cloud flexível, o que deixa grande parte do trabalho complexo às empresas integradoras de sistemas de informação e a fornecedores de cloud. Como tal, as empresas de média dimensão podem beneficiar livremente da tecnologia de ponta sem se sentirem limitadas por questões orçamentais ou decorrentes da falta de competências.

A ironia é que, agora, com a tecnologia acessível a todos, é o midmarket que se está a tornar o líder digital, não os gigantes. Isso acontece porque organizações mais pequenas possuem um activo importante: a agilidade. Livre das grandes redes de administração e burocracia, o midmarket pode adaptar-se às condições do mercado muito mais rapidamente. A tecnologia pode ser adoptada em toda a empresa num período relativamente curto de tempo, possibilitando que esta se mantenha a par das mais recentes inovações. De facto, algumas empresas de média dimensão mostram-se tão bem-sucedidas que as grandes empresas estão a tentar replicar o seu modelo de sucesso.

As grandes empresas podem alcançar a agilidade do midmarket com a criação de “microempresas”, capacitando-as para agir de forma independente e para reagir com a agilidade que é natural às empresas de menor dimensão. Para o midmarket, este é o verdadeiro momento da verdade. As ameaças são grandes, mas as oportunidades são ainda maiores. A única coisa certa é que as médias empresas precisam de se adaptar – e serão as equipas com gestores que apostam na tecnologia e na inovação que vão liderar o caminho.

João Domingos, Vice President, Head of Western Europe, Fujitsu

(O autor escreve de acordo com o antigo acordo ortográfico)

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