Opinião

A Apple ficou mais doce

As capas da National Geographic no Apple News Plus vão ser dinâmicas/APPLE
As capas da National Geographic no Apple News Plus vão ser dinâmicas/APPLE

A Oprah tem piada, mas já pensaram em ler artigos à vontade sem ter anunciantes à espreita?

“Agora somos miúdas Apple”, dizia Oprah, na sua voz inconfundível, a Reese Witherspoon, Jennifer Garner e Rashida Jones. O vídeo foi publicado ontem no Instagram da apresentadora, logo a seguir à mega apresentação da Apple em Cupertino, durante a qual a marca apresentou as novidades mais consequentes da década. Confrontada com a estagnação das vendas do iPhone, a empresa está à procura de molho noutro lado. E o que revelou no auditório baptizado com o nome do co-fundador, Steve Jobs, terá repercussões importantes por anos e anos.

Pôr Oprah Winfrey a mandar o edifício abaixo foi bem jogado, tal como o foi ter no evento Steven Spielberg, J.J. Abrams, Jennifer Aniston e Jason Momoa, entre outras celebridades que são a nata de Hollywood neste momento. Mas a verdade é que houve mais espalhafato que anúncios concretos: sabemos que a Apple vai bater de frente com o Netflix em busca de um lugar ao sol do streaming, só não sabemos quanto irá custar, qual a lista completa de parceiros, quando vai chegar e quais os contornos da programação original na qual está a investir centenas de milhões. Todos os detalhes decisivos ficaram de fora da parada de estrelas que encadeou uma audiência ávida por mais.

O outro anúncio vistoso nesta incursão pelos serviços, Apple Arcade, será interessante pelo modelo e pode chegar a ser disruptivo, mas não chega a um mercado que precise de ser salvo. E o primeiro cartão de crédito da empresa, desenhado especialmente para o iPhone, é uma adição curiosa e mais um símbolo de estatuto (que os fãs da maçã tanto adoram), mas na categoria fintech, a Apple tem de ir para o fim da fila.

O verdadeiro tesouro deste evento comandado por Tim Cook foi o antecipado serviço de subscrição de notícias, Apple News Plus. Enquanto o Facebook anda a fazer rondas de relações públicas para nos convencer de que está muito preocupado com a resiliência do jornalismo, a Apple tem aqui a hipótese de fazer realmente qualquer coisa importante. Não, caro Watson, não é coisa nova; na verdade, a base é o serviço Texture – precisamente chamado de “Netflix das subscrições de revistas” – que a empresa comprou no ano passado. A diferença é que quando é a marca da Apple a meter-se nestas coisas, o seu alcance é inigualável.

O serviço arrancou ontem nos Estados Unidos e no Canadá e as primeiras impressões são mistas, mas eu diria que existe muito potencial. Vai custar 9,99 dólares por mês, com partilha gratuita entre contas de família, e dar acesso a cerca de 300 publicações. Na maioria revistas, mas também alguma nata dos jornais anglo-saxónicos (com o alargamento à Europa lá para o final do ano, as publicações em várias línguas vão abundar). Estamos a falar, para já, de Wall Street Journal, Los Angeles Times, The New Yorker, Rolling Stone, Vanity Fair, Wired, Time, National Geographic, Vulture, Esquire, Vogue, e suspeito que a lista vai engrossar quando o serviço estiver em velocidade de cruzeiro.

Não sei se o preço está no ponto certo, mas sei que é isto que teremos de ter no futuro para salvar a imprensa. Um pacote de publicações como temos pacotes de canais nos serviços de televisão. Se fosse preciso subscrever os canais um a um, quantos atingiriam massa crítica suficiente? É difícil vislumbrar um futuro em que os leitores que deixaram o papel e passaram ao digital assinem uma dúzia de publicações individualmente. E não queremos, com certeza, que o mundo se confine a um punhado de casas poderosas como o New York Times e o WSJ. Já vimos o efeito devastador que a transição teve nas notícias locais (e nem vamos falar da rambóia das fake news).

A Apple pode conseguir fazer pela imprensa o que fez pela música, trazendo o iTunes para a frente do mercado enquanto as editoras discográficas se esmifravam para impedir a digitalização. Isto pode parecer pequeno, até porque não é novo, mas é potencialmente mais importante que a aventura com Oprah, Spielberg e companhia, porque o mercado do streaming já está bem ocupado e muito vibrante.

Não é só por ser uma espécie de Netflix de revistas e jornais, mas também porque põe os anunciantes a milhas. O motor de recomendações de leitura do News Plus opera dentro de cada iPhone, não vai à nuvem, por isso a Apple nunca se inteira do que cada utilizador lê e não permite que os anunciantes registem as preferências de cada um. Só isto, num mundo em que uma pessoa até do microfone desligado do telemóvel desconfia, é uma lufada de ar fresco. E mesmo que se pudesse esperar mais deste serviço, há que começar por algum lado.

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