Opinião

Opinião. A argolada do iPhone X

iPhone X

A Apple é a única alternativa ao Android e isso significa que as sortes e azares dos seus lançamentos têm influência sobre toda a indústria

Sabia-se que a Apple estava a preparar uma edição especial do iPhone para comemorar os dez anos do lançamento do smartphone que mudou o mercado, e o que Tim Cook revelou no final do verão passado não desiludiu. O iPhone X era uma maravilha, com o seu reconhecimento facial único no mercado, aqueles animojis engraçados e um design distinto, mais interessante que o dos outros modelos. Os analistas desdobravam-se para tentar perceber até que ponto o preço anormalmente alto (mais de mil euros) seria um entrave à compra. Mas ficou estabelecido que se tratava de uma bomba de smartphone, com características distintas, um regresso da Apple às lides inovadoras. Sete meses depois, percebe-se que este lançamento foi uma argolada.

O primeiro problema que o iPhone X gerou foi obliterar o iPhone 8, que pouca ou nenhuma atenção conseguiu por ter sido apresentado no mesmo dia. Só que os dois modelos não chegaram às lojas na mesma altura; a dificuldade de produção em massa do iPhone X levou ao adiamento para novembro, a tempo do Natal mas mês e meio depois do 8. O efeito deste desfasamento foi que muitos consumidores esperaram para ver e as vendas do iPhone 8 não corresponderam ao esperado. Os passos em falso na gestão de stocks começaram aqui.

É certo que os números do trimestre natalício foram bons e permitiram à Apple um raro regresso à liderança mundial do mercado de smartphones, com o iPhone X a vender mais que os outros. Aqui reside o segundo problema gerado pelo super iPhone: o entusiasmo da Apple foi tanto que a marca aumentou as encomendas, antecipando um blockbuster, e agora vê-se com dificuldade em escoar o stock. É provável que quem estava disposto a largar mais de mil euros por um telefone o tenha feito quando este chegou ao mercado. O resultado é que agora há mais iPhones X que consumidores interessados, e por isso a Apple teve de carregar no travão da produção.

Vamos saber na apresentação de resultados* o que isto significou em termos de vendas no primeiro trimestre do ano, que é sempre mais fraco, mas as fabricantes de componentes (incluindo a Samsung) já fizeram saber que as encomendas abrandaram bastante.

Esta correcção não significa que os consumidores tenham deixado de admirar o iPhone X ou que os seus utilizadores não gostem dele, mas sim que o timing do lançamento e o nível de preço não são compatíveis com o sucesso estrondoso de vendas que a marca queria. Principalmente quando o mercado global de smartphones está em desaceleração e há boa alternativas no portfólio da Apple. Sempre que me pediram uma opinião sobre qual dos novos modelos comprar, recomendei o 8 por causa disto: a diferença de preço é grande e as funcionalidades mais interessantes do iPhone X não são decisivas para grande parte dos utilizadores. Não é por acaso que o iPhone 7 continua a vender bem e que o iPhone 8 tenha recuperado terreno; nem sempre o último grito – sem dúvida o melhor que a Apple tem para oferecer – faz sentido para a maioria.

Estamos numa altura em que é difícil atrair consumidores do outro lado da barricada. Há duas ofertas possíveis no mercado, iOS e Android, e quem leva anos a usar um ecossistema não passa para o outro por dá cá aquela palha (ou animoji). A Apple carrega nos ombros a única alternativa ao Android e isso significa que as sortes e azares dos seus lançamentos têm influência sobre toda a indústria.

Tim Cook tem uma decisão difícil para tomar este ano: apostar novamente num iPhone X caro e com tecnologias exclusivas, ou descontinuar a “edição de aniversário” e focar-se no sucessor do iPhone 8. Não é tanto por uma questão de rentabilidade, porque a Apple faz mais dinheiro que a Amazon e a Google juntas, mas por saber que sustentabilidade tem esta galinha de ovos de ouro num cenário em que as vendas de smartphones continuam a cair.

Há anos que existe uma espécie de crise de inovação no segmento, que deriva dos saltos qualitativos dados em pouco tempo. O que mais esperamos que um smartphone faça no curto prazo? O que mais podemos desejar num dispositivo que já é tão poderoso e nos consome uma parte tão importante da vida? A resposta agora está na utilidade do ecossistema. É aí que a Apple deve focar-se, por mais que o mercado se pele por uma boa fanfarra no início de setembro.

* (adenda): Na apresentação de resultados trimestrais, Tim Cook reiterou a confiança no iPhone X e disse que o smartphone é muito popular apesar do preço elevado. A Apple não revelou quantas unidades foram vendidas; no total, as vendas de iPhones subiram 2,9% para 52,2 milhões.

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