A armadilha de liquidez

O famoso Paul Krugman afirma perentoriamente que é na sua crença
de que os EUA estão hoje numa “armadilha de liquidez” que se
suportam todas as suas opiniões sobre política económica. Muitas
defesas em Portugal de mais gastos e défices públicos usam esta
velha ideia de Keynes. Estamos hoje nesta armadilha?

Nestes debates, a armadilha de liquidez refere-se ao poder das
políticas monetária e fiscal de estimular a economia. Na armadilha,
usar a política monetária para baixar as taxas de juro não
funciona, enquanto usar a política fiscal, baixando impostos ou
aumentando a despesa pública, é um remédio adequado para sair de
uma recessão. Logo, a pergunta certa é se a política monetária,
que é europeia, está hoje numa armadilha de liquidez, e se a
política fiscal, que é portuguesa, também.

Nas primeiras cadeiras de licenciatura, muitos aprendem que a
resposta será sim se as taxas de juro forem zero. Porque a taxa do
BCE é 0,5% e a da dívida portuguesa é bem maior, concluem que não
estamos nesse situação. Este nível de conhecimento pode dominar as
comissões parlamentares, os jornais, e os blogues, mas neste caso
não chega, e está mesmo provavelmente errado.

Começando pela política monetária, a armadilha de liquidez
ocorre antes quando os agentes económicos estão aproximadamente
indiferentes entre investir no banco central, em depósitos ou moeda,
ou investir em ativos seguros na economia. Neste caso, quando o banco
central cria dinheiro, os agentes vendem-lhe estes ativos em troca,
sem com isso alterarem nenhum dos seus outros comportamentos e logo
sem efeito no PIB. A enorme expansão nos últimos anos nas reservas
que os bancos têm estacionadas no BCE, dando em troca dívida
pública, é o melhor sinal de que a zona euro está nessa situação.

Já na política fiscal, a definição mais correta da armadilha
de liquidez é uma situação em que um aumento no défice público
não provoca um aumento nas taxas de juro que afetam o investimento e
a poupança privada. Normalmente, um aumento na despesa aumenta quer
a produção quer a inflação, e ambos levam a que o banco central
suba as taxas de juro, retraindo o investimento e o consumo. Numa
armadilha de liquidez, não só a taxa de juro não aumenta como
também a subida da inflação leva a que, em termos reais, o retorno
num empréstimo seja menor, logo estimulando a despesa privada.

Pergunte-se por isso o que aconteceria às taxas de juro
portuguesas se o governo anunciasse um grande programa de
investimento público e revisse para cima a meta do défice público
em 5%? Se acha que as taxas de juro iam subir muito, com os mercados
a reagir ao anúncio com o mesmo pânico dos últimos dois anos
recusando-se a emprestar-nos dinheiro, então deve achar também que
Portugal não está numa armadilha de liquidez. Por isso, o argumento
a favor de uma expansão fiscal, que é usado hoje nos debates sobre
os EUA, o Reino Unido e mesmo a zona euro como um todo, simplesmente
não se aplica a Portugal.

Professor de Economia na Universidade de Columbia, Nova Iorque

Escreve ao sábado

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