A autoflagelação da democracia portuguesa

"For want of a nail the shoe was lost, for want of a shoe the horse was lost, for want of a horse the rider was lost, for want of a rider the battle was lost, for want of a battle the kingdom was lost, and all for the want of a horseshoe nail."

É conhecida a nossa capacidade ímpar em passar de bestiais a bestas num piscar de olhos. O espelho desta característica politicamente, pertence aos que no rescaldo dos resultados das presidenciais não perderam tempo em nos caracterizar como um país de democratas assolados por fascistas ou pessoas zangadas que só poderão crescer em número com o tempo. Será mesmo assim?

Certo é que o sobressalto autofágico quanto à solidez da nossa democracia com o resultado previsível de André Ventura, não se fez esperar. Quando quase nenhuma das sondagens previam que o candidato de extrema direita estivesse abaixo dos dois dígitos, quando grande parte dessas sondagens o colocavam à frente de Ana Gomes, caiu o Carmo e a trindade com o seu meio milhão de votos, mesmo não tendo alcançado aquilo que anunciou repetidamente. Mas, apesar disso tudo, parece que se acordou agora para o que estava escrito nas estrelas e faz-se por ignorar o facto de 75% do eleitorado ter votado ao centro. Sim, ontem como hoje é aí que se continuará a ganhar eleições em Portugal. O presidente da república que obteve um bom e merecido resultado, sempre o soube; António Costa, também; já Rui Rio, alguns comentadores e parte do PSD é possível que ainda não o tenham entendido.

Regressando a André Ventura e ao seu "meio milhão de zangados com o regime": além dos extremos do PSD ou do fecundo CDS nos concelhos do litoral e interior, alguém fica mesmo espantado que a extrema-direita tenha ido buscar votos ao único partido comunista com expressão na Europa e em regiões como o Alentejo? Os mesmos que deixaram de saber falar para uma parte do seu eleitorado depois da tragédia de Pedrogão Grande e que tal como o Bloco de Esquerda, queimaram quase todas as suas bandeiras nos últimos anos de geringonça em nome do lugar ao sol. Parece-me que existindo algum exercício pela reconquista em detrimento do Chega, no futuro, é este o ponto de partida da introspeção e ação da esquerda.

Já da tão badalada e comentada podridão do sistema e regime político português, importa relembrar que em 2016, muitos americanos diziam o mesmo do deles. Com a conivência da sua direita decente, elegeram durante quatro anos um presidente racista, ignorante e que se foi tornando a pouco e pouco o mais destrutivo da sua história. Já com Trump longe, a fatura continua a ser alta para os EUA. Em Itália, o sistema tinha bolor pelos vistos e desde 2019 que a extrema-direita através de Matteo Salvini vence eleições regionais e comanda a política. Na rica Alemanha, o partido de extrema direita Alternativa para a Alemanha (AFD) ganhou representação parlamentar há três anos e começa a engolir uma parte do centro. Todo um regime para lá de podre, portanto. Os Países Baixos, outrora um sistema sonhado e proclamado por muito neoliberal e ultraliberal português vive o que se vê, com a ascensão meteórica da extrema direita e a níveis que, apesar de tudo, estão bem à frente de Portugal. Ninguém devia estar esquecido também da porta de entrada que foi o Brexit no Reino Unido, através do partido de extrema direita de Nigel Farage. Do papel e força que representa a Frente Nacional de Le Pen em França ou da forma como a representatividade dos dois extremos em​​​​​​​ Espanha está a tornar o país ingovernável. E finalmente, de como o ideólogo neonazi Steve Bannon tomou a dianteira de toda esta realidade na Europa. Em suma, achávamos mesmo que íamos ser eternamente imunes?

Por todos estes países de Estados ou regimes bem mais endinheirados do que o português e classes menos fustigadas, dizia-se igual ou pior do sistema político antes da extrema-direita dominar o debate ou tomar o poder. Será que tinham todos razão ou começamos também a sentir por cá a força de um movimento extremista global que além de alimentar o ódio, a divisão e retrocesso civilizacional, estupidificou o debate político através das redes sociais. Apresentando soluções simplórias para o que é extremamente complexo na política. Muitos dirão que temos de olhar para os nossos próprios problemas e que existe uma corrupção sistémica e estagnação económica em Portugal. Certo. Mas sem compreender verdadeiramente o efeito e a estratégia deste movimento global com raízes estabelecidas na Europa, nunca o corrigiremos. Adensaremos isso e todos os outros problemas se tivermos de passar por uma representação maior e em crescendo da via extremista no país. Passaremos ao lado dos sinais, não percebendo que no meio daquela chafurdeira, há uma coisa a reter no discurso de André Ventura este domingo: o tempo que dedicou a agradecer ao movimento de extrema direita europeu e a outros desses partidos na Europa. Continuaremos ao lado do relevante se os políticos portugueses não olharem para a forma como já se combate com sucesso o fenómeno noutros lugares. Políticos e não só.

Enquanto os diretores de informação das televisões forem aliciados pelo entretenimento constante da política e a perseguirem o soundbyte, apenas e só porque dá mais audiência, continuaremos a fazer um mau serviço na defesa da democracia. Se os jornalistas continuarem a ficar-se pelo irrelevante nas entrevistas a André Ventura, acabando por fazer esquecer as incongruências na magnitude populista que quer dar a micro casos sem relevância e expressão no país, continua-se a alimentar o supérfluo. Quanto mais se ignorar o facto de Portugal ser um dos países mais seguros do mundo e de estarmos no topo dos países europeus com menos índices de crime grave e menos grave, mais o André Ventura mudará essa realidade.

Enquanto tantos se surpreenderem com o expectável e gritarem da mesma forma simplória que o regime está podre, enaltecendo aquilo que julgam ser razões muy nobres e justas do "meio milhão de zangados", continuaremos a dar cabo da democracia portuguesa em passo acelerado. E se formos poucos os que olham para lá da bolha, então no lugar de um país de meio milhão de zangados, seremos outro de muitos milhões de ignorantes a curto prazo.

Gonçalo Ribeiro Telles, consultor de Comunicação e analista político

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