A Baixa na Globo

A Baixa Pombalina apareceu durante largos segundos no muito seleto e assistido Jornal Nacional da TV Globo. O arco da Rua Augusta, depois o Terreiro do Paço, a seguir o Rossio, com o castelo de São Jorge, altivo, a observá-lo, depois, os Restauradores e por aí adiante. Em causa, claro, a detenção de José Sócrates.

Não é comum Portugal ser notícia no Brasil, muito menos no Jornal Nacional, que dura impreteríveis 20 minutos mais cinco de dois blocos publicitários. O Brasil é enorme e, como outros países geograficamente parecidos, nomeadamente os EUA, noticia-se muito a si próprio e às suas diversidades. O noticiário internacional, ao contrário do que se passa nos países europeus, todos eles vizinhos próximos e interligados histórica, social e economicamente, é curto.

E normalmente gasto com notícias das capitais do império dominante – Nova Iorque e Washington – onde a Globo tem ativas e concorridas delegações. Lisboa, outrora capital de um império e, em certa medida, do próprio Brasil, é secundária na agenda, mesmo tendo em conta que cerca de 80 por cento dos brasileiros descende em maior ou menor grau de portugueses, que os nomes próprios (José e Maria) e apelidos (Silva e Santos) mais comuns num lado e noutro são os mesmos, que a religião, a língua e grande parte dos costumes são, apesar dos efeitos da tropicalidade, heranças genéticas perfeitas.

Entre esses costumes está – infelizmente – a falta de vergonha na gestão de tudo o que é público. Mais ainda no Brasil, ou não fossem os brasileiros, como os definiu Agostinho da Silva, “portugueses à solta”, ou Eça de Queiroz, “portugueses dilatados pelo calor”.

Dá um nó na garganta, pois, que a Baixa Pombalina passe no Jornal Nacional não graças a novo recorde do CR7, título internacional de outro José, o Mourinho, ou Nobel de mais um José, o Saramago, mas por culpa de um (alegado, hoje me dia tudo é alegado e nada é certo) caso de fraude envolvendo um ex-primeiro ministro chamado José.

Da mesma forma que a muitos brasileiros dá um nó na garganta ser notícia no estrangeiro primeiro pelo Mensalão de dois Josés, o Dirceu e o Genoíno, e depois pelo Petrolão, que vale em dinheiro o equivalente a 200 mensalões, ou pelos outros consecutivos casos de desvio de dinheiro público que enchem as páginas dos jornais.

Até porque acontecimentos destes têm sempre efeitos degradantes paralelos: a exibição dos detidos como troféus de caça dos seus inimigos, por um lado; e o expediente de apontar o dedo mais ao polícia do que ao (alegado) ladrão, por outro. Sabendo todos nós que se o preso fosse de outra cor, os papéis das turbas de fanáticos se inverteria com a maior desfaçatez.

Mas não, não há porém que sentir vergonha, em Portugal, no Brasil ou noutro canto qualquer, sempre que um caso de corrupção é descoberto. Não é vergonha produzir lixo, até o mais higiénico dos cidadãos o produz, vergonha é deixá-lo acumular por debaixo do tapete. E descobrir-se que afinal alguém, ou todo um sistema político e financeiro, nos roubou dinheiro não é nada sinal de queda de regime mas sim um safanão necessário para o melhorar.

Afinal de contas, se não fosse o terramoto de 1755 que destruiu Lisboa, a Baixa Pombalina nem teria sido construída.

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