A banca foge do capital?

Há poucas semanas, saiu um livro de dois académicos, Anat Admati
e Martin Hellwig, com um argumento poderoso: aumentar os rácios de
capital dos bancos, dos atuais 3% a 10% para 30% a 50%, era a melhor
forma de garantir a estabilidade do sistema financeiro.
Provavelmente, esta pequena medida seria superior aos milhares de
páginas de novos regulamentos sobre o sistema financeiro que vão
entrar em vigor nos EUA e na Europa.

Nas últimas décadas, as instituições financeiras habituaram-se
a viver com uma enorme alavancagem. Por cada euro que um banco
português tem dos acionistas, ele pede emprestado algures entre 9 e
19 euros para investir 10 a 20 euros. Este financiamento a crédito é
altamente lucrativo: se o investimento passa a valer 22 euros em vez
de 20, então depois de pagarem os 19 do empréstimo os acionistas do
banco acabaram de triplicar o euro que investiram. Também é
altamente arriscado: se o investimento valer antes 18 euros, então
não chega sequer para pagar o empréstimo.

Num mundo ideal, ninguém estaria disposto a emprestar estas
quantias aos bancos, tendo em conta a probabilidade de não ser pago.
Mas porque os Estados salvam os bancos da falência, pagando aos seus
credores, o risco é reduzido. Os acionistas sim, têm muito risco, e
por isso qualquer banqueiro dirá que lhe fica mais caro vender ações
e arranjar investidores do que vender obrigações e conseguir
créditos. Durante a crise de 2008-2009, ou nas recapitalizações
dos bancos portugueses, os acionistas perderam muito, mas quem
emprestou ao Citigoup ou ao Banif não perdeu um cêntimo.

A sugestão de Admati ou Hellwig é recebida com raiva pelos
banqueiros. Eles dizem que os bancos sempre tiveram muita
alavancagem. Não é verdade, no século xix tinham 30% a 50% de
capital. Dizem que é impossível aumentar o seu capital de 5% para
50%. Não é verdade: basta não pagar dividendos durante uns 10
anos. Dizem que teriam de assumir menos riscos nos seus
investimentos. Certo, e ainda bem! Se tivessem mais capital, os
bancos não receberiam um “subsídio” implícito tão
grande dos governos que os vão salvar em dificuldades, e por isso
teriam de ser mais prudentes.

A objeção mais frequente é que os bancos iriam cortar o crédito
à economia por não conseguirem obter o capital necessário. Esta
falácia tem uma tradição tão longa, que o Nobel da Economia de
1985 premiou quem a rebateu. O que determina se um banco ou outra
empresa faz um investimento é a sua rentabilidade. Obrigar o banco a
ter mais capital apenas exige que tenha menos dívidas. Os
investimentos de uma empresa grande cotada na Bolsa podem ser
financiados com capital ou com dívida: reduzir um, aumenta o outro,
mas não muda o investimento.

Existem algumas qualificações, mais subtis, que sugerem que 50%
de rácio de capital para um banco talvez seja de mais. Mas a força
do argumento permanece: bancos mais bem capitalizados seriam bancos
mais seguros. Não em resposta às crises, mas antes e sempre,
evitando assim novas crises.

Professor de Economia na Universidade de Columbia, Nova Iorque

Escreve ao sábado

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