Opinão

A banca tradicional sobreviverá, mas com que papel?

Rui_Silva_CSW

A inovação tecnológica é essencial na estratégia de uma empresa, pois permite-lhe criar serviços ou produtos diferenciadores e destacar-se da concorrência. Isto aplica-se a todos os setores, incluindo o dos serviços financeiros. Contudo, a adoção de tecnologia neste setor tem sido mais morosa do que noutros.

De acordo com o estudo da consultora RSM International, a área de serviços financeiros apresenta uma elevada dependência da tecnologia para mudar o seu modelo de negócio (6.ª posição entre 21 indústrias), no entanto deixa muito a desejar na capacidade de implementação de tecnologia que traga eficácia e eficiência aos negócios (17.ª posição).

Isto deveu-se, por um lado, à pesada regulamentação a que os bancos estão sujeitos e, por outro, à inexistência de uma concorrência efetiva. A estas razões, aliam-se os desafios tecnológicos. A maioria dos bancos falhou em perceber que a utilização da internet para a realização de operações bancárias seria apenas a primeira vaga de um tsunami de mudanças na forma como as pessoas vivem e realizam as suas atividades profissionais e financeiras, tendo perdido a oportunidade de modernizar os seus sistemas centrais.

Estes sistemas nucleares representam o maior desafio tecnológico. A transição para o online implicou, frequentemente, a duplicação de grandes quantidades de dados, resultando num grau adicional de complexidade e num menor dinamismo e capacidade de resposta. Modernizar significava correr o risco de introduzir erros, que poderiam levar a milhões em prejuízos e a multas por parte dos reguladores. Por isso, muitos optaram por não fazer estas alterações estruturais.

O fácil acesso digital a diversos serviços criou nas pessoas uma expectativa de poderem fazer o mesmo com todas as áreas, e o desfasamento entre esta expectativa e os serviços bancários criou terreno fértil para o aparecimento de iniciativas que disponibilizavam serviços até aí exclusivos dos bancos, de forma muito mais simples e barata. Já as entidades reguladoras, reconhecendo o valor destes novos empreendimentos, obrigaram os bancos a permitir o acesso a informação dos seus clientes. O resultado destes esforços é a criação de um mercado competitivo e aberto, que contempla não só os bancos, mas também as Fintech.

Suportadas pelos avanços tecnológicos dos últimos anos, ao nível da capacidade computacional e de armazenamento de grandes quantidades de dados, as Fintech perceberam que poderiam estabelecer negócios nos limiares da atividade dos próprios bancos. Adicionalmente, o menor custo de operação permitia-lhes endereçar uma faixa de mercado que os bancos não conseguiam, pelo custo e risco que representava.

A tecnologia e a agilidade das Fintech permitem que haja um constante alinhamento com as características e oportunidades de mercado, criando novas soluções sempre que necessário, o que leva a que mais clientes decidam experimentar o serviço, sem grande compromisso – conceito estranho para as grandes instituições bancárias, sobretudo porque o processo de aquisição de serviços bancários é moroso e burocrático.

A maioria das Fintech, no entanto, ainda não atingiu a rentabilidade e é aqui que os bancos tradicionais podem conseguir uma pequena margem de manobra. Com o seu negócio já estabelecido e uma grande carteira de clientes, as instituições podem aproveitar para implementar iniciativas estruturais que lhes permitam ser mais ágeis.

Exemplo disso são alguns bancos que estabelecem parcerias com Fintech para a criação de soluções modernas – o banco ganha a tecnologia e o modelo de negócio da startup e esta tem acesso à carteira de clientes. Outros optam por adaptar os seus sistemas atuais sem fazer grandes alterações estruturais, modernizando alguns processos de negócio considerados mais valiosos para o banco.

Baseados na ideia de que os seus clientes lhes são leais, alguns bancos estão a optar pela criação de marcas tecnológicas paralelas. Apesar de competirem com a entidade mãe, a médio prazo, esta consegue transferir a maior parte do seu negócio para o novo banco sem perder os clientes que preferem manter o fornecedor.

Existem ainda os que decidem reformular todo o sistema central de informação, quer através da aquisição de um produto já disponível, quer através do desenvolvimento de soluções à medida com a ajuda de parceiros tecnológicos.

Os bancos enfrentam enormes desafios à forma de estabelecer e desenvolver o seu negócio. A par das Fintech, também as grandes tecnológicas, como o Facebook, que tenta agora criar a sua própria criptomoeda, começaram a demonstrar interesse por esta área, contribuindo ainda mais para a pressão no setor.

Apesar deste ataque coordenado à banca tradicional, que se vê a lutar sem infraestrutura e sem ferramentas adequadas, a verdade é que a grande maioria sobrevirá. A verdadeira questão é saber se os bancos se vão manter como a face visível dos serviços financeiros ou se passarão a desempenhar um papel secundário subordinado à estratégia de mercado de outras entidades.

Rui Duarte Silva, Principal Engineer / Digital Finance da Critical Software

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