A bandeira dos que ficaram

Num excerto do livro Quinas e Castelos: Sinais de Portugal, de Miguel Metelo de Seixas, publicado no blog da Fundação Francisco Manuel dos Santos, fiquei a saber os motivos por que as cores da bandeira nacional passaram do azul e branco ao vermelho e verde. E nada teve que ver com o FC Porto, o Sporting ou o Benfica, embora os três clubes já existissem antes de esta ser adotada.

A instalação da República impôs naturalmente a questão: "E agora, o que fazer com a bandeira?" Como não podia deixar de ser, logo se fez uma comissão de iluminados para lhe dar resposta. Ao todo, cinco: o escritor Abel Botelho, o pintor Columbano Bordallo Pinheiro, o tenente António Ladislau Parreira, o capitão José Afonso de Palla e o jornalista João Chagas.

No que respeita à cor branca, a comissão nada teve contra, reconhecendo-a, aliás, como elemento fulcral na identidade visual da nação. Mas, talvez por a coerência não ser o forte dos iluminados, a verdade é que a dispensaram. Já a cor azul, essa é que lhes fez saltar a tampa, causando-lhes uma alergia de todo o tamanho. Pois, simbolizava o culto mariano, em particular, a tradicional devoção portuguesa à Nossa Senhora da Conceição - o que bastou para que a tal comissão revelasse, afinal, uma tremenda comichão.

Assim, resolveram alegar que o azul era uma cor demasiado branda e que tirava energia ao povo. Ao contrário do vermelho, cor combativa, quente, viril, cantante, ardente, alegre. Em suma, revolucionária. E o verde, cor do futuro e da esperança positivista, também consagradora da revolução. Curiosamente, porém, foi a partir dessa altura que a bandeira passou a ocultar uma extraordinária ironia. Representados pela suposta pusilanimidade do azul mariano, os tais frouxos, pelos vistos, foram aqueles que lutaram pela independência do reino, reconquistaram o território aos mouros, construíram a Universidade de Coimbra, inventaram o astrolábio e a caravela e navegaram pelo globo.

Por outro lado, os tais enérgicos, combativos, quentes, cantantes e alegres, afinal parecem ser os que se agarram ao emprego do Estado, apostam carreiras nas jotas, dizem que há mais vida além do défice, criam dívida para os netos pagarem, adoram tirar selfies com o Presidente, receber sem sair de casa e fazer um manguito aos que ainda se atrevem a criar riqueza ou aventurar-se pelo mundo.

Parece-me bem, de facto. Estava na hora de substituirmos a bandeira dos frouxos que partiram pela dos heróis que cá ficaram.

Economista e investidor

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