À beira do precipício, o passo em frente

A teimosia de António Costa em, após seis anos a liderar governos minoritários, recusar ver e considerar todo o espetro político pode sair-nos cara a todos. Se no momento pós-troika a viragem à esquerda pode ter-lhe sido fundamental para capturar o poder e devolver à sociedade o que esta reclamava, seria de esperar que a capacidade de entregar mais e mais, orçamento após orçamento se fosse esboroando. E naturalmente, entre conquistas de BE e PCP e até alguns rebuçados atirados ao PAN, a margem financeira para responder às sucessivas exigências da extrema-esquerda foi-se - como se vê neste "Orçamento bom para Portugal e bom para os portugueses, que na verdade pouco ou nada entrega"; como se vê no anúncio conjunto feito na quinta-feira pelas ministras da Presidência do Conselho de Ministros, do Trabalho, da Saúde e da Cultura. Por um lado, proclamam-se medidas para mudar o contexto laboral cuja negociação caberia à Concertação Social, esvaziando esse fórum fundamental em nome da capacidade governativa - sem resultados - e impondo o que não agrada nem a sindicatos nem a patrões. Por outro apresentam-se medidas gerais para captar médicos para o SNS que numa leitura não especialmente atenta se revelam vazias e ineficazes - a exclusividade paga-se, é simples. E 17 euros por hora contra os 70 conseguidos por quem faz o trabalho por encomenda especial não são atrativo nenhum. Mas acenar com o vil capital não é mel que atraia a extrema-esquerda.

A verdade é que Costa, que sabe ser essencial manter contas equilibradas, já não pode oferecer muito a BE e PCP, sobretudo numa altura em que é preciso dar gás à recuperação da economia - e isso faz-se do lado das empresas, do investimento, dos estímulos à capitalização, da abertura de caminho ao setor privado. O Estado não tem uma impressora de dinheiro na cave: tudo quanto paga sai do bolso dos contribuintes. E não é pouco, como se vê pela brutal carga de impostos com que vivemos em Portugal.

Um Orçamento do Estado que visa empurrar a economia, que tem um volume enorme de fundos europeus para distribuir e que é apresentado num momento em que toda a Europa - todo o mundo, na verdade - está em concorrência aberta pela captação de investimento e obras tem de se virar para as empresas. A extrema-esquerda nunca o aceitará e Costa recusa desviar-se para o centro e para a direita. Na pior das hipóteses, arriscamos ver o Orçamento chumbado e o país atirado para mais uma crise profunda - política, económica e reputacional. Na péssima alternativa - porque procurar acordos do outro lado do espetro político é uma linha vermelha para o primeiro-ministro que se vende como o rei da negociação -, o governo verga-se à vontade de BE e PCP e hipoteca os próximos anos.

Costa insiste em não se desviar do caminho que traçou, mesmo que esse caminho o leve a um buraco negro. Por obstinação ideológica, o primeiro-ministro está disposto a fazer perder o país.

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