A caça aos outros

das atitudes mais nocivas na vida em sociedade é resumir todas as questões ao “nós contra eles”.

O ser humano é tribal e capaz de atos de extrema violência quando se convence que está a defender o seu grupo contra os outros. A história está cheia de episódios em que a política se focou nos outros, sejam eles os judeus, os negros, ou os estrangeiros, e se cometeram actos abomináveis.

Para quem prefere séries de televisão, a premiada “Walking Dead” ilustra esta tragédia. A civilização depende de cada um perceber que, escolhendo outra pessoa ao acaso, ela vai ser parecida consigo nalguns aspetos, e diferente noutros. Eu faço parte de tantos grupos nas minhas múltiplas características que posso viver em sociedade porque resisto a encarar todas as discussões apenas em termos do que “eles” fazem a “nós”.

A depressão económica em que Portugal se encontra é solo fértil para a caça ao outro. Por exemplo, o governo anterior usou e abusou da caça ao funcionário público de forma muito nociva. Até agora, a dupla Marcelo Costa tinha mudado o debate, e bem, mas a dupla Galamba Mortágua atirou uma pedra neste esforço no encontro do PS em que a deputada do BE disse: “Não podemos ter vergonha de ir buscar a quem está a acumular.” Nos dias seguintes, Mortágua explicou-se. Quem tem mais de 500 mil euros de património imobiliário não é ela ou as pessoas que ela quer defender. Abriu a caça aos outros, “os ricos”.

Alguns exemplos mostram o erro e o perigo deste discurso (e são fáceis de mudar se o limite for 5 milhões em vez de 500 mil). O João tem 100 mil euros e compra uma casa de 1 milhão com empréstimo bancário. O José tem 100 mil e compra uma casa desse valor. A diferença é que o João tem 30 anos e uma vida de trabalho pela frente para pagar o empréstimo, enquanto o José tem 70 anos e nenhum banco lhe empresta. Têm a mesma riqueza, mas o João paga, o José não.

A Ana tem um milhão de euros e um bom curso superior em que aprendeu a importância da diversificação dos investimentos e sabe ler as características dos produtos financeiros. Por isso, ela distribui o dinheiro por acões, obrigações, e imobiliário. A Eva não tem estudos superiores e com esforço poupou 500 mil euros. Não confia nos bancos, por isso investiu tudo numa casa. A Eva paga, a Ana não.

O Bruno herdou 10 milhões e dedicou a vida à desacumulação efusiva: gastar tudo em festas, drogas e carros. Só sobra uma quinta de 400 mil euros. A Maria começou do nada e acumulou 500 mil numa casa que quer deixar aos filhos para que não tenham de sofrer o que ela sofreu. A Maria paga, o Bruno não.

Quando fala dos outros que devem ser caçados, Mortágua obviamente não se refere aos mais jovens, aos menos educados, ou aos mais humildes. Mas as consequências deste (ou de qualquer outro) imposto são assim, variadas e complicadas, sem distinções fáceis entre pobres e ricos. A mudança proposta do IMI tem prós e contras que merecem discussão. Já os termos em que foi posta, esses não são legítimos.

Professor de Economia na London School of Economics, em Londres.

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