A caminho da crise do subprime do futebol? 

A crise do subprime foi uma crise financeira despoletada em 2007 pela queda abrupta do índice Dow Jones em virtude da concessão, hoje considerada totalmente irresponsável, de empréstimos hipotecários a clientes que apresentavam elevado risco de incumprimento. 

O que aconteceu é que com a progressiva desregulamentação do mercado financeiro norte-americano ao longo das décadas anteriores, importantes instituições começaram a apostar em "inovações financeiras" que deram origem a produtos estruturados que, na prática, se encontravam contaminados por aqueles empréstimos hipotecários de alto risco.

Contudo, a criação de fundos de fundos acabou por encobrir esse lixo tóxico, criando a ilusão de que se tratava de produtos financeiros de elevado valor e com forte potencial de capitalização, quando a realidade era bem diferente pois na sua base estavam ativos que valiam efetivamente muito pouco.

Sem querer adotar uma terminologia demasiado técnica, em linguagem popular dir-se-ia que se tratava de gigantes com pés de barro; se preferirmos uma linguagem um pouco mais sofisticada, pode-se afirmar que se estava perante uma bolha especulativa.

Tudo isso teve um efeito sistémico global. Basta recordar que em 2008 se dá a falência do Lehman Brothers - e mais não houve porque o governo norte-americano pôs rapidamente de lado a sua tradicional política de deixar o mercado funcionar - e que no ano seguinte se desencadeou a crise das dívidas soberanas da Zona Euro com todos os impactos negativos que daí advieram e que são bem conhecidos.

Vem isto a propósito do futebol. Sem querer ser alarmista ou especulativo, pergunto-me se o mundo do futebol de alta competição não estará a caminho da sua crise do subprime. Quando vejo transações de passes de jogadores por valores impensáveis ainda há poucos anos, tudo parece encaminhar-se para uma bolha especulativa, não de ativos financeiros, mas de contratos de jogadores.

Não vou questionar casos concretos. Não vou questionar, porque não tenho competências para isso, se os jogadores A, B ou C valem os milhões que são pagos pelos seus passes. Mas não deixo de pensar se tudo isto não será uma grande ilusão - até porque as ilusões só se tornam percebidas como tal depois de as coisas acontecerem uma vez que até aí, e por definição, andamos iludidos.

Quando em abril deste ano doze dos maiores clubes anunciaram que pretendiam criar uma Superliga Europeia, nada mais estavam a fazer do que a propor uma "inovação do modelo de negócio" capaz de gerar milhares de milhões de euros adicionais que fossem capazes de sustentar a referida bolha. Tivesse essa proposta ido para a frente e a dita superliga não seria mais do que um circo onde um conjunto de performers pertencentes a uma dúzia de "companhias" iria exibir as suas habilidades.

Já aqui tenho afirmado que o futebol de alta competição é hoje mais do que um desporto - é também um espetáculo. Sobre isso não tenho nada a opor. O que sou é contra a pretensão de o transformar num mero circo. O que me leva a colocar três questões. Será que é isso que os clientes - isto é, os fãs espalhados por esse mundo fora - querem? E sem sustentabilidade financeira que aguente as contratações por valores galopantes, não estaremos efetivamente a caminhar para uma bolha especulativa? E, se assim for, qual dos grandes clubes virá a ser o "Lehman Brothers" do futebol?

Volto a salientar que não quero ser nem alarmista nem especulativo. Mas, e porque verdadeiramente me limito a levantar questões, tomo a liberdade de me inspirar em Alvin Toffler e recordar que "as perguntas certas são geralmente mais importantes do que as respostas certas às perguntas erradas".

Professor da Faculdade de Economia da Universidade do Porto

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