A carne vermelha e a Universidade do Facebook

Esta recomendação da OMS só surpreende quem nunca esbarrou com estudos e relatórios sobre longevidade, prevalência de cancro e sustentabilidade ambiental

Quatro dias depois de ter classificado as carnes processadas como carcinogéneas e a carne vermelha como potencialmente carcinogénea, a Organização Mundial de Saúde (OMS) emitiu um segundo comunicado devido à comoção que se seguiu.

Viu-se obrigada a lembrar que a IARC – International Agency for Research on Cancer – foi fundada há 50 anos para investigar de forma independente uma das doenças mais mortíferas da sociedade moderna.

E perante o relatório da IARC urgindo à redução do consumo de carnes processadas e carnes vermelhas, como é que a maioria da população reage? Nega, faz piadas, escreve umas chalaças no Facebook, provavelmente sem sequer ter postos os olhos na argumentação da Agência, que analisou 800 estudos epidemiológicos sobre cancro e carne vermelha.

Haverá de certeza quem ache que este relatório e esta recomendação é produto do lóbi dos criadores de couves e batatas, esses grandes grupos de interesses que gastam milhões em publicidade. Comenta-se num ou outro artigo, partilha-se uns blogues com listas do que faz bem à saúde, e está completo o curso de nutrição na Universidade do Facebook. São mais credíveis os artigos da Revista Maria que o trabalho de cientistas.

Esta recomendação da OMS só surpreende quem nunca esbarrou com estudos e relatórios sobre longevidade, prevalência de cancro e sustentabilidade ambiental – algo natural quando se passa ao vegetarianismo/veganismo, que é o meu caso. Há anos que investigadores, médicos, cientistas e até filantropos publicam o que é o maior pesadelo desta indústria: a criação massiva de gado em fábricas é das maiores ameaças ao planeta – consumo excessivo de água, ocupação e exaustão de solo com cereais para animais em vez de humanos, e emissão de gases com efeito de estufa (das próprias vacas). Está-se activamente a destruir o planeta para produzir uma oferta de carne que é desnecessária nas sociedades ocidentais. Dizem-no a NASA, a USDA, as Nações Unidas, até a fundação Bill and Melinda Gates.

Pior, tal oferta de carne não só é desnecessária como potencialmente maligna. Ao contrário do que muito dinheiro gasto em marketing propagandeia, ninguém precisa de comer carne de manhã, à tarde e à noite todos os dias da semana. Não é preciso sequer referenciar o The China Study do dr. T. Colin Campbell (que muitos “universitários" do Google e do Facebook se têm dedicado a contrariar), mas apenas olhar para dados empíricos. As Zonas Azuis , cinco regiões no planeta onde o número de centenários é anormalmente superior à média, têm uma coisa em comum: os seus habitantes raramente comem carne.

Há cada vez mais médicos a recomendarem uma grande redução (quando não eliminação) do consumo de carne, em especial vermelha, e em especial processada. O dr. Garth Davis (cirurgião especializado em bandas gástricas para obesos mórbidos) acaba de publicar um livro chamado “Proteinaholic” onde aborda precisamente esta obsessão com as proteínas, que está a ter um excelente resultado do ponto de vista dos lucros das farmacêuticas e da indústria das dietas.

É normal que não se engula a informação de forma directa, sem questionar. Mas porque é que isso só é feito quando uma organização como a OMS avisa para o perigo da carne e pede uma redução do consumo? Porque é que não se questionam as barbaridades que vêm escritas por accounts de marketing nas embalagens de leite sobre como é tão essencial para os ossos, e como o fiambre tem tanta proteína e menos gordura, como as salsichas são óptimas para os lanches dos miúdos?

Porque é que não se questiona aquele sabichão lá do ginásio que diz que é preciso enfiar três bifes ao jantar para criar músculo, e que os vegan/vegetarianos são uns emaciados?

É natural que se questione. Questione-se então: siga-se o dinheiro. Quem é que lucra com esta epidemia de má nutrição? São as pessoas que pedem maior consumo de frutas em vez de morcela? Quando a Direcção-Geral de Saúde publicou o mais recente relatório sobre alimentação saudável no final de 2014, avisou que há 3,5 milhões de pré-obesos e 1 milhão de obesos em Portugal. Principais motivos: consumo excessivo de carne, sal e calorias.

Pode-se gozar com a cara da OMS ou com a DGS – mas não me parece que alguém vá buscar amianto para pôr em casa só porque “tudo mata” e “vive como queres”, ou substitua a água por aguardente só para ver se arranja uma cirrose. Se alguma coisa sobrar desta reacção a uma recomendação da OMS que se sustenta em evidências, então que seja isto: pelo menos não digam que a “carninha” faz muito bem.

Jornalista residente em Los Angeles, Estados Unidos

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