A carroça à frente dos bois

É um eufemismo, claro. Despimo-lo, então: A tecnologia à frente do conhecimento.

O mundo começou por viver de idades. A idade da pedra; a idade do bronze; do fogo, da roda e por aí adiante.

À medida que ia acelerando, as idades passaram a eras. A era dos descobrimentos; a era da revolução industrial; a era digital e, agora, a era da inteligência artificial e do blockchain.

Estamos então a falar do uso de elementos, materiais, artefactos, máquinas, energia, digitalização, ou seja, de técnicas e tecnologias. O mundo parece evoluir com a tecnologia, certo? Também, mas não só. O mundo, a civilização e as organizações avançam sobretudo com aquilo que decidimos fazer, no contexto de possibilidades que a natureza, a sociedade e a "querida" tecnologia permitem.

De nada serviria um astrolábio para quem não sabia que o mundo era navegável. De nada serviu a digitalização para quem "ainda" não sabia que toda a população mundial ia amar os smartphones.

É, pois, e sempre foi, a decisão que está na base do progresso e do sucesso. Até de inventar uma nova tecnologia. É a decisão - a estratégia, esse jogo de escolhas - que gera vantagem competitiva. Ora, bem sabemos que o determinante fundamental da decisão é o conhecimento - o sentimento, imaginação, coragem, vontade ou paixão seriam o outro determinante, não menos importante - e que este radica na interpretação da informação. O conhecimento é informação interpretada. O Steve Jobs e o Dom João II souberam usar informação e interpretá-la.

Importa ainda dizer que o contexto onde ocorre hoje a decisão é marcado por três informações incontestáveis. Três factos. O primeiro é que o mundo é digitalizado - a pandemia foi apenas a revelação final. O segundo é que é global. E o terceiro é que está acelerado, muito acelerado. Os dois últimos, muito impulsionados pelo primeiro, mas não só, também por muitas outras evoluções registadas até agora.

O mesmo é dizer que para sobreviver e triunfar no mundo de hoje é necessário produzir, à velocidade da luz, uma quantidade cada vez maior de decisões. Vence quem decidir mais depressa e melhor. O ritmo está estonteante.

A guerra do futuro que já chegou não será de quem tem a melhor tecnologia ou mais informação, mas de quem as usar melhor e mais depressa. Isso implica conhecer em tempo real os fundamentais das cadeias de valor - produto, processo, rentabilidade, cliente, preferência, cultura, colaborador, competência, parceiro, qualidade de vida, moeda, legislação, previsão, concorrência, enfim, centenas ou milhares, bem como as interações entre todos estes aspetos no negócio.

Este futuro já chegou. Basta observar que é exatamente isto que as grandes empresas já fazem. É aqui que elas competem. Mas mais: agora, levam, à escala global, esta competição às médias, pequenas e até micro-organizações.

O desafio é para absolutamente todos. Interpretar informação e usar o conhecimento para decidir bem e rápido em todos os segundos do percurso.

Não ponham, pois, a "carroça à frente dos bois": o caminho é tecnológico, mas trilhá-lo sem conhecimento é caminhar às escuras a altíssima velocidade.

Carlos Cardoso, CEO da GSTEP

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