A ciência precisa de marketing?

Numa altura em que o Governo acabou de nomear os membros do Conselho Nacional de Ciência, Tecnologia e Inovação, vale a pena recordar que Portugal investe cerca de 1,5% do seu PIB em investigação e desenvolvimento. Não é muito se comparado com a média da União Europeia que se situa na casa dos 2,2%. Mas, apesar de tudo, representa um esforço superior ao de Espanha e idêntico ao realizado por Itália. Só o ensino superior português investe cerca de 1,2 mil milhões de euros por ano em I&D.

Por outro lado, e como já tenho salientado neste espaço, a capacidade de valorização do conhecimento fica bastante aquém do desejável. Por outras palavras, se é verdade que o nosso País deve apostar mais em ciência, ainda é mais verdade que deve fomentar a valorização dos seus outputs, incorporando-os em produtos, processos e modelos de negócio competitivos à escala global e, consequentemente, geradores de mais riqueza.

Neste contexto, pergunta-se: será que a ciência está a precisar de marketing? Não me refiro apenas à divulgação dos resultados da investigação, tanto junto do meio académico como do público em geral. Refiro-me, isso sim, a uma verdadeira estratégia de marketing da ciência que dê resposta a desafios que vão muito para além daquilo que tradicionalmente se enquadra no campo da investigação científica:

- Quais são as "necessidades do mercado" que o conhecimento científico deve satisfazer?

- Quem são os seus "clientes", para além dos pares académicos?

- Como "promover" a ciência - e não apenas divulgá-la - junto dos principais targets?

- Como "distribuir" os resultados da investigação - isto é, como assegurar uma eficaz interface e logística entre o meio científico e tecnológico e o tecido empresarial?

- Como "transformar" conhecimento em soluções úteis para as empresas?

- Como "valorizar" económica e socialmente a ciência - ou seja, como incorporar o conhecimento em produtos, processos e modelos de negócio inovadores e geradores de mais valor?

Sei que estas questões não são pacíficas. Sei que só o falar em marketing da ciência despoleta dois tipos de reações: há os que dizem "obviamente que sim", mas também há os que defendem "obviamente que não".

O desafio que temos pela frente é conciliar estes dois campos, fomentando a cooperação entre os que estão radicalmente do lado dos negócios e os que estão radicalmente do lado da ciência. Aos primeiros chamo a atenção para o erro de só se apostar na denominada investigação aplicada, deixando de lado a de natureza mais fundamental. Aos segundos, compete-me desafiá-los para uma maior abertura às necessidades do mundo dos negócios e da sociedade em geral, nem sempre compagináveis com os timings, a cultura e os objetivos da carreira universitária e de investigação.

Afinal, a ciência precisa ou não de marketing? A resposta é, claramente, sim. E não é só cá em Portugal. Como Larry Page, cofundador da Google, salientou, a ciência tem um "problema sério de marketing". Sem a querer transformar numa mercadoria, também creio que um pouco mais de marketing não lhe fazia nada mal. Aqui e em qualquer parte do mundo.

Carlos Brito, vice-reitor da Universidade Portucalense

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