A competitividade não é um Power Point

Neste contexto progressivo de pós pandemia, um dos temas centrais para a nossa economia e sociedade prende-se com a questão da Competitividade. Deixo aqui algumas notas sobre algumas dimensões do tema. No atual panorama de análise da situação económica de Portugal, há duas clarificações a fazer. Primeiro, a crise de crescimento atual (o recente valor de 5.4 pontos negativos para o 1º trimestre é muito preocupante) está claramente associada à pandemia nas suas diferentes dimensões - mas não podemos esquecer que a não convergência para a média de rendimento per capita da UE dura há mais de duas décadas e, por isso, em paralelo àquele fenómeno imprevisto, há um problema estrutural em Portugal. Segundo, se existe um problema específico no País, na sua estrutura económica, coloca-se a questão de como o resolver e se é possível resolvê-lo com relativa probabilidade de sucesso, dada a abertura da nossa economia e as redes desenvolvidas nos últimos anos. Uma realidade é certa - a Competitividade não é nem pode ser um mero power point.

Portugal não consegue atingir os níveis de produtividade da EU e isto é uma condição sine qua non para se atingir os grandes objectivos de prosperidade, solidariedade e qualidade de vida. Como é que vamos além dos grandes números (PIB por habitante) e identificamos as variáveis concretas que vão propiciar aquela convergência? Como é que se passa do debate macro-económico para o chão das empresas?

Em primeiro lugar, um estudo recente da OCDE e o Anuário do INE já identificaram causas para a falência do modelo actual, de onde se salienta:

a) um modelo exportador, mas que é reactivo relativamente aos mercados e relativamente pobre em valor acrescentado;

b) uma crença no IDE sem a adequada incorporação de produção ou decisão nacional naquilo que faz;

c) transferência de mão de obra e capital para actividades de baixo valor acrescentado.

Numa frase, com este modelo obtivemos um País de baixa produtividade e muito dependente do exterior, porque implementámos mal o que parecia ser uma boa receita: exportações; infra-estruturas; atracção de capital estrangeiro via investimentos e via turistas. Impõe-se - por agora a título de ideias em discussão - corrigir o rumo e a posição dos protagonistas do processo de desenvolvimento do País, em ordem a obter um modelo mais assertivo e mais eficaz. As variáveis para esse processo, com base em dados do Fórum Económico Mundial e para o caso Português, são:

a) aumentar as exportações no PIB, mas fazê-lo porque se trabalha para clientes mais exigentes. Abandonar a captação de clientes baseada nas vantagens de preço baixo e procurar os clientes mais sofisticados - pagam mais pelo valor acrescentado e ainda nos desafiam a modernizar e a aumentar os nossos padrões de exigência a vários níveis. Isto reforçará factores de competitividade baseados em recursos e capacidades únicos, flexíveis e valiosos, por oposição aos modelos mecânicos, lineares, baseados na minimização de custos;

b) apostar na dinamização de indústrias de bens transaccionáveis de média e alta intensidade tecnológica, procurando envolvê-las com os grandes investimentos de IDE. Isto reforçará o capital empreendedor, normalmente em micro e médias empresas/projectos, e contribuirá para a fixação de conhecimento, ganhos económicos e aumentos nos centros de decisão Portugueses;

c) apostar na educação superior e na formação. Mas isto não significa elevar o número de diplomados por si. Significa promover o grau de utilidade da educação/formação para as empresas. Actualmente assiste-se à emigração de talentos ou ao sub-emprego de licenciados, por falta desta relação entre centros de formação e empresas. A solução não é um "super-plano" que aponte as áreas prioritárias - isto é ineficaz. É antes introduzir concorrência e liberdade de opção entre as escolas, universidades e centros de formação, para além dos investimentos em estrutura e nas pessoas dessas instituições. Rapidamente os benefícios da internalização de mecanismos de mercado serão transpostos para outras áreas de welfare;

d) o Sector Público consome, em despesa total, uma parte importante do PIB Português. É preciso reflectir muito seriamente sobre tomar uma de duas opções: ou este número se reduz para níveis mais eficientes, com a necessária revisão das funções do Estado; ou o Sector Público aprende a tornar-se mais produtivo e devolve à Sociedade, em serviços públicos e em bem-estar, tanto ou mais quanto lhe cobra em impostos.

Precisamos de apostar numa Nova Competitividade, centrada em fatores estruturantes que mobilizem a sociedade e a economia para uma nova agenda inteligente:

(O autor escreve segundo o Antigo Acordo Ortográfico)

Francisco Jaime Quesado, Economista e Gestor - Especialista em Inovação e Competitividade

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