A competitividade tem que ser a nossa marca

Numa altura em que a nossa economia e sociedade se voltam a abrir, tempo para também falar dos desafios que temos para a Marca Portugal. A Marca de Portugal não se faz por decreto e importa clarificar alguns dos seus fatores de contexto. Um desses fatores prende-se com a dimensão da Competitividade, que mais do que nunca deve ser uma das nossas Marcas para o futuro. O exercício de construção duma base competitiva para a nossa economia tem sido enfermado nos últimos anos por muitos equívocos em termos de modelos a definir, apostas a fazer e linhas de ação a executar. Neste tempo de pós pandemia, com o efeito acelerador que os fundos comunitários voltarão a ter, importa mais do que nunca recentrar a análise do que deve ser a nossa agenda competitiva e fazer dela a verdadeira Marca de Portugal daqui para a frente.

Portugal não consegue atingir os níveis de produtividade da EU e isto é uma condição sine qua non para se atingir os grandes objectivos de prosperidade, solidariedade e qualidade de vida. Como é que vamos além dos grandes números (PIB por habitante) e identificamos as variáveis concretas que vão propiciar aquela convergência? Como é que se passa do debate macro-económico para o chão das empresas?

Em primeiro lugar, um estudo recente da OCDE e o Anuário do INE já identificaram causas para a falência do modelo actual, de onde se salienta:

a) um modelo exportador, mas que é reactivo relativamente aos mercados e relativamente pobre em valor acrescentado;

b) uma crença no IDE sem a adequada incorporação de produção ou decisão nacional naquilo que faz;

c) transferência de mão de obra e capital para actividades de baixo valor acrescentado.

Numa frase, com este modelo obtivemos um País de baixa produtividade e muito dependente do exterior, porque implementámos mal o que parecia ser uma boa receita: exportações; infra-estruturas; atracção de capital estrangeiro via investimentos e via turistas. Impõe-se - por agora a título de ideias em discussão - corrigir o rumo e a posição dos protagonistas do processo de desenvolvimento do País, em ordem a obter um modelo mais assertivo e mais eficaz. As variáveis para esse processo, com base em dados do Fórum Económico Mundial e para o caso Português, são:

a) aumentar as exportações no PIB, mas fazê-lo porque se trabalha para clientes mais exigentes. Abandonar a captação de clientes baseada nas vantagens de preço baixo e procurar os clientes mais sofisticados - pagam mais pelo valor acrescentado e ainda nos desafiam a modernizar e a aumentar os nossos padrões de exigência a vários níveis. Isto reforçará factores de competitividade baseados em recursos e capacidades únicos, flexíveis e valiosos, por oposição aos modelos mecânicos, lineares, baseados na minimização de custos;

b) apostar na dinamização de indústrias de bens transaccionáveis de média e alta intensidade tecnológica, procurando envolvê-las com os grandes investimentos de IDE. Isto reforçará o capital empreendedor, normalmente em micro e médias empresas/projectos, e contribuirá para a fixação de conhecimento, ganhos económicos e aumentos nos centros de decisão Portugueses;

c) apostar na educação superior e na formação. Mas isto não significa elevar o número de diplomados por si. Significa promover o grau de utilidade da educação/formação para as empresas. Actualmente assiste-se à emigração de talentos ou ao sub-emprego de licenciados, por falta desta relação entre centros de formação e empresas. A solução não é um "super-plano" que aponte as áreas prioritárias - isto é ineficaz. É antes introduzir concorrência e liberdade de opção entre as escolas, universidades e centros de formação, para além dos investimentos em estrutura e nas pessoas dessas instituições. Rapidamente os benefícios da internalização de mecanismos de mercado serão transpostos para outras áreas de welfare;

d) o Sector Público consome, em despesa total, uma parte importante do PIB Português. É preciso reflectir muito seriamente sobre tomar uma de duas opções: ou este número se reduz para níveis mais eficientes, com a necessária revisão das funções do Estado; ou o Sector Público aprende a tornar-se mais produtivo e devolve à Sociedade, em serviços públicos e em bem-estar, tanto ou mais quanto lhe cobra em impostos.

A Economia Portuguesa enfrenta um choque estratégico daqui para a frente. É um facto que os fatores estruturais associados às principais áreas de intervenção da nossa economia continuam a apresentar grandes debilidades - apesar da evolução positiva na área da inovação e da tecnologia, os modelos de governação e de organização da maior parte das empresas continuam a apresentar muitas fragilidades, com todas as consequências. Precisamos por isso de um choque positivo e o papel de todos será determinante nesse sentido. Precisamos de fazer da Competitividade a nossa Marca.

(O autor escreve de acordo com o Antigo Acordo Ortográfico)

Francisco Jaime Quesado, Economista e Gestor - Especialista em Inovação e Competitividade

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