A Comporta importa. Mas pouco

Ponha o dedo em Alcácer do Sal. Faça uma linha para a esquerda até chegar à Comporta e daí para baixo, junto ao mar, outra até Melides. Agora vire para o lado até tocar em Grândola e volte ao ponto inicial. Acabou de desenhar o retângulo que mais dinheiro pode trazer a Portugal nas próximas décadas. Sem minas de lítio nem fábricas de automóveis, só turismo. A única área que já produziu uma tendência de consumo mundial (facto) e a única que, aos dias de hoje, nos pode fazer prescindir do turismo de massas.

Comecemos pelo fim, por essa estranha quadratura do círculo que a política nos pede: que é preciso matar o turismo de massas e manter as receitas do turismo na economia. É possível, na verdade, mas com uma solução que presumo não agradar a todos: o turismo de luxo. Por outras palavras, só é possível ter cá menos turistas se os que cá estiverem gastarem muito mais - La Palice.

Ora, esse pedaço de terra que desenhou na cabeça, a que os estrangeiros chamam Comporta para facilitar, é o único destino turístico (por estragar) que ainda nos pode dar isso.

Sublinho o pode, porque (1. lado positivo) o potencial está todo lá. Quando uma editora de luxo, como a Assouline, põe a Comporta ao lado de St Tropez, Mykonos, Capri, Ibiza ou os Hamptons americanos; quando um planeta de famosos escolhe viver ali; e quando todo o capital imobiliário do mundo está obcecado com as dunas e os arrozais do Sado, o potencial é um dado adquirido. Mas (2. fatores de risco), o retângulo é governado pelo Partido Comunista, que não tem muita literatura sobre turismo de luxo; e, pior, não há qualquer orientação nacional, ou pelo menos supramunicipal, que reconheça este valor estratégico da área para o país. Só para dar um exemplo: Comporta não faz parte da sinalização da A2.

E a tal tendência de consumo? Chama-se "estilo Comporta" e, goste-se ou não, é a referência estética do momento no design de interiores. Em Singapura, São Paulo, Nova Iorque ou Pequim, pergunte-se a qualquer arquiteto de interiores o que Comporta style significa e nenhum o ignora. É o antigo hippie chic, que junta uma série de elementos da zona, pouco relevantes para este artigo, mas reconhecidos como um traço coerente, originário de Portugal, e que faz capas de revista e posts de Instragram pelo mundo fora.

Tudo isto vale muito dinheiro, mas pode valer infinitamente mais. A Comporta do futuro, sem resquícios de BES e outras más memórias, merecia um plano administrativo ambicioso. Um plano que prevenisse o dilúvio imobiliário, mas que ao mesmo tempo garantisse a presença de conteúdos de qualidade, bem agrupados e enquadrados na natureza. Senão vai dar asneira.

President & Creative Director Time Out Market

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