A confiança nas instituições 

Mais do com a recuperação da presente crise, preocupo-me, sobretudo, que saibamos fazer dela uma oportunidade de transformação da economia e da sociedade.
O sentimento de incapacidade da economia em responder às aspirações dos cidadãos era já patente antes da eclosão da pandemia e este é um dos potencias fatores que alimentam a ascensão de defensores de soluções extremistas e populistas que ameaçam os valores e as causas em que continuo a acreditar.

O antídoto para esta ameaça está, em grande parte, no sucesso das políticas económicas que forem aplicadas para promover o crescimento. Mas as ameaças às causas que defendemos não estão apenas na economia. Estão também no cinismo e no desconforto com o funcionamento das instituições, alimentados por experiências continuadas de corrupção, descredibilização e outros défices de desempenho institucional.

Uma sondagem revelava, há poucos meses, que apenas 21% dos portugueses tinham uma confiança "grande ou muito grande" nos partidos políticos em geral. A mesma percentagem era só de 15% relativamente aos tribunais e aos juízes.

Continuam a surgir revelações, acusações e suspeitas que enchem as primeiras páginas dos jornais e parecem banalizar determinados tipos de comportamentos e práticas que põem em causa o funcionamento do Estado de direito. Nesta semana, a facilidade e desfaçatez com que alguém condenado várias vezes em tribunal, escapou à justiça veio alimentar o sentimento de impunidade que se vai instalando na sociedade portuguesa.

Como já afirmei neste espaço, sendo a Justiça um dos pilares da Democracia, a falta de confiança dos cidadãos na justiça põe em causa o próprio regime democrático. Por isso, é fundamental restaurar a confiança no sistema judicial, nas suas instituições, nos seus agentes. Custe o que custar, é essa a reforma estrutural mais urgente e mais importante que se impõe a Portugal.
A questão de como restaurar a confiança e melhorar a qualidade das instituições é, no entanto, mais vasta, não se podendo limitar ao setor da justiça.

Uma pista será a da criação de mecanismos que conduzam a uma maior consonância, no seio de cada organização, entre objetivos individuais dos agentes (e, sobretudo, dos decisores) e os objetivos coletivos das próprias instituições.
Mas, acima de tudo, não podemos esquecer que as instituições são formadas por pessoas. Empresários, gestores, todos os trabalhadores, decisores políticos, dirigentes e colaboradores das associações da sociedade civil - somos todos e cada um de nós fator de sucesso ou insucesso da sociedade.

A nossa responsabilidade passa por uma atitude de cidadania ativa, individual e coletivamente, não receando assumir, se necessário, papéis de liderança, nem sempre cómodos, mas indispensáveis à preservação das instituições que defendemos.
Não nos podemos demitir da nossa participação na vida pública e queixarmo-nos, depois, por ela ficar capturada por quem dela se pretende aproveitar para atingir objetivos individuais, mais do que para servir o superior interesse público.

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