A covid comeu a língua à esquerda

Eu, se fosse de esquerda, assumiria várias lutas a propósito desta maldita pandemia. Daquelas lutas mesmo boas que estão para a esquerda como as gomas estão para o meu filho mais novo e o meu carro para os meus filhos mais velhos. Começaria pela luta da igualdade de género (não sei se ainda se chama assim mas vocês percebem). Os cartazes seriam quase poéticos: "Somos mães, não somos reféns"; "A luta continua, miúdos para a rua"; "Pais, vão cozinhar; nós queremos trabalhar". Tudo com pontos de exclamação. Isto, porque a pandemia veio mostrar que, no final do dia, quem se trama são as mães, as mulheres, a maioria. Os pais que acidentalmente tropeçarem nesta crónica podem barafustar o que quiserem e puxar dos vossos galões de pais exemplares e modernos do século XXI, mas sabem tão bem quanto eu que tirando 20% dos casos (no máximo dos máximos), é às mães que os miúdos perguntam o que é o raio jantar e são as mães que andam pela casa a mandar calar os filhos porque o "pai está em reuniões". Já as nossas reuniões são na casa de banho ou trancadas num sótão escuro enquanto a sopa está a aquecer.* E pior: são as mães que estão nos grupos de WhatsApp das turmas do filhos. (Sim, existem esses grupos).

Fosse eu de esquerda e assumiria esta luta pela igualdade, pelos direitos das mulheres a não serem torturadas pelos filhos - com a fúria que a causa merece. E faria greves. Querem ligar o Teams? Azar - não ligava. Em vez de soutiens, queimava computadores e em vez de amor livre, exigiria wi-fi livre. A escola é para quem trabalha, não é para os calões dos miúdos que assistem às aulas na cama.

E o que diz a esquerda sobre esta temática em defesa dos explorados? Piu.

Outra guerrilha pandémica que a esquerda deveria liderar - caso ainda lhe restasse algum do oportunismo populista que sempre a caracterizou - era a da luta de classes propriamente dita, a clássica. A luta entre os que têm dinheiro e propriedades e os outros. Seria, portanto, uma luta entre os funcionários do Estado e os restantes; o público e o privado; o Estado e o Capital. Ou seja, os que têm emprego e propriedade garantidos apesar da pandemia, por um lado, contra os que estão falidos, sem empresas, sem dinheiro e à espera do fim das moratórias para vender as propriedades, por outro. Fosse eu de esquerda, era buzinão que fervia à frente de todas as empresas públicas, dos serviços públicos e de todas as instituições e entidades que pagam ordenados entre o dia 18 e 22 de cada mês dê por onde der. "Privados unidos, jamais serão vencidos", seria o meu lema na luta contra a burguesia instalada do setor público. Em defesa dos mais desfavorecidos, da incerteza profissional, da desigualdade salarial, da instabilidade laboral, dos postos de trabalho, da dignidade dos trabalhadores, da Constituição, vá. As minhas manifestações até fariam tremer as pernas da CGD - e as dos alemães, já agora.

Mas como não sou de esquerda, vou ali acabar a lida da casa e temperar o lombo para a janta.

*Enquanto escrevi este artigo fui interrompida 12 vezes para limpar rabos, acabar com discussões, responder a perguntas parvas... E atenção: eu escrevo depressa porque não tenho cuidado nenhum com as gralhas.

Jurista

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