A crise do CES Las Vegas

O entusiasmo pelo regresso presencial do evento mais importante no ano sector tecnológico era palpável há meses. Milhares de expositores, milhares de participantes, hotéis reservados em Las Vegas, dois dias de conferências de imprensa, uma primeira semana de Janeiro em cheio que ia fazer esquecer as agruras dos eventos virtuais do último ano.

Estava tudo a postos para um início em grande de 2022, com os grandes nomes da tecnologia a marcarem presença no CES Las Vegas. Até que, no final de Novembro, o alfabeto grego nomeou a mais recentes variante do coronavírus e os planos começaram a ficar tremidos.

Agora, depois do Natal e a poucos dias do arranque do evento, há uma hecatombe em Las Vegas. As multinacionais que toda a gente queria ver cancelaram a presença por causa da rápida disseminação da variante Ómicron, que está a varrer os Estados Unidos com uma fúria impressionante. Amazon, Twitter, Meta (Facebook), Google, Intel, Microsoft, Pinterest, TikTok, Lenovo e uma lista crescente de outros nomes não vão enviar ninguém a Las Vegas, citando os riscos da variante.

Mesmo os vacinados e com dose de reforço estão com medo - eu incluída. A reserva no Luxor e os planos de cobrir o evento presencialmente esfumaram-se com as estatísticas que estão a agravar-se diariamente. Não vale a pena apostar na ida a um evento onde as restrições necessárias vão torná-lo irreconhecível e impraticável. Os benefícios não justificam os riscos.

Estamos prestes a completar dois anos de pandemia e de cada vez que pensamos que atingimos o fundo, descobrimos que ainda há mais uns níveis para baixo. Realisticamente, será possível voltar a ter eventos tão megalómanos como o CES Las Vegas num futuro próximo? Aquilo que torna esta feira internacional de tecnologia tão importante e excitante é a sua dimensão, a concentração de inovações, as oportunidades de negócio e networking e uma energia incomparável.

Mas 250 mil pessoas a passarem pela feira na strip de Las Vegas no espaço de cinco dias é impossível de repetir no médio prazo. O que fará a CTA, organizadora do CES, nos anos que levaremos a debelar a pandemia?

Se é certo que os eventos virtuais não substituem, nem por sombras, os eventos presenciais, também é verdade que muita gente se vai perguntar porque é que há-de gastar dois dias a viajar de Singapura para Las Vegas se pode sentar-se ao computador e assistir ao livestreaming e fazer reuniões de Zoom.

A durabilidade da pandemia e a consciencialização de que as variantes vão surgir de forma cíclica- há todo um alfabeto grego para correr - significa que estamos nisto pelo futuro previsível. Há um ano, escrevi que o fim da pandemia tinha sido adiado para 2022. Agora, não tenho a certeza de que possamos ambicionar vê-la derrotada.

Viver com a covid-19, ao invés de acabar com ela, é a meta que temos de alcançar. Os não vacinados nos países desenvolvidos permanecerão uma minoria, sendo que é necessário colocar o foco na vacinação dos países emergentes. Não é a doar lotes de vacinas perto do fim do prazo de validade que vamos lá. Arregacem as mangas e descubram como fazê-lo. Percebam que, enquanto não sairmos disto todos juntos, ninguém estará a salvo.

2022 será o terceiro ano da pandemia. Façam com que conte.

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